Saturday, July 12, 2014

Inquérito do Jornal Metro com Bárbara Baldaia - Jornalista e 'runner'




- Umas férias: Marrocos. Na fronteira de Tânger, uma das pessoas do nosso grupo foi entregar os pasaportes para carimbar enquanto os outros esperavam no carro. Mandaram-me chamar, porque a minha fotografia no passaporte levantava suspeitas. Acho que fui confundida com uma terrorista. Foi um momento alto da minha carreira turística.

- Uma ideia: Dizer bom dia (ou boa tarde ou boa noite) aos desconhecidos com quem nos cruzamos. Quando entro num elevador e cumprimento, fica tudo a olhar para mim como se fosse maluca. Saudemo-nos!

- Uma asneira: Achar que se tem que fazer tudo bem e que se não pode falhar. É uma grande asneira não falhar. 

- Uma paixão: Ou uma paixão por uma outra coisa qualquer, pronto.
O silêncio. Sobretudo o silêncio fora da cidade. Estar a ouvir o silêncio da natureza, um rio que corre lá em baixo, uma aragem que faz restolhar as folhas das árvores, um pássaro perdido... 

- Uma curiosidade: revelem-nos uma que tenham aprendido com a vossa avó, ou com o tio que sabia sempre tudo, ou na televisão, ou no café, ou na enciclopédia do armário lá de casa, ou no outro dia enquanto ouviam o Pacheco Pereira, enfim, com a vida que levam
As nódoas de gordura na roupa tiram-se muito bem com detergente da louça. 

- Uma pergunta: uma pergunta que gostavam de obter resposta. Uma pergunta que ainda ninguém teve a audácia de fazer. Daquelas de deixar um café subitamente em silêncio. Antes, obviamente de tudo voltar ao normal e se pedir mais uma imperial.
Porque é que os professores não permitem que os testes na escola sejam feitos com consulta, se na vida adulta não fazemos nada sem googlar? 

- Uma resposta: lembrem-se de uma boa resposta, que pode não ser verbal - por exemplo uma acção, um acontecimento -  mas pode também o ser. Que tenham visto num filme, numa entrevista, num livro, na boca da senhora da mercearia.
"Bai-me à loja" (É a forma de se dizer "Não me aborreças", no Porto) 

- Uma lição: uma lição que tenham aprendido ou queiram dar. Algo que tenham aprendido e agora julguem ser necessário transmitir. Podem ensinar-nos a fazer o nó da gravata ou bacalhau à Brás. Podem dizer-nos finalmente o que é o amor. Ou como se vai de transportes da rua augusta até Benfica. Queremos uma lição vossa ou quetenham escutado. Ou inventado só agora para este inquérito.
Faz o que gostas e gosta do que fazes - a vida fica mais fácil. 

- Uma aventura: aqui pode ser o que julgam ser uma aventura (tipo atravessar o irão abraçado ao salman rushdie; hora de ponta na IC19) ou uma aventura em que quase eram apanhados. Ou que foram apanhados.
Ter sido repórter no Parlamento durante oito anos.

- Um segredo: pode ser um segredo vosso ou algo que só vocês saibam mas que na verdade seja do conhecimento geral. Pode ser uma mentira inventada por vocês ou a destruição de um mito. Ou dois. 
Não está tudo inventado.  

- Uma invenção: pode já existir ou melhor ainda, uma coisa que seja necessária e que ainda não foi inventada até a vossa iluminada mente responder a isto.
TSF Runners. Sim, é possível fazer um programa de rádio sobre corrida.  

- Um desabafo: sobre o que quiserem, sobre alguém, sobre um país, sobre um estigma, sobre um incómodo, sobre uma mentira.
Cansam-me as pessoas que andam sempre a queixar-se (isto não é uma queixa!) 

- Um problema: algo que têm vindo a notar que está a transformar num problema, que é um problema, que ainda não é mas é certinho que irá ser.
Pessoas que estacionam um carro como se fossem dois. 

Thursday, July 10, 2014

Um convite à poesia




Fundação Cupertino de Miranda em parceria com a Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão vai realizarnos próximos dias 11 e 12 de julho,CARMINA 1, encontro de poesia coordenado por Tolentino Mendonça e Pedro Mexia.
CARMINA pretende reunir um grupo de especialistas em literatura, fazendo deste um evento único no universo da poesia.
Nomes como Sousa Dias, Alex Villas Boas, Fernando J. B. Martinho, Maria João Reynaud, Rosa Maria Martelo, Maria João Costa, Frederico Lourenço, Jorge Sousa Braga, Rui Lage e Pedro Sobrado fomentarão conversas com o intuito de nos aproximarem das interrogações de Deus na poesia.
No dia 12 será apresentada a antologia Verbo. Deus como interrogação na poesia portuguesa

“Deus como interrogação, assim se chama a antologia, porque Deus existe, na poesia como na vida, em modo interrogativo, mesmo para quem tem fé. Esta não é uma antologia para crentes ou para não-crentes, é uma antologia de poesia que dá exemplos de um tema, de um motivo, de uma obsessão, exemplos portugueses, numa época que também nos deu Claudel, Eliot, Luzi ou Milosz, poetas com uma questão, com uma pergunta que nunca está respondida.”

