
E repente aconteceu, começo a ver as coisas de outra forma, mais nebulosas, mais turvas, como se amanhecesse num daqueles dias de nevoeiro, não é muito intenso, não é, mas é o suficiente para partir para o primeiro oftalmologista que encontro.
Dizem-me que só amanhã me podem receber, às 13.30, e no tempo que me resta regresso à minha infância e lembro-me dos testes à visão que nos faziam, primeiro com letras gigantes e depois, cada vez mais pequenas. O que vê daí? perguntavam-me. E eu ia debitando as letras: a f r g h com uma sorte tal que chegava a emocionar os presentes e a ouvir comentários que me auguravam um futuro promissor no domínio do Jogo. A poucas horas de fazer outra vez este mesmo teste, treino em casa, coloco papeis com letras grandes a distãncias consideráveis e digo cada uma das letras. Acerto em tudo. Agora mais pequenas, acerto de novo.
Daqui a pouco, saberei se continuo a ser o rapaz com a sorte daqueles tempos em que era mais petiz. Se assim for, garanto-vos que irei à inauguração do Casino de Lisboa, mesmo sem convite.