Monday, March 30, 2015

João Gesta, programador cultural, responde ao Inquérito do Fernando Alvim



Umas férias
Primeira viagem a Marrocos. 19 anos. Pensão “A ideal de Tetuán”. Um terraço e um saco-cama. Muito calor. Caldos de galinha e bolinhos de haxixe. Vísceras pró mar.

Uma ideia
“Reconquistar Portugal aos touros.” (Daniel Maia-Pinto Rodrigues)

Uma asneira
Uma vez, nas Antas, o Gomes fintou três ou quatro e meteu um golo magistral. O meu compincha de bancada, virado para mim, comentou embevecido: - O estupor do caralho é de uma raça fodida!!!

Uma paixão
Cozido à portuguesa, regado com coca-cola. Já agora, se não for pedir muito, servido pela Madonna. Vestida.

Uma curiosidade
Karl Marx detestava papas de sarrabulho e a família sabia.

Uma pergunta
Portugal tem cotas leiteiras. E tu?

Uma resposta
Uma vez, fim de noite de copos, perguntei a uma amiga:
- Queres dormir comigo?
Ela respondeu-me, sem tergiversar:
- Para dormir já me basta o meu marido.

Uma lição
Aprendi com Mário Cesariny:
- “O amor é uma rua muito sossegada onde só se passou uma vez.”

Uma aventura
Tentar não engravidar ninguém, à hora de ponta, no autocarro para a Maia. O 600, isso mesmo.

Um segredo
O rabo é o ópio do povo. Mas, por favor, não digam nada ao SIS.

Um desabafo
Agora que a Angela (sim, sim, essa toda, essa tola) fez a depilação pode ser que o juro da dívida a dois séculos baixe.

Um problema
Pagar a segurança social atempadamente. Um exercício que se revela difícil mesmo para os mais abonados. (este Gesta é mesmo um diplomata, um cavalheiro…)

Gostas de mim?
Pouco. Gosto mais do torneiro-mecânico do quarto-esquerdo. É, (como explicar-te?), mais agressivo com a ferramenta.

Sunday, March 22, 2015

Sofia Marques Ferreira, artista de videoarte, responde ao Inquérito do Fernando Alvim



UMAS FÉRIAS
Escolher um único destino é difícil, porque viajar é um vício. A escolher, é Goa, onde foram as tais férias. O lugar que não pertence a lado nenhum e ao mesmo tempo a todos. Goa é como chegar à “praia secreta”. Estás cansada com vários kilos às costas, envolta em sujidade típica dos comboios indianos, esfomeada por um bife, e assim, sem pedires e esperares, Goa oferece-te o impossível de fabricar. No primeiro dia, quando pensas “Uau, isto é incrível!”, ainda nem começou e é completamente imprevísivel. É como Goa escolhesse as pessoas. Cada uma com que te cruzas, há uma grande história, uma lição.

UMA IDEIA
Dar um sonho aos políticos. 

UMA ASNEIRA
Achar que o meu corpo ainda tem 18 anos quando danço. 

UMA PAIXÃO
Criar, preparar, soltar, desidratar, vibrar, atingir, concretizar “a imagem” com vídeo ou fotografia. Aquela imagem que precipita tudo, aquela que é o trigger que antecipa a narrativa.

UMA CURIOSIDADE
Quando o meu primeiro irmão nasceu e tive-o nos meus braços, senti algo único, inexplicável, algo que não vem nos livros, só se sente, uma ligação para a vida. Agora, tem 18 anos, está na universidade, com uma namorada giríssima, fala com bom senso, inteligência e unicidade, e eu estou ali. A vida têm destas coisas boas.

UMA PERGUNTA
Qual é o sentido da vida?

UMA RESPOSTA
É o teu sentido, de preferência à Monty Python.

UMA LIÇÃO 
Não esperes demasiado. Não corras demasiado. Just do it. On time.

UMA AVENTURA
Em pleno Rio de Janeiro, a grande cidade, quente, brisa tropical, que cola na pele. Entre amigos, decidimos apanhar o bus para chegar rapidamente à praia. Um mergulho era essencial! O bus começa a subir, a subir, e daí, alerta! Alguém me disse, lembro-me, nunca subir às colinas do Rio. Sim, acabámos na maior favela, a Rocinha. Sobrevivemos com uma história e muitos personagens para contar.

UM SEGREDO
O grande Alvim gosta de hghjdsfbjshl779dkds! Pois. É verdade.

UMA INVENÇÃO
As vespas vermelhas! O vento na cara sabe sempre melhor numa vespa PK50 clássica, vermelha. É um facto.

