Thursday, August 22, 2013

Monday, August 19, 2013

A vida tem valor acrescentado

Ando entretido com esta coisa das chamadas de valor acrescentado, de tal modo que dou por mim a ligar para todas as que me aparecem. E acreditem que me parecem poucas, que deveria haver mais. E porquê? Porque as televisões apostam só nos programas de entretenimento, quando deveriam apostar em todos os outros. Ouçam, eu vejo nisto um potencial tão grande, que acho honestamente que os telejornais deveriam também começar a interromper as notícias e a mostrarem como se faz. Clara de Sousa, Judite, José Alberto Carvalho, prestem atenção por favor. Mas com perguntas fáceis mas que ainda assim revelassem um pouco do conhecimento da actualidade. Vejam lá se isto não é uma ideia vencedora. Uma coisa gira tipo: acha que na Síria todos se irão matar uns aos outros? Ligue já 760 200 500. No Egipto, acha possível que se mate mais umas centenas ainda esta semana? Ligue já o 760 200 900. Vejo o Nuno Eiró a fazer isto na perfeição e a aparecer muito bem disposto na Praça Tahrir e a dar prémios enquanto foge como pode dos bombardeamentos e balas furtivas. O euromilhões já era, isso não dá dinheiro algum e só sai aos outros. E um boletim não faz companhia alguma, ao menos numa chamada falam connosco, tudo bem que é gravado, mas não duvidem que consegui fazer amizade com uma linha e já combinamos sair juntos esta semana. Por isso, quando me dizem que Portugal precisa de um valor acrescentado, não tenho dúvidas que é a esta linha que se referem. A linha preferida do Maradona, o 760 200 900. A resolução do mundo está a 60 cêntimos. E olhem que isto não está fácil. Para vencer no mundo é preciso ter sorte ou ser amigo do Lorenzo Carvalho. E há quem não tenha nem uma coisa nem outra. E quando assim é, o melhor que temos a fazer, é pegar nas nossas economias e apostar num número certo. E esse número começa sempre por 760. É tão bom que estou a pensar em investir tudo o que tenho nisto. É uma pena ter tão pouco.

Fernando Alvim
Publicado originalmente no jornal i
[Fotografia de Lisa Kereszi]

Sunday, August 18, 2013

Douro: a reportagem do intrépido repórter

Depois de uma semana intensa como mete-discos, o repórter Alvim decidiu refugiar-se no Douro para preparar a próxima época. Não é a primeira vez, não será a última, mas desta vez perdeu festa do peso, porque justamente nesse dia, no dia 14, fazia pela vida a muitos quilómetros daqui. Vim no dia a seguir com a pouca roupa que já me restava mas com a certeza de que tudo se resolveria com um Omo e um ferro de engomar (o que viria mais tarde a verificar-se). Mas passemos a factos que interessam:

1 – O Douro é lindo. É um facto, não conheço nenhum local que me deixe mais deslumbrado que o Douro. Minto com os dentes todos, gosto também muito de Innsbruck e Praga, mas em Portugal, com a boquinha aberta de espanto, o Douro. 

2 – As férias da minha infância foram sempre aqui pelo que é óbvio que sinto uma ligação emocional com o local. Pareço aquelas mães que começam as frases com “Não é por ser meu filho mas é muito inteligente o meu Chiquinho” Uma vez perguntei a um reconhecido sommelier, se existia este corporativismo na escolha dos vinhos que gostamos. Isto é, se interferia na nossa escolha o facto de sermos daquela região. Para que me entendam, se o facto de sermos da bairrada nos faz querer vinho da bairrada, se o facto de sermos do Alentejo nos faz querer vinho do Alentejo. O sommelier abanou com a cabeça de forma afirmativa e percebi assim porque gosto tanto dos brancos do Douro. Em particular – e se me permitem – o maravilhoso vila real. 

3 – A minha amiga Alice. Por duas vezes fui jantar com a minha amiga Alice do restaurante jéréré. É um clássico que dura há anos e que não dispenso. Gosto da comida do Douro in, do doc, mas nenhum destes tem a Alice e a comida da Alice (recomenda-se o bacalhau com broa) e isso faz toda a diferença. Pergunto-lhe: Alice tens vinhos de outras regiões e ela responde-me:” Muito pouco! Então eu sou do Douro, achas que não ia ajudar os que são meus? É claro que eu vou ajudar os que são meus Nandinho!”. A resposta da Alice faz-me pensar se Portugal não deveria pensar assim também no seu todo. Então se podemos comer as laranjas feitas cá, porque diacho vamos nós comprar de outros? Eu sei que é um corporativismo e que isso nunca soa bem, mas neste caso, parece-me que será este o caminho. 

