
Não é só a estrada que é incomodada com os domingueiros. A noite também. Existem domingueiros a saírem à noite e isso nota-se bem pela forma como se apresentam. Sair à noite não é para todos e algumas das pessoas que não estão habituadas a isso, fazem-se notar por uma constrangedora falta de experiência Na verdade, são as primeiras a encontrarem defeitos na música, no espaço onde estão e até das pessoas que as rodeiam. E aqui entre nós: o problema dessas pessoas, são justamente elas.
A noite implica tolerância. Aliás, tudo implica tolerância excepto os golos falhados do cardozo à frente da baliza. O problema de Portugal é muito esse: não ser tão tolerante como deveria ser. E está provado que as cidades mais criativas e as noites mais entusiásticas, são onde a tolerância for maior. Esperem lá, isto não quer dizer que se deva fechar os olhos ao que é medíocre ou que se revele mau, ser tolerante não é ser tolinho, mas sim dar tempo para experimentar o que se nos apresenta como novo.
E não havendo esta tolerância, tudo nos parece mais igual e poucos serão aqueles que ousarão arriscar. Veja-se o caso das playlists na rádio: as pessoas queixam-se muito que a rádio passa sempre a mesma coisa, que as músicas são sempre as mesmas, mas depois não castigam convenientemente quem o pratica . Isto é, há um disco novo de uma banda qualquer, a editora determina qual o tema a passar na rádio e posto isto, como cordeirinhos, todas as rádios passam aquele tema, como se não houvesse mais nenhum outro em todo o disco. Com a noite passa-se o mesmo. Por exemplo, vamos imaginar: Agora o que está a dar é latinadas e caipirinhas a 2 euros e tal qual uma editora que determina qual o único tema a passar, eis que por todo o lado, só se ouvem latinadas e se bebem caipirinhas a 2 euros. Acham isto bem? Eu não. E assim não vamos lá. E devíamos.
Portugal precisa de arriscar e a noite também. E quem o faz devia ser premiado por isso. Mas para que isso aconteça é necessário, todos arriscarmos. Não pode ser uma coisa isolada. Tem que ser uma iniciativa concertada para surtir efeito. Temos que ser todos. Tem que ser o país, a noite, as pessoas que estão a ler isto. Estão ou não a ouvir já uma música épica de fundo? Será Carmina burana? Será a banda sonora que entra sempre nos filmes com discursos inflamados? Pois que o seja e me acompanhe até ao fim que já falta pouco.
Portugal devia ser um país de risco: mas não ao lado, nem ao meio, nem à Paulo Bento. O que aqui defendo - e vejam como falo a sério nesta minha dissertação – é que deveríamos ser conhecidos como um país tolerante e o melhor de todos, para que alguém criativo e com vontade de fazer coisas novas, nos escolhesse a nós e não outros. E para quê? Para arriscar. Pois enquanto cedermos a todas as formatizações e globalizações várias, seremos mais um entre todos. E Portugal não é mais um. E se é, não deveria ser.