Monday, June 19, 2006


E de repente a minha vida muda. Saio de casa, faço uma ultima chamada a dizer que estou neste momento a sair. Está sol, o calor faz-me negligenciar o uso de luvas. Estou neste momento a sair – repito – são talvez 10.30, talvez mais até. E uns minutos depois (não mais do que 3, 4) estou estendido na relva quente da Avenida Calouste Gulbenkian com gente a olhar para mim como se tivesse acabado de nascer.

Dizem: “ Ele está a respirar,. Ele está a respirar!” e eu confirmo, vociferam “ ninguém toca no puto, ninguém toca no puto!” e eu encolho mesmo a tempo de entrar nesta ambulância que agora se dirige ao hospital São José. O condutor reconhece-me, o colega também e ambos fazem que eu perceba que não é assim tão grave. Já dentro do hospital enquanto recebo visitas há uma frase que todos repetem “ podia ter sido muito pior!” e não sei porquê assalta-me um pensamento que me diz que “ também podia ter sido muito melhor”

Pensando que não, é aborrecido ter um acidente. Palavra, é chato. Porque com sinceridade, se eu soubesse antecipadamente que ia ter um acidente, as coisas teriam sido diferentes. Tinha preparado tudo com antecedência, adiantava alguns trabalhos, avisa a minha entidade patronal que me iria ausentar durante algum tempo, ia comprando alguns analgésicos e todo o tipo de ligaduras, podia ver logo um ou outro hospital que gostasse mais e posto isto, e então sim, só agora sim, estendia-me ao comprido na relva árida da Calouste Gulbenkian.

Assim, não foi. Há um dedo partido e 11 pontos no Joelho direito que confirmam a má sorte de não ter sido avisado. 4 dias no hospital, dois sem telemóveis, 3 sem televisão no quarto. Um antro de dor à minha volta que me faz entender que a minha, a dor que sinto, é infinitamente menor à que me rodeia. Sofre-se aqui como nunca antes havia experimentado e à noite, quando as luzes se apagam há um grito que percorre o corredor como se andasse e batesse nas portas. É um grito que representa vários, talvez sejam muitos gritos num só, mas este arrepia, este grito arrepia porque representa a dor que ali vai e que aquela pessoa, ao contrário de muitos outros, preferiu não silenciar. Aquele homem ou aquela mulher, quis que soubéssemos que o seu sofrimento era tão maior que aquele corredor.

E depois disto, quando finalmente saímos, nos libertamos do soro e encontramos o dia claro, sentimos algo de muito parecido com alguém que acaba de sair de um estabelecimento prisional depois de uma pena que cumpriu. Advinho, que será algo de muito semelhante embora não seja obrigatório que quem sai de uma prisão tenha que necessariamente se apresentar de braço ao peito.

Adiante, só o simples facto de passar a ter uma só mão para escrever fez com que a preguiça se apoderasse de mim e me fizesse, por manifesto amuanço, não escrever uma linha durante este tempo.

Estou de volta, regressei, ando cheio de ideias, este acidente pode até ter sido uma coisa boa ( “Podia ter sido Pior!”) , estamos a meio do ano, estamos a meio do jogo, há uma segunda parte para dar a volta a isto. E eu, preparo-me para entrar de novo em campo.

P.s – Está em preparação o novo número da revista 365 ( www.revista365.com) que sairá no final de Julho. Pela primeira vez, a revista sairá em formato de livro de Bolso, inspirando-se em absoluto na lendária revista Gina. Se ainda não a conhecem, deveriam, se ainda não são assinantes, deveriam também, se nunca divulgaram esta estupenda publicação junto dos vossos, é obvio que deveriam fazê-lo. E mais não digo. Querem que eu repita o endereço do site?! Está bem: www.revista365.com.