Thursday, January 31, 2008

Até Quando?



Foi de um dia para o outro, não sei precisar bem quando, mas de repente Portugal tornou-se num país incómodo . Não para os outros países – como seria desejável - mas curiosamente para ele próprio. Portugal vestiu uma daquelas camisolas de lã ásperas, que em contacto com a pele, nos fazem levar a mão à gola vezes sem conta, como se tivéssemos deixado cair migalhas na cama. Portugal deixou de dormir bem, acorda ao mínimo barulho, duvida de tudo e de todos e , ironia das ironias, dúvida dele próprio. Houvesse um psicanalista para países e o nosso território estaria esparramado no divã a salivar da boca.

Portugal tornou-se num patrão mau que vê nos funcionários dos outros o exemplo a seguir. “Os outros é que são bons!”- nós não prestamos para nada, como aquelas mães que insistem em dizer “ Eu nunca vi um filho como este!” não percebendo que nunca tiveram outros e possivelmente nunca terão. Portugal arrisca-se a perder o que melhor tem, precisamente o seu “eu” que edificou a Portugalidade que até então, nos diferenciava.

Portugal é agora um pai severo que em caso de dúvida, não havendo quem se acuse, castiga todos por igual e tira-nos a playstation, inibe-nos de sair de casa todo o fim-de-semana quando queríamos ir jogar à bola, deixa-nos na sala de aula sem direito a recreio. Portugal, que era uma avó boa que nos dava rebuçados flocos de neve transformou-se no padrasto severo que só sabe dizer “ Tu tens que estudar! Tu tens que ter um curso!”

Para todos os efeitos, os Portugueses que – já viram o aborrecimento! – são os habitantes de Portugal, são olhados pelo estado como uma criança mal comportada para a qual é necessária, essa coisa bem bonita que em tempos foi usada pelos regimes bolcheviques. A reeducação. Isto é, teremos que começar tudo de novo, do zero, esquecer tudo o que aprendemos e de preferência, o que somos, para nos transformarmos numa outra coisa que, deus queira, seja muito distante dessa enfermidade que sofremos ao ser portugueses.

E ainda assim, muitos são aqueles que reagem como a mulher que leva porrada do marido e regressa a casa, ainda de lágrimas nos olhos, dizendo à vizinha do lado “ Ele até tem razão, eu sei que é para o meu bem!” quando sabe também, que daqui a pouco, mais pela noitinha, ouvirá o silvar do cinto a desprender-se das calças enquanto se questiona “ Até quando?”

Talvez por isso, Portugal arrisca-se a ficar em casa sozinho, a ser abandonado pela mulher que até então lhe era fiel, por perceber que este já não lhe merece o mínimo respeito, por amargamente concluir que este já não lhe bate porque gosta dela. Portugal bate em nós, porque não gosta de nós caramba, porque os outros é que são bonitos, porque os outros é que fazem bem – tão bom que era se fossemos todos finlandeses, todos loirinhos com narizes asseados, tão bom que fossemos outros e não nós, que ainda somos Portugueses.

E um dia virá, que Portugal precisará – imaginem só – de nós. E tal qual o filho que vê que nunca teve culpa de ter aquele pai, Portugal perceberá que foi abandonado pelos Portugueses, percebendo agora que os finlandeses, não estarão ao lado da cama para lhe segurar a mão.

Monday, January 28, 2008

Pedro Cardoso até 10 de Fevereiro no Teatro Mundial

Chama-se “O Autofalante” e está em exibição pela segunda vez no nosso país desde o passado dia 17 de Fevereiro. A peça é um monólogo esquizofrénico onde toda a ira e revolta se apoderam de um corpo estranho, aqui, de Pedro Cardoso.

Se perguntarem se é uma peça de humor, direi que sim. É. Mas se me perguntarem se não poderá ser uma peça melodramática, responderei o mesmo, abanando a cabeça e as orelhas para cima e para baixo. São as duas coisas sim, mas o humor é tão bom, que quase – eu disse quase – disfarça por completo algum do teor dramático que lhe está associado.

Pedro Cardoso é para muitos um dos melhores humoristas do Brasil mas para mim – digo-o sem cerimónia – é o melhor. Por isso, se querem ver o melhor comediante do Brasil em cena, saibam que ele só estará cá até 10 de Fevereiro. (www.mandrake.pt; 21 357 40 89)


Nota: Já hoje fui ao último dia do II Encontro Internacional de Narração Oral no Teatro Municipal de Almada e devo ter visto o Pedro Cardoso dos Espanhóis. Chama-se Oswaldo Felipe e, ao muito me engano, estive perante o melhor contador de histórias do mundo. Ou muito perto disso, pronto.

Friday, January 25, 2008

PASTELARIA de Mário Cesariny de Vasconcelos


Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Thursday, January 24, 2008

Recusamos ou sorrimos para a foto?





Sempre pensei que para se convidar alguém para escrever um prefácio era necessário sermos amigos. Do mesmo modo, que quando se escolhe o padrinho do nosso casamento – à partida – deve ser o nosso melhor amigo ou alguém cujo grau de parentesco quase nos obrigue a isso, tipo: pai, irmão, tio, avô, enfim, o que agora se lembrarem.

Com o tempo percebi que não, que muitas pessoas recebem um convite para irem a um casamento de um casal que possivelmente não vêem há mais de dez anos - e não se pode recusar porque fica mal – que cada vez mais recebemos sms de pessoas que escrevem algo como “envio esta mensagem apenas e só para os melhores amigos e tu fazes parte desta pequeníssima lista” e invariavelmente, ao vermos o nome de quem assina, percebemos que não conhecemos a pessoa de lugar algum, apetecendo enviar uma mensagem de resposta onde poderíamos dizer: “Numa lista tão pequena como a que revelas ter, também tens amigos que conheças?”