UM DESABAFO
Vamos lá produzir coisas novas nos palcos/telas portuguesas. É urgente respirar e não repetir vezes sem conta. Onde estão os apoios aos emergentes, onde está a cultura neste país? É urgente apostar, é urgente dar espaço à diversidade. Também isto é a nossa identidade, não somos só as contas. Eu, definitivamente, não sou só a minha conta da eletricidade. Vamos lá também pensar nisto, a que chamamos “cultura”. Há o risco de qualquer dia já não respirarmos, nem nos lembramos quem fomos, somos. (Ufa! Ainda respiro.)

UM PROBLEMA
Lixo. Há qualquer coisa de errado com a quantidade de lixo que nasce e perdura em cada canto de Lisboa.

UM DESEJO 
Sejam crianças! We are together. We are ONE.

UM PROVÉRBIO
“Never forget your dream”. Já não recordo quem me disse esta frase. Mas sim, o sonho comanda a vida.


Thursday, March 19, 2015

O poeta António Pedro Ribeiro faz o Balanço Vital do Fernando Alvim


5 FACTOS QUE ME ACONTECERAM

1) Braga, Setembro de 1990. Eu cantava na banda Ébrios e escrevia para um jornal de Braga. O director do jornal propôs-me escrever um artigo contra o hipermercado "Feira Nova" que tinha um conflito com o jornal. Em vez disso, dirijo-me de manhã cedo ao jornal e sugiro que se distribuam panfletos anti-consumistas e contra as grandes superfícies no hipermercado. Assim se fez. Os jornais de Braga publicam a minha foto e colocam o título "Che Guevara manda fechar o hipermercado". Vou a passar na rua e há pessoas a fugir de mim, os operários largam as obras, na Avenida Central os velhotes fazem-me continência. Parecia uma revolução.

2) Póvoa de Varzim, 2003. A Câmara da Póvoa de Varzim edifica uma estátua do major Mota, presidente da Câmara no tempo da ditadura e Comandante da Legião Portuguesa. Eu, sozinho, em nome duma Frente Guevarista Libertária, distribuo panfletos à população contra a estátua e em defesa do 25 de Abril. Passados 3 meses a estátua cai. A Câmara acusa-me de ser autor do acto. Sou chamado à Polícia Judiciária. Não há provas. Os inspectores passam duas horas a falar comigo do Fidel Castro e do Che Guevara.

3) Póvoa de Varzim, 2011. Sou acusado de ser co-autor do blogue "Povoaonline" que acusa o ex-presidente da Câmara da Póvoa, Macedo Vieira, de corrupção. Sou levado a tribunal. Saio ilibado. Não chego a ir a julgamento.

4) Festival de Paredes de Coura, 2006. Digo poesia ao lado de Adolfo Luxúria Canibal e de Isaque Ferreira. O Centro Cultural de Paredes de Coura a abarrotar. Digo "When The Music's Over" de Jim Morrison, "Borboletas" e "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro", o meu grande êxito, editado pelo Valter Hugo Mãe. Falo de Deus, da infância, da minha mãe, dos vícios que ganhei e que, aos 18, não tinha. O público ri, grita, intervém, ovaciona. Foi a melhor actuação da minha vida.

5) Braga, 1984. Um amigo meu, o Jorge Pereira, empresta-me o disco "Strange Days" dos Doors. Eu já conhecia os Pink Floyd e as letras contestatárias do Roger Waters mas quando ouvi aquele álbum, especialmente a longa canção "When The Music's Over" e quando o Jim Morrison gritava "We want the world and we want it...NOW!", bem, todas as missas acabavam ali, todas as infâncias acabavam ali, um novo mundo se inaugurava, um mundo de liberdade e descoberta, um mundo de revolta contra o instituído, um mundo de portas abertas.


5 EVENTOS QUE ME PROPONHO REALIZAR

1) Gostava de criar um jornal panfletário, revolucionário e cultural.

2) Gostava de voltar a actuar no Festival de Paredes de Coura ou noutro.

3) Gostava de um mundo livre, sem repressão, sem castração, sem controle, onde os homens e as mulheres se tratassem como iguais, onde acabasse o primado do dinheiro e da economia.

4) Gostava de ser mais reconhecido.

5) Gostava de ser um filósofo.

Sunday, March 08, 2015

Filipa Leal, poeta, jornalista e guionista, responde ao Inquérito do Fernando Alvim

- Umas férias
Três semanas que passei, de mochila às costas, na Tailândia. Atravessei rios de elefante, fiz rafting em jangadas de bamboo, dormi numa tribo. Era, como a Floribella, “rica em sonhos e pobre em ouro”, por isso fiquei em verdadeiras espeluncas. Claro que apanhei sarna. Mas não me arrependo. Apanhar sarna na Tailândia é chique.