Dos poetas antologiados contamos com a presença de Armando Silva Carvalho, Carlos Poças Falcão e Fernando Echevarría que promoverão uma conversa moderada por Pedro Mexia e Tolentino Mendonça.

 
Programa

11 JULHO
10h30 – A interrogação de Deus na poesia portuguesa – breves achas para uma grande fogueira. Uma conversa com José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia. Moderada por Sousa Dias

12h30 – A interrogação de Deus na poesia brasileira. Alex Villas Boas.

15h00 – À poesia o que é da poesia e a Deus o que o é de Deus. Fernando J.B.Martinho. Maria João Reynaud. Rosa Maria Martelo. Numa mesa-redonda conduzida por Maria João Costa

17h00 – A poesia cabe dentro das antologias? Não. Então porque se fazem?Frederico Lourenço, Jorge Sousa Braga, Rui Lage, José Tolentino Mendonça, Pedro Mexia. Num painel coordenado por Pedro Sobrado

18h00 - Poesia no Parque da Devesa

Ao longo do dia
A POESIA ESTÁ NA RUA com Isaque Ferreira, João Rios e Rui Spranger


12 JULHO
10h00 – Lançamento da Antologia “Verbo. Deus como interrogação na poesia portuguesa” (Ed. Assírio & Alvim)

10h30 – Deus nunca acaba de ser dito pelos poetas. Armando Silva Carvalho, Carlos Poças Falcão, Fernando Echevarría.

12h30 - Encerramento com Poesia na Praça D. Maria II

Ao longo da manhã
A POESIA ESTÁ NA RUA com Isaque Ferreira, João Rios e Rui Spranger


entrada livre e gratuita.

Wednesday, July 09, 2014

22º Curtas Vila do Conde: Arranque da Competição Nacional

No Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema está reservado para hoje, terça-feira, um dos momentos habitualmente mais aguardados do festival: o arranque da Competição Nacional, com sessão agendada para as 21 horas.

A produção nacional sofreu um sério problema de financiamento nos últimos anos. Não deixa de ser, por isso, uma surpresa que os filmes continuem a ser produzidos e que sejam surpreendentes objetos cinematográficos. Com estratégias inovadoras de produção, esta seleção é marcada pela presença avassaladora da crise financeira na sociedade portuguesa. Ainda assim, há, neste panorama, filmes que continuam a utilizar a câmara de filmar para fazer reflexões sobre as contradições humanas mais elementares. A diversidade continua a ser uma marca de sucesso do cinema português. 
Nesta edição, regressam ao festival autores como Sandro Aguilar, Salomé Lamas, Jacinto Lucas Pires, Rodrigo Areias, Gabriel Abrantes, Teresa Villaverde, Vasco Sá e David Doutel. O futuro do cinema português passa por aqui.


E a exemplo do sucedido em anos anteriores, o Curtas Vila do Conde promove os habituais Encontros com Realizadores, potenciando um espaço de debate e reflexão sobre o panorama do cinema português. Os realizadores, com filmes a concurso e presentes em Vila do Conde para apresentarem as suas obras, são convidados para uma conversa com o público. 

Quarta, dia 9 - Mariana Gaivão, Pedro Neves, Sérgio Ribeiro e Salomé Lamas


Quinta, dia 10 - Nuno Amorim, Jacinto Lucas Pires, Miguel Clara Vasconcelos e Patrick Mendes


Sexta, dia 11 - Rodrigo Areias, Francisco Botelho, Sandro Aguilar, Teresa Villaverde e Simão Cayatte 


Sábado, dia 12 - David Doutel, Vasco Sá, Marco Amaral, João Rodrigues e Gabriel Abrantes 

(Os Encontros com Realizadores decorrem no Lounge Curtas, no Teatro Municipal, pelas 16h15)




Secção Curtinhas
Um minifestival para os miúdos (mas também para os graúdos), o Curtinhas surgiu em 2009 no contexto do projeto ANIMAR (que, em 2014, chegou à 9.ª edição), um programa anual de formação de públicos jovens através do cinema de animação. A parte principal do Curtinhas é a competição de filmes para crianças, divididos em três escalões etários – para maiores de 3, 6 e 9 anos. O júri é também composto por crianças. Para além da competição, o Curtinhas é composto pelo Espaço Infantil "Brincar ao Cinema", nas instalações do festival, e vários workshops.