A verdade é esta, por vezes fazemos convites porque tem que ser e outros porque é importante que seja. Voltando ao exemplo do casamento - que dá muito jeito aqui - não é difícil perceberem como são diferentes estas duas formas. Reparem no exemplo “porque tem que ser”: “Vamos ao não convidar para o nosso casamento, a prima Vitória que era visita regular lá de casa quando éramos miúdos? Ah pois, e agora?” – em muitos casos, a resposta é afirmativa porque só se casa uma vez – seguramente com aquela pessoa – e sempre é mais uma para se juntar à festa. Depois, um exemplo “Porque é importante que seja”: Deve ou não convidar-se o comendador Melo, que embora não seja amigo da família é das pessoas mais importantes da cidade? Melhor: Convida-se ou não António Nunes, presidente da ASAE, quando sabemos ter um restaurante da família cujo sistema de ventilação pode não ser o mais adequado para a nova lei? Em ambos os casos, a probabilidade de dizermos “sim” é muito grande porque se revela importantíssimo assegurarmos desde logo o nosso futuro e alargarmos o nosso poder de influência ou – talvez mais isto – juntar-nos a quem o sabemos ter.

Em Portugal, ainda há muito gente a convidar para padrinho de casamento o patrão da empresa, como se isso fosse a garantia de uma promoção para breve ou inibidor de um despedimento sumário. E sabem que mais? Pode ser mesmo. Em Portugal ainda há muita gente a convidar para o seu casamento o tio rico que veio da América para viver a sua reforma dourada e não sabe o que há-de fazer ao dinheiro, como se fosse com eles que o quisesse gastar. E sabem que mais? Pode realmente fazê-lo. Em Portugal, ainda há muita gente que gosta de aparecer ao lado do senhor tal que é muito importante e dá uma imagem de um poderoso relacionamento que poderá lhes ser útil para o negócio que há muito esperavam celebrar. E sabem que mais? Pode resultar, pode haver celebração sim. Em Portugal, ainda há muito gente a convidar outros para o que quer que seja, apenas porque são conhecidos ou famosos ou com um último nome sonante que lhes garante a visibilidade que necessitavam para aquele evento, para aquela acção, para aquele produto. Em Portugal, ainda há muita gente a convidar outras a escreverem um prefácio para um livro sem nunca as terem conhecido – uma palavra sequer – sem perceberem se escrevem bem ou não que isso de nada importa porque o importante mesmo é serem conhecidos e apetecíveis para os fotógrafos que já se aproximam.

E se não me apetecer sorrir? E se não quiser ficar bem na foto? E se não quisermos escrever um prefácio para uma pessoa que sabemos não nos conhecer? A pergunta impõe-se: Recusamos ou sorrimos para a foto?

Sunday, January 20, 2008

O Novo livro do Revez!




Quando António Revez me fez o convite para escrever um prefácio para o seu novo livro, estaria longe de perceber que ao aceitá-lo o iria escrever em plena cama do hospital São José em Lisboa aquando de uma segunda operação, a que aqui o rapaz teve que ser submetido depois de um desafortunado acidente de mota.
No momento em que o escrevi lembro-me de que estava com um pijama que me havia sido dado pelo hospital - lindo de morrer! - e uns confortáveis chinelos de papel. Sem ler o livro, ainda sob o efeito da anestesia, foi uma sorte o ter conseguido.
Eis o prefácio:

De cada vez que vejo um livro cheio de palavras – como este que irão ler a seguir – fico muito feliz. Digo: "olha um livro!" e, posto isto, arremesso-me da primeira janela que tiver pela frente.
Quando vi este livro do António Revez estava felizmente num segundo andar, e é por isso que já com a clavícula fracturada e com duas ou três escoriações faciais sem importância, que escrevo este prefácio.


E para que serve? Para que serve um prefácio? Pergunto.


A ideia que muitos têm sobre um prefácio é que é algo que serve como uma espécie de recomendação gastronómica, tipo: "Tens que ir ao restaurante Casa do Adro que é muito bom", ou algo como, "Acho que devias ir ao Dr. Giestas. O Dr. Giestas é o melhor cirurgião do país".
Nota: É ou não é verdade, que só existem duas coisas em que as pessoas estabeleceram usar o epíteto "melhor" sempre que a elas se referem? Falamos de médicos: "É o melhor disto, é o melhor daquilo, “es lo mejor cariño", ou então quando nos referimos aos restaurantes da Mealhada:"O Pedro é o melhor!", "Não senhor, o Virgílio é que é!","Vocês endoideceram, a Meta, a Meta é que é o melhor!".


Onde íamos? Adiante. Falávamos sobre prefácios e o pior dos erros que podemos cometer ao fazer um, é precisamente ler o livro para o qual estamos a escrever. Quer isto dizer que eu não li uma única linha do que aí vem a seguir, e sabem que mais, não preciso. É nestas alturas que temos de nos lembrar de uma boa frase que uma qualquer celebridade tenha dito a propósito do que quer que seja numa revista do social.


Por exemplo, o Luís Represas gosta muito de dizer que os seus discos são discos de afectos, o que, com verdade, dápara tudo ("o meu restaurante é um restaurante de afectos";"o meu programa é um programa de afectos"; "o meu clube é um clube de afectos") pelo que não é difíciladivinharem que assenta como uma luva dizer já a seguir "O livro do Revez é um livro de afectos" e adeuzinho, vou indo que já se faz tarde.

Mas não, Revez merece mais um parágrafo, ou dois, ou três, os que forem precisos, mais que não seja para vos contar a forma como o conheci (se não quiserem saber desta história, podem muito bem ir comer qualquer coisa ao frigorífico ou beber algo fresco e voltarem mais daqui a pouco, que entretanto já terei isto concluído). Dizia.


