Monday, July 15, 2013

Winter I miss you so much *

Tenho saudades do Inverno, das inundações, dos alagamentos, do piso escorregadio. Tenho saudades da chuva lá fora, de senhoras à janela a dizerem "Já não se pode com este tempo!", de ver os guarda-chuva a desintegrarem-se no céu depois de perdida a luta para os manter na terra. Tenho saudades de ver os miúdos a jogar à bola e pensar que a minha progenitora nunca tal me permitiu porque - e passo a citar - "porque me apanhas uma pneumonia!" Tenho saudades de ver o Anthímio de Azevedo na informação meteorológica com pose de estado, como se fosse anunciar uma qualquer proposta de entendimento e depois de falar e dar as novas sobre o tempo dizíamos todos em coro lá em casa "outra vez chuva!" E como se não bastasse, logo a seguir, para piorar a situação, percebíamos que ao lado, no bonito mapa da Península Ibérica que nos apresentavam, os vizinhos espanhóis não raras vezes tinham um sol radioso ou um céu limpo de fazer inveja. De resto, quero acreditar que o céu, mesmo apresentando nuvens e precipitações várias, seja sempre limpo, isto é, honesto, não passível de qualquer corrupção. Até porque acredito que pouco já nos resta. Tenho saudades de sair com uma roupa impecável, penteadinho (eu sei que custa a acreditar) e no caminho para os transportes públicos, um carro na sua passagem me devolver o banho acabado de tomar em casa. Tenho saudades do Inverno, de ficar a ver televisão domingos inteiros só porque chove, de tomar Ilvico e ir dormir, de ver as crianças a brincar com neve na serra da Estrela e as tradicionais reportagens sobre isso no telejornal: "Há neve na serra da Estrela!", dizem. E eu pergunto: "A sério? No Inverno? Ninguém diria." Mas sobretudo - e é isso que quero deixar bem claro -, é que tenho saudades do Inverno, porque é sempre aí, justamente aí, que tenho saudades do Verão.

* Título em língua internacional deliberadamente para impressionar o leitor

Fernando Alvim
Publicado originalmente no jornal i
[Fotografia de Vincent Catala]

O piloto Miguel Barbosa e a coacher Maria Duarte Bello no É A VIDA ALVIM desta segunda-feira

Dois convidos de áreas muito diferentes. A abrir, teremos Miguel Barbosa, um piloto com vinte anos de experiência e pentacampeão nacional de todo-o-terreno.

Com Miguel Barbosa, teremos Maria Duarte Bello, coacher, autora do livro «Empresários à Conquista do Mundo - As Regras do Protocolo Internacional» (edição A Esfera dos Livros). A sinopse: «Nos dias de hoje são fundamentais os contactos a nível global. Exportar os nossos produtos, negociar com outros países, saber conviver em todo o mundo é uma necessidade dos empresários nacionais. Mas para que estes contactos sejam produtivos, votados ao sucesso, é essencial conhecer as regras de negociação e protocolo internacionais. Muitos dos conflitos, à mesa de uma negociação, resultam do desconhecimento e da falta de preparação dos seus intervenientes. - Quais as regras fundamentais de uma negociação? - Como preparar uma reunião de negócios no estrangeiro? - Lidar com um interlocutor alemão é o mesmo que lidar com um espanhol ou italiano? - Quais as etapas a seguir para preparar uma viagem de negócios ao Dubai? - Como cumprimentar um japonês? - Que passos devo tomar para iniciar uma relação de negócios com uma empresa em Moçambique? Estas e outras perguntas são respondidas pela autora Maria Duarte Bello. Depois dos anteriores livros - Top 10 dos Negócios e 50 Segredos de Coaching para Portugueses - esta coach especialista em protocolo traz-nos um livro original com dicas e conselhos estratégicos no que toca à indumentária, comportamentos, formas de cumprimentar, regras para conduzir uma reunião de acordo com a cultura local, gastronomia, conversação e originalidades de 49 países. Conhecimentos indispensáveis, para alcançar o sucesso em qualquer lugar do mundo.»

É A VIDA ALVIM: de segunda a sexta, no canal +TVI entre as 22 e as 23. Repetição na TVI entre as 04.50 e as 06.00. Também disponível no serviço Iris Zon e na Restart TV da Meo. Emissões disponíveis online aqui.

