Do mesmo modo que ainda hoje há pessoas que esperam à beira rio que o D. Sebastião comece a tossir no meio do nevoeiro, também há em Portugal um grupo imenso de cidadãos que esperam pelo regresso dos Ornatos Violeta. De tal forma, que estou convencido que de cada vez que um deles faz o que quer que seja, desde um disco até um concerto ou um assalto a um supermercado, se há uma entrevista ou uma mínima oportunidade de estabelecer a chamada comunicação, a pergunta é sempre a mesma: “Quando é que voltam?”. E esse é que é o problema, não o facto de um dia voltarem, mas justamente o facto de nunca terem saído. E os ornatos nunca saíram. E por mais que nos dissessem que aquele era o fim para dar inicio a outras coisas novas e outros projectos, e por mais que concordássemos e percebemos que a vida é isto, a verdade é que não concordávamos coisíssima nenhuma e por nós – falo em nome dos seus admiradores – obrigaríamos a banda a tocar, ali, direitinhos, munidos todos de armas de fogo apontadas a eles, meia de vidro na cabeça para nos dar uma certa idoneidade que os bandidos devem ter e depois disto, em tom ameaçador e autoritário tal qual uma mãe que perde a paciência com o seu filho, íamos dando ordens musicais como se os obrigássemos a fazer os deveres “ora façam o favor de tocar o Amor é isto!”, “ora toquem imediatamente o Capitão Romance!”, “ Ora pouca conversa, e debitem o Chaga se não se importam!”
Mas pronto, o Gandhi disse-nos sempre que devemos usar a não-violência para sermos mais fortes e eis-nos a comer folhinhas de eucalipto em cima de uma árvore como se fossemos coalas à espera que estes rapazes se resolvam. E enquanto não se resolvem, vão-se lançando coisas para imortalizar ainda mais o que foi feito. Este é o caso. É o passado deles gravado na nossa pele, são temas que já conhecemos de cor como se fosse o corpo de alguém com quem nos habituamos a dormir. São os Ornatos Violeta, não os do passado, porque o passado não espera por ninguém, mas justamente os do futuro, que sei que os aguarda com frenética inquietude.
Fernando Alvim

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