Lembro-me bem da primeira vez que estive com ele, foi numa esplanada de Beja – a sua terra – e pressentindo conhecê-lo, com um brilho esfusiante no olhar, disse-lhe num fôlego: "Podia trazer-me um ice-T e uma salada mista aqui para esta mesa?". Foi aí que Revez me explicou que não, que não trabalhava ali mas que se eu quisesse, podia muito bem levantar-me e ir ao balcão fazer o pedido. E desde aí brincamos com isto. Chego a telefonar-lhe e a dizer "Sai uma tosta mista", e o sacana manda-me logo um SMS a ordenar, "Duas imperiais aqui para a mesa do fundo". De maneiras que foi isto que aconteceu e um destes dias, na brincadeira – lembro-me que já era tarde e estava para o frescote – enviei-lhe um SMS a dizer, "Sai um prego no prato ó faxavór", ao que o malandro me responde, "Sai um prefácio aqui para o Revez!". E pronto, aqui está ele. E agora que está feito, agora sim, vou começar a ler este livro.

Thursday, January 17, 2008

Memórias de um hipocondríaco





Desde muito miúdo que sou um homem doente, dói-me tudo, sofro de tudo, e por minha vontade deus nosso senhor já me teria levado para a terra dos pés juntos. Mas assim não quis e não raras vezes encontro-mo amarrado à cama porque estas miúdas de agora têm muitas fantasias e a surda vizinhança – é que não ouvem nadinha! - insiste em ter a televisão aos berros. Se não se importam vou gritar mais uma vez: “Tirem-me daqui, raios!”

Adiante. As pessoas só porque eu sou novo pensam que não posso ser doente e é muito usual que quando confidencio com alguém que me dói isto e aquilo dizerem-me sem peias: “oh homem não pense nisso, você é muito novo para ter uma coisa destas!” e posto isto alguém diz “Sai uma Imperial aqui para este amigo!” como se ao bebê-la de um só gole – e bebo-a pois – me curasse num instante a seguir. Reparem bem, como se pelo facto de ser novo, não pudesse ter doenças. É por isso que aqui relevo que não é nada fácil ser hipocondríaco com esta idade, pois com sintomas iguais aos meus, já vi muito boa gente a chamar uma ambulância ou o padre da freguesia a ser chamado para a extrema-unção lá em casa. Mas não. O simples facto de ser novo impede-me de ter uma doença rotulada de grave, como se estas estivessem à espera de termos uma determinada idade para nos atacarem de forma impiedosa. “Ora bem! – diz a doença grave- “Eu até me manifestava no corpo deste rapaz, mas o coitado é tão novo, prefiro ali aquele senhor que vai lá além com uma bengala!” Tenham juízo. As doenças graves não pensam assim e não escolhem as pessoas por idade. Há quem diga que é destino, eu prefiro pensar que é um azar daqueles.

O pior que me podia ter acontecido, a mim e todos os outros que têm sempre 2 embalagens de aspirinas e benurons na mochila, foi o encerramento do canal saúde, que curiosamente se destinava a pessoas doentes ou a hipocondríacos como eu. E se querem saber, não perdia um único programa. Dava-me gosto saber qual os métodos para combater a época dos pólens, o que fazer quando incha o pé. Como curar uma afta, que fazer quando o mais petiz lá de casa, nos aparece com outro rapazinho que usa jardineiras?

Mas tudo isso acabou e com o fecho do canal saúde acabaram-se as apostas no café. Lembro-me tão bem. Reuníamo-nos à mesa e era toda a tarde naquilo. Primeiro tirávamos o som do televisor e ficávamos só com as imagens. Depois, há medida que iam aparecendo, íamos jogando a nossa sorte: Eu aposto 20 euros que aquelas imagens se referem a um pé de atleta! Eu aposto 30, em falta de cálcio! Subo para os 40 com tendinite aguda! E dito isto, subíamos agora o volume do televisor e percebíamos quem iria pagar a próxima rodada.

Como hipocondríaco, sofro por antecipação e ainda não me está a doer nada e já penso que me pode vir a doer. E assim, quando me dói mesmo – e agora dói-me - lá vou ao centro de saúde ou ao hospital mais próximo que é para isso que eu pago impostos. Invariavelmente, a mesma resposta de sempre, que isto não é nada – Quero análises ao sangue!- que você é um rapaz muito novo – Quero fazer um T.A.C e é já! - Que isto é do stress, da ansiedade, que precisa de descansar, que tem que dormir mais horas, que tem que ter uma alimentação mais equilibrada.

Contudo, eu sei que eles não falam a verdade, eu sei que me mentem, que expõem à luz radiografias de outros que não eu, que me ocultam a verdade, que me sonegam um qualquer sintoma grave de que padeço. E assim, só de pensar nisso, fico doente.

Wednesday, January 16, 2008

Só tu e Eu! O livro infantil de Will Smith.









Há uns meses atrás fui convidado pela quasi edições (http://www.quasi.com.pt/) para prefaciar o livro infantil de Will Smith, que o mesmo, há uns meses atrás editara nos Estados Unidos e cuja tradução surgia agora em Portugal. Quando me perguntaram se aceitava fazer, disse que sim e o resultado é o que se segue. O livro chama-se " Só tu e Eu".





Aqui vai:
Quando cheguei a casa e disse ao meu filho mais velho que havia conhecido o Will Smith em plena Fifth Avenue, o seu olhar de espanto foi tão grande que pensei logo que ele tinha partido alguma coisa e estava a tentar ganhar tempo para me dizer. Por via das dúvidas, apressei-me a verificar a mesa de vidro da sala – Nada! – o Candeeiro que trouxe de Sevilha que custou uma pipa de massa – Intacto – O espelho grande que me deu o meu tio Rodrigo- que Deus o tenha – na esperança que à frente dele, dissesse todos os dias a frase "Serei um bom rapazinho!" - direito, sem um arranhão. E tudo isto, sem nunca dizer a frase.

Adiante. Gosto de cheirar os meus filhos quando chego a casa, abro a porta e grito "Chegou o Papá!" e ainda eles trepam pelas minhas costas como esquilos esfomeados e já eu os cheiro. Ontem, o mais velho cheirava a terra húmida que imediatamente denunciava futebolada à chuva, o do meio tresandava a Old Spice porque ainda não aprendeu a distinguir um after chave de um perfume, e o mais novo, que ainda usa fraldas com abbas protectoras cheirava, bem, é melhor passarmos à frente. Querida, tens aqui uma missão para ti!