Sunday, July 14, 2013

Os vídeos de Joana Seixas, Joana Santos e Daniel Camacho

As actrizes Joana Seixas e Joana Santos, protagonistas (com Sérgio Praia) da peça "No Campo" de Martin Crimp (com encenação de Pedro Mexia e em cena no Teatro Turim até dia 21 deste mês), mais o fotógrafo Daniel Camacho, foram convidados do É A VIDA ALVIM de sexta-feira. Eis os vídeos que nos sugeriram:

Joana Santos:


Joana Seixas:


Daniel Camacho:


É A VIDA ALVIM: de segunda a sexta, no canal +TVI entre as 22 e as 23. Repetição na TVI entre as 04.50 e as 06.00. Também disponível no serviço Iris Zon e na Restart TV da Meo. Emissões disponíveis online aqui

Friday, July 12, 2013

«Balanço Vital» do Jornal Metro

Desta vez, fomos bater à porta do misterioso autor da Criada Malcriada


O início ou Como cheguei a Portugal
A memória é difusa, como é sempre a das crianças. Lembro-me do mar azul e do céu que o prolongava. Lembro-me de um yacht, de uma bandeira – que mais tarde aprendi ser a da Suécia – e do som de uma música suave. O que veio a seguir, é uma confusão de explosões, de gritos e da enorme bola de fogo que envolveu tudo. Lembro-me de cair ao mar, lembro-me de nadar até um destroço qualquer, o resto de uma porta, de uma mesa, de uma cama. Não era, seguramente, uma bancada de cozinha, porque costumam ser de fórmica e lembro-me bem do cheiro característico da madeira na água. Pelo ar à minha volta, voavam partes do que ainda há pouco eram pessoas e outras coisas que costumam haver dentro dos yachts. E vi, numa imagem que me acompanha até hoje, a cabeça loira decepada da minha mãe, com a tiara de esguelha, que se afogou tristemente uns metros à minha frente. Depois disso, não me lembro de mais nada. Cheguei à praia, arrastado numa rede, entre camarões e sardinhas, berbigão e cavalas. Lembro-me do casal de pescadores que me acolheu e a quem chamei pai e mãe. Da casa onde vivi os dez anos seguintes. E da Nazaré. Do areal extenso e do mar picado da Nazaré.

A fuga para Lisboa
Quando tinha quinze anos, fugi para Lisboa. Vim escondido no meio de couves-galegas e molhos de agrião numa carroça puxada por dois burros, do tempo em que havia carroças puxadas por burros que levavam couves-galegas e molhos de agrião, e se fugia para Lisboa em carroças cheias de couves-galegas e molhos de agrião puxadas por burros. Depois de desistir de procurar a minha verdadeira família e de tentar convencer toda a gente que eu, obviamente, não pertencia aqui, empreguei-me numa chapelaria que vendia chapéus, que era moda na altura. Como ficava numa rua onde passava muita gente, acabei por conhecer pessoas interessantíssimas, cultíssimas, inteligentíssimas e um português. Foram elas que acabaram por influenciar a arte que escolhi abraçar: a miniatura de monumentos nacionais com pauzinhos de fósforos (usados). 

O Mundo e eu
A internacionalização era o passo lógico seguinte. Apesar de nunca ter chegado a sair de Portugal (estive uma vez em Fuentes de Oñoro, numa coboiada que até valia a pena contar, mas como são só cinco histórias…), comecei a fazer miniaturas de monumentos de todo o mundo. Alguns deles eram tão grandes e imponentes que tive que usar fósforos daqueles de acender o forno, que acabam por ser mais rijos, mas ficam um bocadinho mais caros. Tudo isto foi antes da internet e quando ainda havia cabines telefónicas daquelas que tinham uma porta que dobrava, e que nos fechávamos lá dentro, mas que ficávamos sempre entalados na porta, para entrar e para sair, não estava lá muito bem pensado… mas tinha uma prateleira para pousar as coisas enquanto se falava ao telefone. Bom, como não havia internet, tinha que usar imagens que encontrava em enciclopédias, revistas de viagens e fotografias daquelas chatíssimas das férias dos amigos.  Curiosamente, nunca fiz nenhum monumento sueco, porque acho que não têm. Ou, se têm, não vinham nem nas enciclopédias, nem nas revistas de viagens, nem nas fotografias das férias dos amigos, que eram quase todas no sul de Espanha, onde os monumentos eram sempre umas fontes com azulejos e uns repuxos de água que me lixavam os fósforos todos. 

