Monday, August 12, 2013

Marco Chagas é Deus

Tem-se falado tão pouco no Verão e no calor que se faz sentir que me vejo obrigado a intervir e a escrever sobre isto. As previsões de Gaspar falharam mas as meteorológicas também. Não temos Gaspar, mas temos Verão. É bom quando se falha assim. É bom falhar como se vê. As televisões estão cheias de programas com cantores românticos e senhoras já com alguma idade a aplaudirem muito. Os cantores românticos trazem sempre uns casacos que me parecem muito quentes. Fazem-me lembrar os bancários e o uso obrigatório de gravata. Por mim tirava-a. Por mim, os cantores românticos podiam cantar com uma T-shirt de manga curta.

O romantismo não se vê pelo tamanho das mangas, a respeitabilidade não se adquire no nó da gravata. As pessoas andam mais felizes, disso não tenho dúvidas, e sei porque o fazem. Por causa da volta a Portugal e do Marco Chagas. Eu acho que Marco Chagas é Deus e cada comentário seu é por mim entendido como uma passagem bíblica. Se um dia me converter a qualquer religião, será à de Marco Chagas. Marco Chagas sabe do que fala, é ponderado, é certeiro, analisa bem o que vê e é visionário quando por antecipação nos avisa do que irá acontecer. E acontece. E ele salva-nos. Se Marco Chagas tivesse no governo, já estaríamos na retoma e não tenho dúvidas que seríamos entendidos pelo mundo como uma economia emergente e promissora.

Com Marco Chagas no governo, Portugal não só iria no pelotão da frente como seríamos a frente, ganharíamos o prémio da montanha, seríamos camisola amarela. Com Marco Chagas ganharíamos a Volta a Portugal, mas sobretudo daríamos a volta a Portugal, que é do que precisamos. Daí que nas próximas eleições, no meu boletim de voto, acrescentarei aos nomes ali existentes não o habitual manguito mas uma cruz com nome associado: obviamente Marco Chagas.

Fernando Alvim
Publicado originalmente no jornal i
[Imagem retirada daqui]

Setembro é o mês daquela canção do Vítor Espadinha...

... e é também o mês do Indie Music Fest


Tudo sobre este festival aqui.

Friday, August 09, 2013

Do outro lado do mar / Porto – Nagasáqui

João Garcia continua a campanha de crowdfunding do seu projecto. Já ultrapassou, com a ajuda de muitos, a barreira dos 50% do financiamento. Como dizia aquele anúncio, falta só mais um bocadinho. Passem por aqui para saber tudo - e façam parte deste magnífico projecto.

“Do outro lado do mar / Porto - Nagasaki, imagens comuns” é uma exposição de fotografias, texto e vídeo que pretende dar reciprocamente a conhecer um pouco de uma cidade à sua gémea, através de um olhar atento, respeitoso e, necessariamente, subjectivo.

Uma série de paisagens do quotidiano mostra as cidades com respeito pela vida tal como é - feia e luminosa, simples e complexa, misterios e banal. A fotografia desempenha aqui o papel da récita à maneira antiga, ir e voltar para contar, e tenta oferecer o espaço de liberdade necessário para um diálogo entre as imagens e quem as vê, entre o acontecido e o imaginado. Entre os dois lados do mar.

Wednesday, August 07, 2013

Eu, o especialista

A Notícias Magazine deu o mote: «No verão, os corpos aquecem. E toda a gente sabe que não só por causa do sol. Na estação do calor, o sexo e o desejo estão em época alta. Porquê?» E, vai daí, foram perguntar a quem sabe - sendo eu, como é do conhecimento geral, cada vez mais um conselheiro sexual, uma referência para a sociedade portuguesa, para os palops, para o mundo. Eis as minhas sapientes respostas:

O verão leva homens e mulheres a ficarem mais quentes (sexualmente falando, claro)?
Sim, mas um bom filme também, uma boa conversa, um bom convite, umas pernas com movimentos pouco ortodoxos debaixo da mesa, enfim, há uma serie de coisas que levam a que homens e mulheres do mundo fiquem mais quentes. O fogo é uma coisa que faz isso em qualquer em qualquer estação do ano. A inquisição usava-o muito, infelizmente muita das vezes de uma forma exagerada.

E porque é que isso acontece?
Porque está calor e os corpos ficam mais descobertos. É apenas isso, porque se no inverno andássemos todos de roupa interior como se vê na praia, é óbvio que seria igualzinha. Já dizia a minha avozinha e com razão “ coração que não vê, coração que não sente”. E com o desejo, também é assim. O órgão principal é que muda. Justamente umas boas artérias abaixo.