Desculpem, onde íamos mesmo? Exactamente! A minha história com Will Smith começa em Agosto do ano passado. Tinha ido de férias só com a minha mulher, porque há dois meses atrás lhe tinha prometido, que se alguma vez deixasse de novo a minha roupa no chão lhe pagaria uma viagem a Nova Iorque, com direito a fazer de mim o seu mordomo pessoal. Perdi. Um par de calças e uns boxers em cima do tapete fizeram-me perceber como deverá ter sido dura a escravidão em séculos anteriores.

Estava eu por isso a transportar alegremente as malas da minha mulher enquanto esta se deliciava a ver as montras, quando se abeirou de mim alguém que se parecia exactamente com o Will Smith, o cabelo do Will Smith, os dentes brancos do W.S. – esta foi só para variar - o sorriso largo do Will Smith e com mil raios era o próprio Will Smith que ao ver-me naqueles preparos me perguntou se a relação entre mim e a minha mulher era sempre assim.

Embora tentado a dizer-lhe que sim na tentativa que este me salvasse daquela tortura, fui no entanto obrigado a contar a verdade – a minha mulher tinha entretanto chegado - admitindo ter perdido a aposta, estar a pagá-la e já agora um autógrafo aqui ao rapaz para eu levar aos miúdos que não vão acreditar.

Will Smith puxou da caneta, tirou da sua mala um bloco de notas e dele arrancou três folhas nas quais personalizou a sua assinatura para cada um dos meus filhos. Depois, disse-me que também tinha um. Que tinha um filho incrível que cismava em construir um castelo no céu e que esta ideia lhe tinha feito escrever um livro que se algum dia chegasse a ser traduzido para Portugal lhe parecia bem que fosse eu a fazer o prefácio.

Esse dia chegou , o prefácio é este, o livro também, mas infelizmente nada do que acabo de escrever é verdadeiro. Não sou casado – peço desculpa - não tenho filhos – perdoem-me por isto - e nunca conheci o Will Smith. Mas esperem, há uma coisa que eu gostava que soubessem. Também eu quando era muito pequeno, sonhava quase todos os dias em construir um castelo no céu. E isto, quer queiramos ou não, é bonito.

Sunday, January 13, 2008

Basta!






Há uma curiosa similitude entre a noite da mulher e os saldos na Berska e da Zara. Se repararem bem, em qualquer uma das situações, existem centenas de homens à porta e imensas mulheres lá dentro. A diferença, é que de um lado os homens esperam que elas saiam e do outro esperam para entrar. Por isso, eis chegada a altura de dizer: Basta! Ou Chega! Ou Parem lá com isto! ou chega-te para lá que quero dormir!


Como homem, sinto que devo dizer qualquer coisa e se as mulheres tiveram a queima dos soutiens em 1969 que as levou ao movimento de emancipação com os resultados que se conhecem, é justo que nós homens, tenhamos a nossa queima dos boxers em 2008 tendo em vista a igualdade dos nossos direitos também na diversão nocturna. Então essas palmas? Eu não estou a ouvir nada? E assim, homens de todas as raças e idades, jovens e idosos, com bigode ou patilhas à Zeca Afonso, da mais alta burguesia ou mais pacato bairro social, tu e aquele ali - vocês sim! - saibam que estão convocados para um extraordinário encontro onde iremos decidir o que fazer para conseguir o que perseguimos. E o que queremos? Pouco mais do que tudo.


E assim, camaradas, antes de tudo é necessário termos um refrão com palavras quentes e fácil de decorar: algo como: Assim não, prefiro o Ramadão! Ou: Queremos mulheres à maneira, venham à festa da mangueira! Ou melhor ainda: Um homem é diferente, mulheres cheguem-se à frente! Está bem, está bem, para começar não está mal mas é possível fazer melhor. Depois disto, teremos que deixar crescer o bigode em homenagem aos sindicalistas dos anos 80 e também a barba em homenagem ao grande reitor José Barata Moura autor do imortal clássico 'Come a papa, Joana come a papa!'. Reunidas estas condições, é altura de agirmos e fazer valer os nossos protestos junto de quem nos interessa ouvir. E assim, partiremos unidos para a 24 de Julho, para as discotecas da Foz e os bares de Matosinhos, para o Lux, para a Industria, para o Twins, para a Kadoc, sempre com a mão no ar e os archotes acesos, visitaremos cada uma das capelinhas como se fossemos inspectores da A.S.A.E. e em todas eles revelaremos o nosso protesto, que não pode ser, que estamos fartinhos de sermos nós a pagar, que chegou a vez delas – toca a dividir a conta! - Que ser homem também pode ser razão suficiente para nos organizarem uma festa semanal onde terão a certeza que encontrarão os rapazes mais apetecíveis.



E será tão bonito. De Segunda a Domingo, haverá uma festa do homem em qualquer discoteca da cidade onde o sexo masculino não paga rigorosamente nada e as mulheres são obrigadas à porta, a pagar um consumo mínimo de 20 euros oh faz favor! Já lá dentro, os homens serão obrigados a beber toda espécie de bebidas - vejam bem! - sendo dado a cada um dos presentes, uma caneca XL e um calendário da Pirelli com miúdas gostosas e em tudo parecidas com a nossa vizinha da frente. Na música, em vez da latinada do costume com frases que acabam em ' amor de mi vida! e 'vida loca!', haverá Heavy metal com fartura e toda a espécie de martelada dos fieis seguidores do Tiesto. Já à porta, as mulheres que agora se acotovelam para ver os rapazes, serão obrigadas a usar tops justinhos, saia curta e uma permanente muito semelhante à usada pela ex-primeira dama Manuela Eanes nos idos anos 80, de preferência, com uma dose de laca suficiente para sobreviver a um tufão de grande magnitude. Todos os dias, a festa do homem será a grande rival da festa da mulher. E em breve, a grande questão será esta: Qual dos dois sexos, irá sofrer mais rapidamente de cirrose?