- Uma ideia
O Jorge de Sousa Braga tinha um plano nacional: “que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou”. Eu proponho que, doravante, se retire a última palavra d’Os Lusíadas. Ouvi dizer que é “inveja”.

- Uma asneira
Não sei se isto se pode dizer neste inquérito, mas como já vi a frase integrada em obra de arte, aqui vai: “Eu sei lá se é o Chinês ou se é o caralho; eu sei lá, menina!”. (A frase é de uma senhora da minha terra. O que mais adoro é o “menina” que se segue ao palavrão, com a mesma naturalidade.)

- Uma paixão

O cheiro da esteva na Zambujeira do Mar, com uma garrafa de vinho branco e bons amigos.


- Uma curiosidade


Durante muitos anos, pensei que a família do Snoopy se chamasse “Piánútz”. Fiquei muito espantada quando descobri que a palavra era a mesma dos amendoins e se lia assim: peanuts. Ainda hoje, não percebo.


- Uma pergunta

“O que acham que o poeta quer transmitir com estas frases?” (Elia Kazan, “Esplendor na Relva”)

- Uma resposta

“Ainda assim, prefiro ganhar.” (Tó Carlos, “Axiomática Futebolística”. Ed. Tea for one)


- Uma lição


O melhor sítio do mundo para ver estrelas cadentes é o Vale Formoso.


- Uma aventura


Atravessar Lisboa à chuva para conhecer a Adília Lopes e ela não estar lá.


- Um segredo
- Há um quarto de hotel no Porto que tem versos meus no tecto. Juro. É a Suite Avenue FL, na Casa do Conto (Rua da Boavista).

- Uma invenção


Uma máquina bondosa que permitisse que as pessoas da mesma família morressem todas com 150 anos, e ao mesmo tempo.


- Um desabafo


Portugal, o teu produto interno é bruto.


- Um problema


A Maitê Proença publicou um livro que se chama “É duro ser cabra na Etiópia”. Foi em 2013. Eu não li, mas deve ser interessante, sobretudo a avaliar pela capa. Aquilo não é uma cabra. A mim, parece-me uma avestruz. Acho que isto é um problema para Portugal e para os Portugueses.




- Finalmente um item ou dois que o convidado deste inquérito deve acrescentar: como se tivesse a perguntar a si próprio algo e a dar a resposta logo a seguir, como se achasse que nestes inquéritos este item por vocês criado devesse começar a ser incluído). Podem também fazer uma pergunta a vocês próprios e isso conta como item.
Quem é Deus? É um amigo da minha Mãe.

Monday, March 02, 2015

Balanço Vital - Miguel Cardona, músico dos Coldfinger



1º Facto 
Concurso de máscaras de carnaval. Não faço ideia que idade tinha, mas lembro-me que foi apresentado pelo António Sala no cinema Europa em Campo de Ourique e eu fui mascarado de Homem-Aranha. 

Fui aos finalistas, foi muito importante! Devia ter 7, 8 anos e a minha mãe inscreveu-me. Fomos de autocarro, no 42, vivíamos na travessa de Giestal. 

Quis mascarar-me de Homem-Aranha e a minha mãe levou-me à Ajuda, a uma senhora na rua do Guarda-Jóias, uma modista que me fez um fato de Homem-Aranha. Ainda tenho essa máscara, está em casa do meu pai, mas eu não entro lá! Enfim, fez-se uma máscara, toda muita bem feita, com teias de rede, mas eu não curti porque era em preto. Eu disse à minha mãe "Ó mãe, estás a gozar comigo? O Homem-Aranha é azul e vermelho!!!" e a minha mãe... que é uma pessoa que perde pouco tempo comigo quando vê que eu estou mesmo a falhar nem me respondeu. 

Já adulto, muitos anos depois continuei a comprar revistas da Marvel e... saiu-me o Homem-Aranha preto! A minha mãe p'raí em 79 fez-me uma máscara de Homem-Aranha preto revelando-se uma visionária da iconografia "Nerd",isto porque o Homem-Aranha preto é aquele Homem-Aranha que rebenta com eles todos, que é mesmo a aranha marota! Mas, voltando ao concurso de máscaras, deu raia porque ganhou um betinho mascarado de astronauta. Durante o concurso fomos todos ao palco, depois voltei, fui à final e fiquei em 4º. 

Fico quase sempre em 4º. Mas fui ao palco de Homem-Aranha preto e calei-me que eu não sou de estrebuchar. Disse à minha mãe que o verdadeiro era azul, mas fui de preto e bati-me de preto. Para mim 4º é bacano, para a minha mãe é que não! Queria que eu fosse o primeiro, sempre quis. O que resultou deste facto foi perceber que o que eu quero é palco. 