O 11 de Setembro
Como para qualquer pessoa normal, o dia 11 de Setembro marcou a minha vida daquela maneira em que passa a haver um antes e um depois. Foi exatamente a 11 de Setembro de 1997 que percebi que os anos que passara a fazer miniaturas tinham sido um desperdício das minhas verdadeiras capacidades. Vendi a pequena casa-museu que entretanto construíra na Reta de Pegões, peguei no dinheiro e resolvi publicar em edição de autor os poemas que vinha escrevendo desde 28 de Agosto. Fosse por serem escritos em sueco – o apelo do sangue havia feito com que aprendesse a língua – fosse pela letra muito miudinha e o papel fininho que não deixava ler bem por causa da transparência, o que é certo é que o livro foi um sucesso estrondoso. Motivado pelo espirito empresarial que me ficara dos tempos em que vendia as miniaturas a mil escudos cada (na moeda antiga), lembrei-me de investir tudo o que ganhara numa ideia genial que tivera: um restaurante onde vendia hamburgers dentro de uns pães redondos, batatas fritas e coca-cola, tudo em menu, e onde a ideia era ser atendido em menos de três minutos e comer em menos de dez. Não correu bem. Apesar de tudo, receberam-me de volta de braços abertos na Nazaré. 

Renascer  
Hoje, descobri que a vida, às vezes, nós dá uma segunda oportunidade. A Nazaré é um sítio muito pequeno para o mundo que eu já vi (entretanto, inventaram a internet). As conversas aborrecem-me: continuo sem conseguir distinguir um robalo de uma xaputa e reviram os olhos quando pergunto se apanharam salmão. «Não há disso no mar». Aliás, «Não há disso no mar vírgula uns palavrões que não deve dar para dizer aqui». Mas este mundo que me encerrou na introspecção fez-me encontrar no desenho o meu refúgio, a minha companhia. É pela fresca que faço as tiras da Criada Malcriada, com os olhos postos no mar, onde tudo começou, sonhando ainda às vezes em voltar a casa. Ou talvez eu já esteja em casa. Tenho noventa anos e sou feliz. 

5 Sonhos
1. Gostava de conseguir ver todos os episódios do Doctor Who numa semana ou menos, para poder falar disso com a minha amiga Joana. Não sei nada sobre a série e ultimamente têm ficado uns silêncios estranhos durante as nossas conversas.

2. Ter um programa infantil em directo na televisão, acabado de chegar da noite, com convidados especiais que são os amigos que conseguir convencer a ir para o estúdio depois de sair do Lux. A ideia é tentarmos que não percebam que estamos bêbedos. Quando acabar o bloco de desenhos animados, por exemplo, escondemos as litrosas e os cigarros atrás das costas e cantamos músicas divertidas. 

3. Gostava de ir à lua e de conhecer o Ringo Star, porque é um Beatle de que nunca se fala, e queria saber o que é que ele acha disso, se é tipo a mesma coisa que ser o marido da Oprah ou assim. Ah, gostava de fazer estas duas coisas no mesmo dia. 

4. Gostava de saber desenhar, para poder passar a dizer a quem chama toscos aos meus desenhos: «Tosca é a tua mãe. E uma ópera do Puccini mas nem deves saber o que isso é».

5. Gostava que houvesse paz no mundo e que todas as pessoas vivessem felizes. 


Duas actrizes e um fotógrafo no É A VIDA ALVIM de hoje

As actrizes são Joana Seixas e Joana Santos, protagonistas (com Sérgio Praia) da peça "No Campo" de Martin Crimp (com encenação de Pedro Mexia e em cena no Teatro Turim até dia 21 deste mês).

Com elas, teremos o fotógrafo e formador na área de fotografia Daniel Camacho.

É A VIDA ALVIM: de segunda a sexta, no canal +TVI entre as 22 e as 23. Repetição na TVI entre as 04.50 e as 06.00. Também disponível no serviço Iris Zon e na Restart TV da Meo. Emissões disponíveis online aqui