Sunday, February 12, 2012

A nobre arte do insulto!

© Ângela Berlinde

De entre todas as nobre artes conhecidas, a melhor de todas parece-me claramente o insulto. o insulto quando bem feito chega a ser aristocrático, mas contudo, basta apenas um deslize, uma espécie de ingrediente errado na comida, para inquinar o almoço, para ser saloio e torpe. Sejamos claros, o insulto deve ter classe quando todos pensariam que faríamos o contrário e não a deve ter em situação justamente inversa. Para que me entendam: um homem abeira-se de outro e dirige-lhe impropérios vários que ofendem e denigrem a sua dignidade, o seu eu, mas em particular o a da sua progenitora, insinuando este homem, que esta senhora já com provecta idade, desempenha ainda - por Deus - uma actividade profissional usualmente isenta de impostos. E perante a injúria, ao saber que a sua mãe já não desempenha tal função desde o PREC, o receptor deve ter requinte, deve ser fino, como quem limpa com aveludada parcimónia os canos de uma arma. E ao apontá-la, deve acertar-lhe na testa. A pior resposta para tudo, é ser óbvio, e no insulto também é assim. Daí que devamos evitar a todo o custo a inocência das crianças de recreio quando nos seus primeiros exercícios de tensão vocabular vão dizendo " És gordo!" ao que o outro responde " És feio". E andamos nisto. O que me leva a recordar um dos mais célebres episódios envolvendo Winston Churchill. Diz a história que a dado dia, uma conhecida deputada britânica que o odiava profusamente se abeirou deste e lhe disse: ouça, se eu tivesse um marido como você, dava-lhe um copo com veneno" ao que Churchill respondeu: " E se eu fosse seu marido, bebia-o". A ser verdade - e nada diz o contrário- Churchill seria o tipo ideal para responder ao homem que aqui umas linhas em cima, insultava de forma pouco prazenteira a mãe de quem queria hostilizar, com uma linguagem pouco ortodoxa. Penso: que mau seria se Churchill tivesse ido pelo mais fácil e lhe respondesse como os miúdos naquele recreio. Parece que imagino a tal deputada, num dia de sol como os outros, a entrar de rompante no seu gabinete e a dizer-lhe: ouça, se eu tivesse um marido como você, dava-lhe um copo com veneno" ao que Churchill responderia: " E tu és feia!". O que pensando bem, não seria de todo uma má resposta. Porque o insulto, na melhor das hipóteses, está sempre a dizer " És feio!" seja do ponto de vista moral, ético e físico. E isto se virem bem, é como todas as canções que se analisarmos de forma minuciosa, ou de uma forma ou de outra, falam sobre o amor, desaguam no amor,  mesmo que dissertem sobre como é aborrecido trabalhar aos Domingos. Na televisão, quando vejo um político a dizer " o senhor deputado faltou à verdade porque não cumpriu com o que disse no seu programa eleitoral" eu na verdade, ouço-o a dizer "És feio", como quando alguém canta por exemplo, deixem cá ver "Não gosto de domingos à tarde, fico com feitio alarve, nah nah nah"  eu ouço "Eu amo-a e gostava de estar com ela agora". E isto, faz-me lembrar um dos meus insultos preferidos, curiosamente da minha autoria mas que podem usar livremente visto ser um bom homem. Chamo-lhe o insulto Soraia chaves. O cenário é este, eu e mais dois ou 3 amigos, estamos encostados à parede a fazer o que melhor sabemos: ver as raparigas passar. E num desses dias (e agora vão ter que imaginar o ambiente gabarola que caracterizam grupos de rapazes sem nada que fazer) a Soraia chaves passa e eu, sem a conhecer, digo-lhe em tom marialva: Olá Soraia, estás boa? E perante a mais do que justa indiferença a que esta me veta, perante o silêncio constrangedor, na necessidade de dizer qualquer coisa requintadamente insultuosa, apenas lhe digo: Então Soraia, já não me conheces vestido? 

Fernando Alvim
Publicado originalmente no Jornal i.

1 comment:

  1. Nando, vai para dentro.

    O jormali assim deixa de te pagar...

    Não entendas isto como um insulto, mesmo vindo do jornali um euro é um euro.

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