Descobri que a minha mãe é o génio que o Homem-Aranha preto (era eu).


2º Facto
Já mais tarde fui com o meu pai ao dentista. O dentista era um amigo do meu pai, o Arnaldo. É importante perceber que o meu pai é uma pessoa que ainda está viva, não de muito boa saúde, com quem tenho uma relação poética e usa placa! o Arnaldo era o dentista do meu pai. Era um Sr. de certa idade magrinho com um consultório antigo com cadeiras antigas e uma batina. Era puto e quando entro, deu-me logo um arrepio espinha acima. Entrei lá com 10, 9 ou 11 anos e sai de lá sem os 2 molares. Ele não perdoa! E ainda me lembro que o ninja para além de me ter arrancado os dentes, de me ter doido bué, fiquei com um abscesso gigante, ainda me mostrou os dentes!!! E tinha lá dentes expostos! Isso marcou-me. Mas foi importante, porque aprendi que tenho uma tolerância gigante. Principalmente se for um amigo do meu pai ou um amigo de um amigo e só fico chateado quando ultrapassam um certo nível de dor. Aprendi muito novo que aguento quase tudo desde que seja pessoal conhecido.


3º Facto
Saio da 4ª classe na escola do Algés e Dafundo e vou para o 1ºano para a Francisca Arruda. Começa por me correr bem e rola uma rapariga, a Normelia. A Normélia (se não era Amélia, era qualquer coisa mais esquisito, acho que era Normélia) tinha 10 anos e a Normélia, que era namorada do Joca, usava umas jeans Lee todas enfiadas na regueira. Naquele tempo usam-se sabrinas, camisa com folhos, chumaços, cabelos com mize tipo Stevie Nicks dos Fleetwood Mac. A Normélia apresenta-se assim, o Cardona fica a tremer, "bora lá, vamos lá vamos beijar" e eu já tinha beijado mas não estava preparado para a Normélia, a Normélia manda-me um ataque de escalope frontal... e o Cardona não estava à espera. Ela vira-se para mim e diz: "tu não sabes beijar!" Eu fiquei para morrer e ainda me 
tentei aplicar mas perdi a moral toda. A Normélia mandou-me um knockout e eu descobri nesse dia uma coisa muito importante à cerca do meu ponto de vista sobre mulheres, mas a minha cena é que as mulheres, de uma forma construtiva, enaltecedora da espécie humana, para alem daquilo que a minha semântica permite arvorar, as mulheres serão sempre umas grandes mestres na arte dos prazeres da vida, do bem estar e uma forma de atingir o belo, que até a besta do Cardona merece ter vislumbrado. Aquele beijo de língua...decidi a partir daquele dia empenhar-me no beijo de língua!


4º Facto
Vou dar um salto... Primeira vez que ouvi a minha música tocar na rádio.

Ia eu para o magoito com o meu amigo Pedro Canina no meu carro, um Citroen AX 1400 branco, decorria o ano de 91 e eu tinha uma banda que eram os "chiwawa". Banda espectacular! Nessa altura a formação era o Vilela na bateria e o Mucha (Muchaxo) no baixo e ensaiávamos nos Bons Dias. Fizémos uma maqueta, quem a gravou foi o João Maló, os donos do estúdio eram os "império dos sentados" e o radialista era o Renato. Gravámos a maqueta e eu andei a distribuir cassetes pelas rádios que eu era um puto cheio de pica. Tocávamos por Lisboa no europa, na caixa económica operaria, na voz do operário, na sociedade do Murtal...tanto sítio! E um dia, vou com o Pedro Canina para o magoito, (na noite em que viria a conhecer a minha primeira mulher) e vínhamos a ouvir a rádio energia ou a marginal. Vamos no caminho, íamos fazer surf e no programa da musica portuguesa passa o tema "Creative Man" dos Chiwawa e eu era o vocalista. Nessa banda ainda tocou o Alex dos Terracota e a Paula Cunha Rosa de quem tenho muitas saudades. 

Ouvir a minha musica na rádio pela 1ª vez, a sensação foi como a do palco. Conseguir produzir musica, misturar bem a musica, enfim...é um processo que nos faz apaixonar pelo que fazemos e nos faz sentir vivos. São as primeiras vezes!


5º Facto
O mais importante de todos. É vivido em dois momentos e fazem parte da minha memória de ser humano. Foram os dias em que as minhas filhas nasceram, primeiro a Mariana e depois a Filipa, e que eu tive o privilégio de viver. E esses são de facto, ou melhor, são O Facto, o nascimento das minhas duas filhas! São o 5º elemento destes conjunto de 5 factos que eu envio ao Alvim que é um granda bacano!