Monday, July 22, 2013

Marco Paulo mentiu

Isto de estar enamorado por alguém tem muito que se lhe diga. É um trabalho a tempo inteiro, como aquelas empregadas à antiga, dormindo lá, comendo lá, tratando da garotada e servindo chá à senhora. Não há sábados, não há domingos, não há nada, quer-se fazer uma outra coisa e temos a jovem a bater o pé e a fazer beicinho. E quando nos pergunta se é dela que gostamos, isso só pode ser para nos fazer rir, porque parece-me óbvio que só lhe poderemos responder que sim, que claro que sim. Até porque, convenhamos, não nos sobra tempo para mais coisa nenhuma! Por isso nunca compreendi a poligamia.

Vamos lá ver, um homem pode até viver com várias mulheres, dormir com elas, tomar banho, fazer conchinha. Agora amar duas? Duas ao mesmo tempo?! Não me venham com essa. O que pode acontecer é gostar de uma e amar outra, isso pode. Pode acontecer ter uma atracção sexual por uma e amar loucamente outra. Pode também acontecer amar uma e pensar que ama a outra (isto acontece muito). Agora duas mulheres, dois amores, ao mesmo tempo, com a mesma intensidade, com aquela coisa “ai que não durmo, ai que falta o ar!” garanto que isso não existe.

E o Marco Paulo mente na canção, quando diz que tem dois amores. Quando muito tem duas pessoas. Marco Paulo mente quando diz que não tem a certeza de qual gosta mais. É claro que tem a certeza o bandidão, é claro que sim, agora a testosterona é que pode estar a condicionar-lhe a escolha, isso já acredito. Marco Paulo mentiu mas, e isso é que importa, o amor nunca o fará.

Fernando Alvim
Publicado originalmente no jornal i
[Fotografia de Nicholas & Sheila Pye]

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