Thursday, July 30, 2009

Poema pouco original do medo de Alexandre O'Neill


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões
contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Alexandre O'Neill

2 comments:

  1. Este medo fez-me lembrar o "Medo" do Al Berto...

    "hoje é dia de coisas simples
    (Ai de mim! Que desgraça!
    O creme de terra não voltará a aparecer!)
    coisas simples como ir contigo ao restaurante
    ler o horóscopo e os pequenos escândalos
    folhear revistas pornográficas e
    demorarmo-nos dentro da banheira
    na ladeia pouco há a fazer
    falaremos do tempo com os olhos presos dentro das
    chávenas
    inventaremos palavras cruzadas na areia... jogos
    e murmúrios de dedos por baixo da mesa
    beberemos café
    sorriremos à pessoas e às coisas
    caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
    (se estivesses aqui!)
    em silêncio olharíamos a foz do rio
    é o brincar agitado do sol nas mãos das crianças
    descalças
    hoje

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  2. espero bem que não.

    (excelente poema, sem duvida)

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