Saturday, January 12, 2008

Oldboy


Antes de tudo, gostava de dizer que gosto de cinema, desde o filme até ao cheiro das salas. Há salas de cinema que cheiram a livros novos e outras que me fazem lembrar o cheiro da casa dos meus avós onde passava os meus natais em tenra idade. Dou muita importância às salas de cinema e não percebo porque raio ainda não entenderam que os braços das cadeiras da plateia deviam ser facilmente removíveis. Dirão alguns: “Mas são!” direi eu: “Não são, não senhor!”. E arregaçando as mangas vou já dizendo que é muito aborrecido não conseguir estar abraçado à nossa cara-metade devido – precisamente! - ao estupor deste braço de cadeira que tudo faz para separar duas pessoas que se querem juntas.


Adiante. O filme que eu escolhi chama-se Oldboy e é de Chan-wook Par. Estive muito indeciso entre este, A festa” de Thomas Winterberg, AMARCORD de Fellini, qualquer um da Trilogia de Krzysztof Kieslowski e claro Fim de Semana Lusitano de Ana Teresa Antunes . São muito diferentes, bem sei, mas escolhi este, porque talvez me tenho feito dormir menos noites sossegado e me tenho feito ver um polvo cru de uma forma muito pouco ortodoxa.


E não só o polvo que aqui nos é dado como uma refeição crua, toda a história que nos é apresentada segue a mesma linha, há uma crueza sem misericórdia, há uma tristeza tão forte que não chora, como naquelas noites em que de tanto estarmos cansados não conseguimos adormecer. Há uma vingança em tudo isto e como decerto saberão, as vinganças só acabam quando tudo à volta estiver dizimado. E é isso que o filme se propõe fazer, acabar com tudo à volta de um homem que talvez tenha cometido um crime, precisamente o de ser ter cruzado com aquele dia.

O mesmo homem que fica 15 anos fechado num quarto sem saber qual o motivo. Apetece citar Kafka “Alguém deve ter difamado Joseph K. pois numa bela manhã, acordou preso sem ter cometido qualquer crime”. O processo contudo alonga-se por mais que um dia, espraia-se por anos a fio, por todo o filme quando já a cadeira onde estamos se tornou mais rija e obviamente mais desconfortável. De resto, a película não procura conforto algum, bem pelo contrário, quer-nos sentir inquietos como se uma porta tivesse ficado por fechar e uma corrente gélida percorre-se o corredor em direcção aos pés, aos nossos pés.

Oldboy é um filme tão bom que fazemos questão de ver a ficha técnica quando todos já vão saindo da sala. Mas ao contrário dos outros filmes onde a mesma ficha técnica é exibida, nesta, damos atenção aos pequeníssimos pormenores, ao responsável pela edição, pelo figurino, ao nome do assistente de câmara e ao segundo ajudante do supervisor sonoro.


E é isto que o torna diferente: O receio de sairmos do filme, com medo de podermos encontrar uma realidade semelhante no elevador de acesso ao parque de estacionamento, onde possivelmente teremos esquecido o local exacto onde teremos deixado a viatura. Oldboy sabe exactamente o seu lugar. E esse lugar, pode ser muito distante do que havíamos imaginado.

Thursday, January 10, 2008

Mulheres aos 40





Antes de tudo, que fique claro que nem todos chegam aos 40. Depois, para as mulheres que chegaram, é bom que saibam que esta é possivelmente a melhor idade entre todas aquelas que irão viver. Os 40 estão para a mulher como os Beatles estavam para os anos 60. Ter 40 anos para um homem não é a mesma coisa e eu sei do que falo porque já tive 40 anos e Deus sabe a tortura que eu passei para regressar aos meus 33.

Ter 40 anos para um homem e para uma mulher é diferente, porque enquanto o homem quer a todo o custo disfarçar que chegou a esta idade, a mulher pelo contrário, tem gozo em assumi-la. O curioso, é que isto não acontece quanto têm 30 – e porquê? Porque para as mulheres ter 30 não é carne nem é peixe e acontece-lhes a elas o que aos homens acontece aos 40. Isto é, as mulheres quanto têm 30 querem que lhe sejam dados 20 e tal, enquanto que os homens que chegam aos 30, pelo contrário, gostam de anunciar – de preferência na televisão e já agora com um megafone que é para toda a gente ouvir – que têm 30 anos e estão aqui para as curvas.

Aos 40, todas as mulheres querem ser a Catherine Deneuve e mesmo que ao de leve, imaginam-se com o vestido dourado da senhora dos bombons da Ferrero Rocher. Nos 40, às mulheres não lhes apetece só algo, apetece-lhes tudo o que não tiveram até aí e talvez por isso, decidam concretizar cada coisa que querem. Aos 40, as mulheres ficam com a idade das crianças que ambicionam todas as coisas que vêem nas montras de brinquedos e não deve ser por acaso que sempre que quando um homem vai à falência, é quase certo que a mulher que lhe destruiu a vida, ostente uns bem feitinhos 40 anos. Aos 30, as mulheres não sabem levar um homem à falência, quando muito um desfalque ou outro, agora à falência, não pensem nisso.

É por isso que nesta idade, as mulheres gostam tanto de jóias porque sabem ser eternas enquanto até aqui, preferencialmente, apreciavam chocolates por não se importarem com a forma célere com que se derretiam. Aos 40, as mulheres querem que os homens sejam como as jóias e só num caso ou noutro – que ninguém o saiba – como chocolates.

E assim, chegadas aos 40 gostava apenas de dizer que me parece haver uma qualquer força estranha que impulsiona algumas das mulheres com esta idade, a fazer duas coisas que eu acho que deveriam evitar a todo custo: A primeira, uma súbita vontade de visitarem as Amendoeiras em Flor - não vão, não vão! - e a segunda, possivelmente a pior, de tratar o seu parceiro por, e chamo a vossa atenção, por: " Óhhh Filho!"