4 – Já passaram por mim 5 lanchas. Em pouco mais de 20 minutos já passaram por mim 5 lanchas, aqui onde me encontro, na varanda do quarto 223. O Churchill tinha uma varanda também no arquipélago da Madeira onde fumava os seus charutos. Eu tenho esta varanda no Douro onde bebo um delicioso chá com gelo. O cenário repete-se: as lanchas são conduzidas por um homem e na parte da frente há raparigas deitadas, em bikini, a fazerem-se ao sol. Não vi um único homem em idêntica situação, sempre raparigas. E depois queixam-se que os homens são isto e aquilo, que injustas são. Passou agora mesmo , neste preciso instante, uma lancha só com dois ocupantes. Ora respondam-me lá: Onde está a mulher? Exactamente. Onde está o homem? Adivinharam. Mas só dois o que com franqueza dá ideia que ele é o taxista. Com mais mulheres à frente, sempre se pode confundir com um condutor de transportes públicos ou um casanova que fará amor com todas elas quando parar o motor. De uma forma ou de outra, tratamos bem as nossas mulheres e é bom que assim seja. Porquê? Porque se está tudo bem com a vida da nossa mulher, com a nossa vida está também tudo bem. E o contrário, pode não ser verdade. A marta Gautier diz isto no espectáculo dela e concordo. Às vezes quando a nossa vida está muito bem, a nossa mulher começa a fazer perguntas. É claro que ela quer que a nossa vida esteja bem, mas muito bem, muito bem, pode levantar perniciosas desconfianças. 
5 – A animação do Douro. Adoro as pessoas daqui, de tal modo, que me apetece abraça-las a todas, mas tenho vindo a verificar que quando chega a altura de dançar e dar uns pulos, as pessoas se acanham e não participam tanto como deveriam. Eu sei que é por timidez – é sempre por timidez - e não é só aqui – não é não - mas para um artista que está no palco é o diabo. De resto, para além da zona principal onde há imensos restaurantes e cafés e bares, o que honestamente se deve fazer é visitar umas quase diárias festas populares nas zonas circundantes. E acreditem que há uma todos os dias. E se souberem esperar, garanto que irão ouvir o querido mês de Agosto do Dino Meira. 

6 – Não se percebe como é que o Douro ainda não tem o seu festival do vinho do porto. Em vez disso, tem o da francesinha. O professor Marcelo devia ter uma explicação para isto.

7 – Um gin no Douro In. Desde o tempo do lendário Meireles, o Douro In continua a ser o melhor espaço para beber um gin. É um clássico que o vosso repórter não dispensa e que repetiu ao longo dos dias. Em algumas ocasiões, mais do que uma vez tamanha era a proximidade do hotel.

8 – Hotel Régua Douro. Se há coisas que existem no Douro são óptimos hotéis, quase todos eles da outra margem do rio onde me encontro. O Aquapura e o Vintage House Hotel são claramente as grandes vedetas mas outros há que são igualmente recomendáveis. Se me permitem , a quinta de Santo António onde há alguns anos organizei uma mítica festa rural é um deles. Da festa, lembro-me que o hino oficial da mesma era o tema Scatman John de Scatman e ainda hoje não percebo porquê, mas sempre que ouça falar em festa rural é Ski-Ba-Bop-Ba-Dop-Bop que eu ouço. Contudo, o vosso repórter escolheu a outra margem e está instalado no Hotel Régua Douro que tem a piscina mais luminosa que eu conheço, bons quartos e uma vista quase tão boa como aquele marmanjo que adormeceu quando colocava mel na Bo Derek. O vosso repórter, despede-se com amizade desde o quarto 223, do Douro para o mundo.

Lisbon Week 2013 a chegar!

de 21 a 28 de Setembro de 2013

A segunda edição do Lisbon Week chega de 21 a 28 de Setembro. Uma vez mais, Lisboa transforma-se numa plataforma de descobertas, com uma programação cultural que fará encontros únicos entre as Artes e o Património da cidade, do Marquês ao Rio. A Caixa Geral de Depósitos é o patrocinador oficial do evento, realizado em co-produção com a Câmara Municipal de Lisboa.