ESPAÇO INFANTIL BRINCAR AO CINEMA 
Até 13 de julho, 14:30-23:30
Teatro Municipal de Vila do Conde, Piso 3
Neste espaço infantil têm lugar diversas atividades para crianças dos 4 aos 12 anos, permitindo aos espectadores do Festival assistir às sessões, sabendo que em simultâneo os seus filhos usufruem de um lugar de diversão e aprendizagem, sob a orientação de uma equipa de formadores. Este espaço tem, num horário coincidente com o das sessões de cinema, uma programação permanente constituída por ateliers de curta duração, visionamento de filmes e realização de outras atividades em torno da imagem em movimento. 

OFICINA CIÊNCIA DA IMAGEM 
Sábado : 12 Jul
Teatro Municipal de Vila do Conde (Piso 3)
10:30–12:30, 3-6 anos (pais e filhos))
14:00–16:00, 7-12 anos
Preço: 5 euros criança
Formadores: Mundo Científico
Luzes, filtros, lentes e espelhos vão ser os protagonistas de uma fantástica aventura pelos princípios da ótica associada ao cinema. Serão as imagens realmente animadas ou o produto de um cérebro iludido com tanta confusão? Vamos convidar a Ciência para ajudar na solução!

Tuesday, July 08, 2014

Balanço Vital, com o editor João Paulo Cotrim, no Jornal Metro



Enjoo em terra com o balanço, mas no mar nem por isso. Estranho? Sou mais árvore que pássaro, pelo que não sei se deva escolher relâmpagos e trovões para estas contas ou a suavidade de um olhar, a preguiça da sesta, o sublime momento da dúvida, as primeiras vezes: gole de cerveja, beijo, livro folheado, pão de forno, entrada em redacção, gargalhada de puto. 

Como convém, há que ceder ao dramatismo.

5 factos acontecidos

1. Vi a chegada à Lua em directo e logo ali descobri uma vocação, que era magro e não me dava mal com as matemáticas. Um certo professor, contudo, e no âmbito do programa curricular, deu-me a conhecer um tal de Fernando Pessoa, jaz morto mas não arrefece. Até já tinha lido poesia, mas nunca tinha lido poesia. Não mais me livrei dela, apesar de ainda ter continuado a achar durante anos que podia ser astronauta. Têm sido os versos a levar-me à lua e a prender-me à terra. A enterrar-me.


2. Só escrevi um fado, mas quando ouvi pela primeira vez o António Zambujo a cantar a minha delirante infância pensei por momentos que a vida podia fazer sentido, breve é claro. Breve o sentido e a vida, que a poesia só ensina a cair. Fado do Homem Crescido, escrito para o filme de animação homónimo que o Pedro Brito realizou, diz com imagens e sons e palavras que a amizade é impossível, pelo que estamos condenados à solidão. Ora nada mais vale senão a amizade.

3. Gastei muita fita e vinil a agarrar-me aos Waterboys, The The, Tom Waits e Sérgios Godinhos desta vida, aumentando os dias, que o vinil trazia horas e aumentava ao limite as nossas noites. Mas o relâmpago aqui foi ter na mão e no ouvido o ipod, razão pela qual o hominídeo desenvolveu o polegar. Aquilo deu finalmente resposta a toda a curiosidade que ia da vertigem de Glenn Gould aos electro-absurdos de Kraftwerk, dos Velvet Undergound às Vozes Búlgaras, 
que acabei por ouvir em casa delas. Melhor do que o ZX Spectrum, muito melhor.

4. Por causa do Tintim descobri os livros e as imagens. Andei meses, ao que parece, sem largar o mesmo álbum. Em páginas semelhantes fui vendo como eram os corpos delas, por exemplo, 
que foram tantas as utilidades. E depois, certo dia, com a cumplicidade de um político que sabe ler, trouxe a Lisboa José Muñoz, para que o seu trabalho político e artístico perturbasse o 
museu da cidade. Ora sentar-me à mesma mesa abriu-me a cabeça para a parte oculta de um icebergue chamado banda desenhada. Voando abaixo dos radares e usando as mais belas das artes leva longe o desejo.

5. Aprendi a fazer aguardente, por razões que não cabem aqui, mas a descoberta do uísque, começando pelo irlandês Bushmills, voltou a abrir-me a gaveta do espiritual. Nada dá mais acesso a nós e aos outros, nada abre portas e janelas, constrói pontes e catedrais como o álcool. Aprendi a ler nesse instante, vi os palcos que havia de pisar, os textos que assinei para outros desenharem. Descubro passados em cada gole, vejo o futuro. E bebo o presente. 

5 fados por acontecer
- Manter aberta a boca do abysmo.
- Ganhar tempo para fazer nada. 
- Voltar a habitar um quinhão do Alentejo.
- Cozinhar todos os dias. 
- Aprender a dançar.