© Ângela Berlinde
De entre todas as nobre artes conhecidas, a melhor de todas parece-me claramente o insulto. o insulto quando bem feito chega a ser aristocrático, mas contudo, basta apenas um deslize, uma espécie de ingrediente errado na comida, para inquinar o almoço, para ser saloio e torpe. Sejamos claros, o insulto deve ter classe quando todos pensariam que faríamos o contrário e não a deve ter em situação justamente inversa. Para que me entendam: um homem abeira-se de outro e dirige-lhe impropérios vários que ofendem e denigrem a sua dignidade, o seu eu, mas em particular o a da sua progenitora, insinuando este homem, que esta senhora já com provecta idade, desempenha ainda - por Deus - uma actividade profissional usualmente isenta de impostos. E perante a injúria, ao saber que a sua mãe já não desempenha tal função desde o PREC, o receptor deve ter requinte, deve ser fino, como quem limpa com aveludada parcimónia os canos de uma arma. E ao apontá-la, deve acertar-lhe na testa. A pior resposta para tudo, é ser óbvio, e no insulto também é assim. Daí que devamos evitar a todo o custo a inocência das crianças de recreio quando nos seus primeiros exercícios de tensão vocabular vão dizendo " És gordo!" ao que o outro responde " És feio". E andamos nisto. O que me leva a recordar um dos mais célebres episódios envolvendo Winston Churchill. Diz a história que a dado dia, uma conhecida deputada britânica que o odiava profusamente se abeirou deste e lhe disse: ouça, se eu tivesse um marido como você, dava-lhe um copo com veneno" ao que Churchill respondeu: " E se eu fosse seu marido, bebia-o". A ser verdade - e nada diz o contrário- Churchill seria o tipo ideal para responder ao homem que aqui umas linhas em cima, insultava de forma pouco prazenteira a mãe de quem queria hostilizar, com uma linguagem pouco ortodoxa. Penso: que mau seria se Churchill tivesse ido pelo mais fácil e lhe respondesse como os miúdos naquele recreio. Parece que imagino a tal deputada, num dia de sol como os outros, a entrar de rompante no seu gabinete e a dizer-lhe: ouça, se eu tivesse um marido como você, dava-lhe um copo com veneno" ao que Churchill responderia: " E tu és feia!". O que pensando bem, não seria de todo uma má resposta. Porque o insulto, na melhor das hipóteses, está sempre a dizer " És feio!" seja do ponto de vista moral, ético e físico. E isto se virem bem, é como todas as canções que se analisarmos de forma minuciosa, ou de uma forma ou de outra, falam sobre o amor, desaguam no amor, mesmo que dissertem sobre como é aborrecido trabalhar aos Domingos. Na televisão, quando vejo um político a dizer " o senhor deputado faltou à verdade porque não cumpriu com o que disse no seu programa eleitoral" eu na verdade, ouço-o a dizer "És feio", como quando alguém canta por exemplo, deixem cá ver "Não gosto de domingos à tarde, fico com feitio alarve, nah nah nah" eu ouço "Eu amo-a e gostava de estar com ela agora". E isto, faz-me lembrar um dos meus insultos preferidos, curiosamente da minha autoria mas que podem usar livremente visto ser um bom homem. Chamo-lhe o insulto Soraia chaves. O cenário é este, eu e mais dois ou 3 amigos, estamos encostados à parede a fazer o que melhor sabemos: ver as raparigas passar. E num desses dias (e agora vão ter que imaginar o ambiente gabarola que caracterizam grupos de rapazes sem nada que fazer) a Soraia chaves passa e eu, sem a conhecer, digo-lhe em tom marialva: Olá Soraia, estás boa? E perante a mais do que justa indiferença a que esta me veta, perante o silêncio constrangedor, na necessidade de dizer qualquer coisa requintadamente insultuosa, apenas lhe digo: Então Soraia, já não me conheces vestido?
Fernando Alvim
Publicado originalmente no Jornal i.

Nando, vai para dentro.
ReplyDeleteO jormali assim deixa de te pagar...
Não entendas isto como um insulto, mesmo vindo do jornali um euro é um euro.