De Sábado a Sábado, o Lisbon Week vai explorar edifícios com séculos de história, revelar obras de artistas nacionais, e montar concertos e palestras em locais inesperados. Da História à Arte, passando pela Gastronomia e pela Música, várias temáticas foram desenhadas para reflectir um novo olhar sobre a cidade.

Do alto do Parque Eduardo VII ao rio Tejo, tendo como epicentro a Rua das Portas de Santo Antão, o público vai ser convidado a re-descobrir Lisboa, numa partilha de experiências sem precedentes. Haverá três pontos informativos para as diferentes partidas dos passeios Lisbon Week: o percurso Verde, que percorre o Corredor Verde de Monsanto, tem início no Jardim Amália, em pleno coração do Parque Eduardo VII; a viagem pela Arte, feita no autocarro Lisbon Week/CGD, começa na intersecção entre o Parque Eduardo VII e o Marquês de Pombal; já as visitas guiadas da História, que vão desvendar os segredos da Rua das Portas de Santo Antão e arredores, partem do Lounge Lisbon Week/CGD. Este local será o ponto de encontro oficial do evento, funcionando também como espaço lúdico e de interacção entre organização e visitantes. 

À semelhança do que aconteceu o ano passado, a maioria dos eventos são de acesso livre. As reservas para as visitas guiadas, concertos e palestras poderão ser feitas através do número de telefone 1820.

Friday, August 16, 2013

O livro novo está para breve

Sim, brevemente haverá livro novo. Enquanto ele não vem, recordemos alguns dos textos do último, Não és tu, sou eu, em destaque na Cego, Surdo e Mudo.


PAIXÃO EM TEMPOS DE CÓLERA

Chegou a hora de falar de paixão e deixar de bajular o amor. Se me permitem - e com verdade não está aqui ninguém que me impeça - tem que ser feita justiça em relação à paixão. Mas uma justiça de milícia popular, com archotes e enxadas na mão, uma justiça que nos ponha roucos, de cara ruborizada, com as veias dilatadas como nos discursos de tomada de posse do Valentim Loureiro. Por mim, corta-se já uma estrada, uma avenida central, a pista do Jamor.

Por mim é já hoje, um buzinão na ponte, nas portagens, uma greve geral, o que for, mas assim é que não pode continuar. E digo-vos já porquê, deixem-me só beber um copo de água. A paixão tem sido de forma sistemática, ao longo dos anos, de forma quase velhaca, prejudicada pela equipa de arbitragem. Não há jogo nenhum, em que o amor não seja levado mais a sério do que a paixão. E eu não posso concordar com isto. E não me venham aqui os amorosos do costume dizer que a paixão é a primeira fase e que depois se desenvolve o amor e tal e coiso, que é algo progressivo e que assim é que bonito. O tanas, é que é bonito. A paixão pode durar uma vida. A paixão mete o amor num chinelo e levanta um estádio inteiro com uma jogada de génio. O amor quando muito passa a bola, mas não faz aquela jogada que leva as pessoas ao estádio. O amor é Moutinho, a paixão é Hulk. A paixão é o toque de calcanhar do Madjer, o amor é um remate certeiro mas só isso. As pessoas festejam o golo, mas o da paixão, o da paixão é outra coisa. O da paixão é marcado no último minuto, é o penalty que nos leva à final do campeonato europeu quando já todos roíamos as unhas. A paixão rói as unhas, o amor passa a vida a tratá-las para não partirem. E esta é a principal diferença, a paixão não tem tempo para pedicura. A paixão tem pressa e corre para apanhar o autocarro. O amor espera que venha outro. A paixão não é nada disto, é outra gente.

Ouçam, a paixão não faz fretes, ninguém quando está apaixonado liga para a outra pessoa porque tem que ser. Na paixão não tem que ser, é. Já o amor é o que se sabe, uma folha de cálculo, organizadinho, com a camisa aos quadradinhos, risquinho ao meio no cabelo, um exemplo para a família, bravo, bravo! Pois a paixão também o pode ser. E está na altura de não a subestimarmos mais. Alguém que diga que está apaixonado por outra, não pode ser tratado como se fosse um amante. A paixão pode também nunca morrer, pode ser para sempre, sem precisar dessa coisa do amor. A paixão é independente, é música alternativa. O amor é hit parade, é sucesso na rádio cidade. O amor dificilmente viverá sem a paixão e não me venham dizer que o contrário também é verdade, porque pode muito bem ser e daria cabo de toda esta minha tese que conclui precisamente agora.