Para que não restem dúvidas, reparem o que lhes poderá acontecer se caírem nesta tentação:

Diálogo entre mulher de 40 e o seu marido:

Marido: Já viste isto, os dois sozinhos em casa como nos bons velhos tempos, os miúdos a dormir, estás a ter a mesma ideia que eu? Ahh? ( Piscar de olho bem sacana)

Mulher de 40: ÒOhhhhh filho! - (como quem está a vender vernizes no Mercado da Ribeira!) vamos embora que se faz tarde.

Marido: Olha, se calhar deixamos isto para outro dia, afinal não tenho assim tanta vontade. Os miúdos ainda acordam, deixa lá isso até porque eu tenho que ir comprar o jornal lá fora e adeusinho que tenho que ir andando.

Wednesday, January 09, 2008

6 músicas ou talvez 7





Há cerca de 4 meses atrás, o Jornal Correio da Manhã pedia-me que elaborasse uma lista das minhas 6 músicas favoritas de sempre.
É óbvio que não serão as minhas 6 músicas favoritas de sempre, mas andaram lá muito perto. Era bom, saber também as vossas. Vejam com é dificil escolher 6.



1 - Atirei o pau ao gato – Vários
É uma canção da minha infãncia que cantei de forma inocente sem perceber o pernicioso sentido da sua letra. Ainda hoje me penitencio e vergasto severamente por isso. Reparem só: Atirei o pau ao gato-to-to ( já de si mau) mas o gato-to-to não morreu-eu-eu ( parece que se lamenta este facto) Dona Chica-ca admirou-se se se, com o berro, com o berro, que o gato deu! ( Todos: Miaaauuu!) Mas porque raio se admirou tanto Dona Chica com o berro que deu o gato, se o animal acaba de levar com um valente pau nos costados ? Vê-se bem que nesta altura a Sociedade Protectora dos Animais estava numa fase embrionária e o bloco de esquerda ainda no papel. Não fosse isso e aposto que já se estaria a iniciar uma qualquer marcha de protesto. Outros tempos. Agora todos: Miaauuu!



2 - Marante – Garçon

Para mim, sempre existiram dois tipos de pessoas: As que ouviram o tema Garçon de Marante e as outras. O Marantismo ( assim se chama o movimento onde estão integrados os seguidores de Marante, entre os quais eu me incluo ) é isto. A franqueza e a comovente forma como o cantor confessa o seu estado de alma é absolutamente despojadora. Atente-se bem ao refrão:

Saiba que o meu grande amor hoje vai-se casar
Mandou uma carta pra me avisar
Deixou em pedaços o meu coração
E para matar a tristeza
Só mesa de bar
Quero tomar todas
Vou-me embriagar

E como se isto não bastasse , eis que nos brinda com esta expressão bem portuguesa:

Se eu pegar no sono
me deite no chão

Com franqueza, só alguém cuja sensibilidade é semelhante a uma chapa de Zinco a ferver é que não se arrepia com estas palavras, advinhando Marante a consumir todas as bebidas do bar, misturando malibu com absinto, whisky com sumo de ananás, vodka com licor beirão e aí sim, invertendo a ordem da letra da canção, sob o olhar atento do garçon, caindo no chão e só depois pegando no sono.

3 - Astor Piazolla – Adeus Nonino

Ouço Piazolla por graçola, foi numa altura em que andava na escola e comprei a minha primeira viola. Passava na televisão um anúncio irritante que repetia até à exaustão: Vais para a escola, leva a cola!” e eu, que na altura não queria perder pão e bola, ponha-me tardes inteiras a ouvir piazolla. Depois, bem...depois pegava na sacola, ajeitava a camisola e imaginava-me a passear abraçado a uma guapíssima espanhola. E eu dizia-lhe isto e aquilo num tom absolutamente gabarola e não raras vezes ouvi dizer: “Este gajo pensa que lhe saíu o totobola”. E se permitem concluir a resposta num clima de festarola, peço a todos que gritem : “ Viva o Astor Piazolla!”



4 - Air - All I need

Este tema vem incluído no albúm “Moon Safari” dos Air e faz com que pense na vida sempre que o ouço. É uma questão de segundos, aos primeiros acordes de “All I need” sinto-me a viajar num tapete persa, num final de tarde com vento morno, os supermercados fechados, pouca gente na rua, mulheres de avental olhando-me de dedo em riste e confundindo-me com um qualquer super heroi enquanto já canto:

All I need is a little sign,
To get behind this sun and cast this weight of mine,
All I need is the place to find,
And there I'll celebrate.

E daqui de cima de onde agora vos escrevo , o mundo fica mais claro e canção mais límpida como se teimosamente não quisesse acabar deste modo:

All in all there's something to give,
All in all there's something to do,
All in all there's something to live,
With you ...

Há canções que nunca deveriam acabar e esta é uma delas.

5 - Solomon Burke – Don’t give up on me

Nunca gostei de desistências, quando era mais petiz, lembro-me bem que nas aulas de educação fisica desde cedo ganhei uma especial preferência pela maratona porque se pensa mais vezes em desistir do que em qualquer outra distãncia e eu nunca por nunca desisti, estendo os braços á chegada mesmo sabendo que nenhuma fita me esperava para que a cortasse com o meu peito largo. Ao longo da corrida, uma voz me perseguia dizendo: Don’t give up on me, don’t give up on me! E agora, com a distância dos anos e não de metros, percebo bem que pior do que desistir de alguém, é desistirmos de nós próprios.Era eu que cantava para mim próprio, era a minha voz, talvez o meu corpo, que sempre me implorou com sôfrega rouquidão para que eu não desistisse.