A ti acontece-te?
Sim, é estranho, mas acontece-me a mim também. Ainda hoje foi ao hospital dos anjos por causa disso. Disseram-me que era do verão e vim para casa.

É do sol e da luz, que nos põe mais bem dispostos?
A mim, basta uma saia curtinha. Mas o sol e a luz podem ajudar sim.

É de andarmos mais despidos? 
Também. Mas se me aparecesse no verão, a Charlize Theron com um garrote e umas botas da tropa e uma meias daquelas grossas que se usam na serra nevada eu nem vos digo o que faria. Mas tirava-lhe as meias, seguramente.

É de estarmos de férias e logo menos stressados?
As mim as férias stressam-me sempre. Para mim é igual, com ou sem férias, com stress ou sem stress. Sou uma pessoa coerente durante o ano inteiro. Agora no verão a programação na televisão é piorzinha, bebem-se mais uns copos, há sempre remodelações ministeriais e as pessoas celebram este tipo de coisas, se é que me faço entender.

E o calor não pode ser um «entrave»?
Sim, e quando assim é, chama-se os bombeiros. Uma vez tive a corporação de bombeiros de Sintra em minha casa enquanto eu e a minha mulher fazíamos amor, porque estava justamente um calor insuportável e de vez em quando iam mandando água. Quero aqui aproveitar para lhes enviar um abraço e que nunca esquecerei as palavras de força e as palmas que me dirigiram.

Um amor de verão é necessariamente passageiro?
Pode ser, se andarmos muito de transportes públicos. Mas podemos apaixonar-nos por quem nem sequer os use. Um amor de verão não fica a dever nada a um de inverno. Olha-se para o verão como se fosse a cigarra e o inverno a formiga. Eu recuso-me a aceitar esta ideia, o inverno pode ser bem mandrião e irresponsável.

Algum amor de verão (teu ou alheio) que valha a pena contar?
Tive uma paixão por uma miúda espanhola quando tinha 12 anos. Chamava-se Maria, foi com ela que aprendi a dizer “no me quites” e “ te echo de menos”.

«Que se lixe as cinquenta sombras de grey, só o Alvim me deixa molhadinha». Queres comentar?
Nenhuma mulher no seu perfeito juízo diria isso. Até porque é perfeitamente possível a uma mulher estar a fazer amor comigo e a ler ao mesmo tempo. Ainda outro dia, enquanto ali estávamos, dei por mim a ler também e ia chegando ao fim do terceiro capítulo.

Livros para o verão, mais vale sexys?
Coisas doces sem açúcar do Manuel Luís Goucha. Ou então: O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir.

No É a vida Alvim, fala-se de sexo todo o ano, ou especialmente no verão?
Mais do que falar, faz-se sexo durante todo o ano. O sexo para ser bem falado, tem que ser feito. E quando mais se fala, menos se faz. É uma verdade transversal e que aprendi com a vida.


Monday, August 05, 2013

O mundo pode esperar

Hoje sonhei que tinha ficado sozinho no mundo. E que de repente as lojas, as ruas, os estádios - mesmo em dias de jogos grandes - tinham ficado desertos. E assim, como sempre acontece, todos os semáforos ficaram intermitentes e os meus passos, que outrora foram mais uns no meio de tantos, ganharam um eco próprio de um homem que se prepara para dançar sevilhanas. Gostava pois que me imaginassem a descer a Avenida da Liberdade a ouvir unicamente os meus passos e a dança das folhas nos ramos das árvores. E olhar para tudo, como se a festa tivesse acabado e só restassem os copos espalhados pelo chão.

E perguntar-me: para onde terão ido todos? Porque raio me deixaram aqui sozinho? Ligo a televisão e não está ninguém a cantar, nem a dançar, nem a chorar por a vida ter sido madrasta. Ligo o rádio e nem uma música, nem uma voz a dizer as horas. Os jornais, um aglomerado de folhas em branco, sem títulos sensacionalistas e sem fotos que reconstituem crimes hediondos. Não se passava nada no mundo, como se de repente todos tivessem ido de férias e desligado os telemóveis. Tudo bem que ouço os meus passos a descer a Avenida da Liberdade - é muito agradável, muito prazeroso, sim - mas não ver uma saia curta o dia todo nem ver ninguém muito indignado a dizer que tudo isto é uma vergonha e que assim não pode ser faz- -me crer que nunca me adaptaria a uma ilha deserta. Assim, no meu sonho, também eu acabei por abandonar o mundo e ir ao vosso encontro.

Fernando Alvim
Publicado originalmente no jornal i
[Fotogradia de Claudine Doury]