

Eu quero um teleponto na minha vida de forma a que nunca mais me engane e tudo o que eu diga seja perfeito. Cada palavra certinha, no momento exacto, com o sorriso devidamente estilizado. Quero gravar, não me apetece mais que a minha vida seja em directo, porque não tem sentido. Ao gravar a minha vida para só depois a viver com os outros, eu tenho a possibilidade de falhar as vezes que forem precisas, sem que ninguém veja o pior de mim. Gravando, eu sou só melhor. Gravando eu não falho e sou perfeito e sou o rapazinho que qualquer mãe gostaria de ter para genro. Ao vivo, em directo, essas mesmas mães recolhem as suas crias da janela enquanto vão dizendo “ Deus credo, não é homem para ti, filha!”. Eu quero palmas, a toda a hora, não importa o que eu diga ou faça, quero é sair de casa e sentir que já me vão aplaudindo como se eu fosse o Carlos Lopes, a poucos quilómetros de ganhar a maratona de los angeles. Não importa se esse público é pago para me aplaudir. Não é relevante que eu saiba se me aplaudem pela minha graça ou pelo meu talento ou porque pensam no agregado familiar que os espera em casa. O que me importa é que me aplaudam e é esse som que eu quero ouvir mesmo que tenha sido provocado por um qualquer animador que ordenou que o fizessem “ Olha aí galera!”. Eu quero estar sempre maquilhado e nem eu próprio me autorizo a ver como acordo. Não quero mais saber da minha pele, a minha pele é o blush que utilizo. Quanto me disserem “ Estás com bom bom ar!” responderei: “ É do blush! Foi um dia bom para ele!. Daí que queira tanto a gravação, os aplausos, o blush e a imitação de tudo o que já foi feito. Possivelmente e para minha grande felicidade, alguém no mundo já terá escrito algo exactamente igual ao que acabo de fazer. E ainda bem. Para quê ser original e autêntico, se é tão mais fácil não errar no teleponto.