6 e 7 - Jeff Buckley – Last Goodbye ou Carlos do Carmo – Estrela da Tarde



Bem sei que são 6 os temas que teria que escolher, mas chegado aqui, confronto-me com este impasse. Se por um lado, Buckley me surge como referência obrigatória, seria ingrato que me esquecesse do poema de Ary dos Santos cantado por Carlos do Carmo. A pergunta impõe-se: Grace ou Estrela da tarde. E se me permitem a analogia, é o mesmo que me perguntarem se prefiro o golo do Maradona contra a Inglaterra no Mexico 86 ou o golo do Madjer na final da taça dos campeões contra o Bayern de Munique. Não sei, não faço ideia, há coisas que não se podem escolher e esta é uma delas. Se por um lado a voz de Buckley surge em Last Goodbye com a temperatura de um puro malte não é menos verdade que as palavras de Ary dos Santos livram-se delas próprias, como se soltassem, como se tivessem saído da casa dos pais onde terão vivido até agora e se ajeitassem com graciosa independência num andar em telheiras. Talvez palavras vizinhas das de Buckley, pedindo salsa e cominhos umas às outras, batendo à porta, emprestando-se nas duas canções. Na de Buckley, diz-se:

Did you say, "No, this can't happen to me"?
And did you rush to the phone to call?
Was there a voice unkind in the back of your mind saying,
"Maybe, you didn't know him at all,
you didn't know him at all,
oh, you didn't know"?

E em Estrela da tarde:

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia



E mais não digo. Por hoje, não escolho mais.

Sunday, January 06, 2008

Luiz Pacheco

Luiz Pacheco - O caso do sonâmbulo chupista

Pacheco - O cachecol do Artista

Pacheco 2 - Os amigos

Mais sobre Pacheco

Morreu Luiz Pacheco e não deveria



Morreu Luiz Pacheco e não deveria. Pacheco deveria ter durado mais uns bons anos, deveria ter vivido até aos 100, até aos 200 se fosse possível. Mas não é pelos vistos, e assim lá vai Pacheco, o grande Luiz Pacheco que a par de Mário Cesariny foi desde cedo uma das minhas maiores referências.


Tal como Cesariny, conheci Luiz Pacheco há pouco mais de 4 anos. Como sempre, em busca de um texto original para a Revista 365 decidi que o haveria de encontrar nessa mesma tarde e encontrei-o mesmo, num lar no Príncipe Real onde vivia. Lembro-me de este me ter dito que estava muito cansado para escrever "Já não sai nada, secou a fonte!" mas mesmo assim autorizou uma pré-publicação de um texto seu que iria sair pouco tempo depois no livro "Raio de Luar".


Juntamente com Cesariny – que publicou um inédito na 365 – ter um texto do Pacheco na publicação de que vos falo é algo que ainda hoje me deixa com o chamado "incontido orgulho".

De resto todos falam da "Comunidade" como a sua melhor obra mas para mim não tenho dúvidas que "O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor" é o seu melhor livro.
Mas isso agora não interessa, o que importa mesmo é perceber quem é que morreu. E hoje morreu um dos maiores de sempre. Luiz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco.

Friday, January 04, 2008

Dakar. Uma notícia como se fosse uma bomba.





Compreendo os motivos que terão levado a organização do Rali Lisboa Dakar a cancelar a prova, mas parece-me que este é um rude golpe para todo o mundo ocidental. É um primeiro sinal de que estamos com medo e é bom que nos lembremos do que nos acontecia e acontece ainda, quando o admitimos: invariavelmente, levamos na cara.

Hoje foi um dia bom e vitorioso para todos os que gostam e usam da intimidação, do terrorismo e da chantagem. Um dia mau, para todos os que sabem que é um péssimo principio mostrar medo.

Eu tenho medo. Todos temos medo. Mas em caso algum, se fosse da organização, o assumiria desta forma e lhes daria esta estrondosa e ensurdecedora vitória. O medo deve enfrentar-se , em caso algum, deveremos pensar com as pernas.

No titânico duelo entre a coragem e o medo, o medo ganhou. E não deveria.

E depois disto, o que se seguirá: Os Jogos Olímpicos? A final do campeonato do Mundo de Futebol? Será que o Estoril Open poderá ser também cancelado?

Hoje foi um dia demasiado mau para o mundo. E a partir de hoje, temo bem que as coisas possam ficar muito piores.

Thursday, January 03, 2008

O Elogio Fúnebre









Se há coisas de que as pessoas gostam – e eu gosto – é de elogios. Que és o maior! – Pois sou – Que és lindo! – Confirma – Que és muito simpático! – De facto! – Que não há ninguém igual a ti! – Evidentemente que não! Daí que ultimamente tenha percebido que os elogios, de preferência à frente de uma multidão de pessoas, são a forma mais fácil de conseguir uma calorosa salva de palmas por parte do público ou simplesmente de quem está presente.







Elogiar é óptimo, porque faz de nós seres humanos bons e sensíveis que sabem reconhecer a tempo o valor de alguém, e ser elogiado também, porque no fundo nos presta o reconhecimento que andávamos a perseguir há tanto tempo. Contudo, se queremos mesmo elogiar como deve ser, é bom que se perceba que a colocação de voz e a repetição de uma mesma palavra mais de 5 a 6 vezes se revela imperativo. Querem um exemplo? Pois aqui vai: O Senhor Meireles foi um excelente profissional. O senhor Meireles nunca falhou um compromisso. O senhor Meireles é o filho que eu sempre quis ter! Viva O Meireles! Iavé Meireles! – Já perceberam, não é? Ora, se a isto juntarmos uma voz cada vez mais grave, mais sentida, como se fosse crescendo e ficando de olhos grandes – a voz – as duas mãos agora levantadas, o público a crescer nas cadeiras, a voz a falhar que a emoção é muita e é certinho que acabamos todos a bater palmas de pé e a gritar Meireles. Viva o senhor Meireles! Viva!

E se é certo que este tipo de elogio e discurso é vocacionado para grandes multidões – em televisão não se faz outra coisa ultimamente - outros há que se caracterizam pelo laço afectivo que a pessoa que elogia tem para com o elogiado, mas que invariavelmente começa com uma quase espécie de pedido de desculpas que a meu ver lhe retira desde logo alguma intensidade: "Não é por ser meu filho, mas é de uma inteligência como eu nunca vi! Sou sincera, não foi por serem meus pais, mas Deus nosso senhor não me podia ter dado melhor sorte! Ou então algo como: Como sabe não tenho necessidade de mentir, mas devo dizer-lhe que eu nunca vi um bebé tão bonito como o filho da minha Catarina, é que não há coisa mais linda". E vendo bem, se calhar foi ser por ser filho, por serem os seus pais, por ser o seu neto e não o de nenhum outro que o disse e isso não é vergonha nenhuma assumir. Pelo contrário, o orgulho que temos por alguém pode e deve ser demonstrado, de preferência sem o uso da expressão "Não é por ser meu qualquer coisa seguida do elogio". Digam-me lá se não vos soa melhor assim: O meu filho é muito inteligente! Os meus pais são os maiores! O meu neto é isto e aquilo! Pois é claro que soa e esse senhor que eu estou a ver daqui a abanar a cabeça no autocarro, se pensar bem vai concordar comigo daqui a alguns dias, a ver se não vai!


E assim, entre elogios de conveniência muito usados na infância quando queremos pedir alguma coisa: Mãezinha, gosto muito de ti sabias? E gostava também muito que me desses aquele carrito que está na montra. Pelo meio, dos elogios da praxe: Foi uma boa praxe! A praxe está com saúde! Existe o elogio fúnebre que só de pensar me arrebita as unhas dos pés e que com frequência é usado por toda a espécie de patronato: Meireles, você é um excelente funcionário, sei que tem dado tudo por esta empresa – Meireles já se contorce na cadeira – Meireles você é um ser humano extraordinário, nunca duvide disto – a transpiração a correr-lhe pela testa – mas Meireles vou quer que o dispensar porque a conjuntura actual não me permite que o mantenha nesta empresa.

Wednesday, January 02, 2008

Memória Intermitente


Gosto de sair à noite, mas nem sempre foi assim. Durante um período da minha vida que gosto de esquecer, saía de dia, mas acreditem que não é a mesma coisa e acaba por ser aborrecido encontrar sempre as senhoras da limpeza. Não é que eu não goste ou que tenha alguma coisa contra, mas nunca achei muito- como direi? - excitante, ver mulheres com uma voluptuosa farda azul a varrerem o chão e a recolherem os copos.

O que eu gosto mesmo é de sair à noite, pela tardinha. E eu saio. E gosto. E bebo uns copos. E como todos – julgo – tento divertir-me o mais que posso e se possível conhecer alguém que queira vir comigo tomar o pequeno-almoço. Uma meia de leite e uma torrada bem aparada, aqui para a mesa do fundo, se faz favor! E todos se olham e penteiam o mais que podem enquanto comentam a noite anterior “Que aquela loira, a do bar, se estava a fazer completamente a ele, mas ele não podia dar o flanco porque estava com a outra que afinal o deixou completamente agarrado, pois claro!” e a outra “A morena que estava com a prima, que passou a noite inteira a enviar-lhe sms’s enquanto se agarrava ao namorado, a porca! Já viram isto?” e todos se riem enquanto partilham as aventuras da noite anterior e comentam quem entra na porta do café. Aliás, as grandes figuras da noite, sabem-se neste momento, na entrada em cena para o pequeno-almoço, na quantidade de “Hei, como tu estás!” que se ouvem, no burburinho gigante da multidão à chegada e em alguns casos, na gloriosa saída em maca para a ambulância.

E existe fama sim. E é esta. A de ter bebido tanto que já nem se lembra. De ter uma vaga ideia de que terá dito isto mas não tem a absoluta certeza – os risos sucedem-se - de que fez algo ali a meio da noite onde lhe parece ter acontecido alguma coisa mas que não se recorda – E alguém pergunta “Olha lá, tu lembraste de te teres atirado à Dulce a noite toda?” – e invariavelmente, ao primeiro indignado “Eu fiz-me à Dulce?” a gargalhada é geral e o episódio é contado ao seu protagonista principal como se este não o tivesse vivido ainda há pouco. “Eh pá, eu não posso ter feito isso! Eu não disse! Eu não fiz! Eu não quero! Eu não estava assim tão mal! Digam-me por favor que isso não é verdade! E todos os “nãos” se transformam agora em “sims” para seu absoluto espanto. E de todas as vezes, perante esta perniciosa perda de memória, os amigos e as amigas aproveitam-se disso para juntarem outros pormenores que na verdade nunca chegaram a acontecer, mas que os divertem tanto ou mais do que os que na realidade existiram, mas que ele nunca terá a certeza suficiente para os desmentir.

E no pequeno-almoço, dá-se conta que entretanto ali se estabeleceu uma espécie de tribunal onde, a um ritmo frenético, são agora trocadas acusações entre todos. “Que tu é que estavas muito mal! Que o outro é que teve a culpa! Que o vodka estava claramente marado! Que aquele disse isto! Que outra está mortinha, mortinha, por estar contigo! Que não, que não foi nada assim e eu é que sei e vou contar a verdade! Que alguém saiu a meio da noite! Que a outra desapareceu ao mesmo tempo! Que não fui eu! Que não foi ela! Que eu é que sei mas não digo! E quanto isto, mais uma meia de leite e “olha-me só para aquela maluca que acaba de chegar, pá! Diz lá que eu não tenho razão! Olha com quem ela está! Eu tinha-te dito, mas tu não querias acreditar, pois aí tens! É mais uma tosta mista que temos que ir para casa. E vamos. E Fomos. A noite termina aqui, curiosamente, no preciso instante em que as senhoras da limpeza com batas azuis voluptuosas varrem já a noite passada e recolhem os corpos, que aí encontram, vazios.