
Não é à toa que muitas pessoas dizem que determinado estabelecimento nocturno é a sua segunda casa. Em muitos casos, atendendo às horas que ali passam, eu acho que será a primeira. A tal ponto, que outro dia disse a uma amiga minha " Olha, como tu estás! Vai para tua casa! E dito isto, aquela mulher, meteu-se no carro e foi para o Twins.
Não sei se já existe – se calhar já – mas eu acho que as discotecas deviam ter quartos para todos os clientes que os solicitassem, e ao final da noite, quando pagássemos a conta, deviam perguntar-nos. " Vai querer tomar pequeno almoço no quarto?". Nos outros países já se percebeu isto, e a quantidade de hotéis que têm uma discoteca decente e para todos no seu interior é imensa. Em Portugal convencionou-se que as discotecas de hotéis são só para os clientes e uma ou outra amante. E o resultado, é no mínimo inquietante. As discotecas de hotéis fecharam-se tanto sobre si mesmas, que lhes aconteceram a elas o mesmo que aconteceu às pessoas que se isolaram de todas as outras: sem que notassem, tornaram-se antiquadas. E só por isso continuam a oferecer tremoços e amendoins a quem pede uma imperial, como se aquilo fosse uma casa de putas. Nunca percebi esta relação entre tremoços e prostituição, mas ela existe e não há nada que a possa disfarçar. Não quer dizer que quem peça imperial e tremoços seja um profissional do sexo – pode não ser – mas que tem tudo para uma carreira de sucesso, disso não tenhamos dúvidas.
Mas onde é que íamos? Exactamente, falávamos de uma outra actividade, de um outro relacionamento: o de alguém que trabalha na noite e a casa que representa ou já terá representado. Se ainda representa, é habitual que use com frequência " A minha casa" isto e aquilo. Se já representou, é certinho que irá dizer, ajeitando os colarinhos: "Eu fiz aquela casa!". Na noite, ninguém passa por uma casa bem sucedida sem a ter feito. Tijolo a tijolo, acartando cimento, debitando adjectivos pouco ortodoxos de cima do andaime. Quando saíram, imediatamente a seguir, aquilo caiu a pique. Não terá sido em consequência de um ciclo que sabemos ser frequente neste domínio, mas apenas e só, pela sua saída. E até é compreensível. De uma forma ou de outra, todos gostamos de fazer falta e imaginar que o mundo sem nós, seria uma desgraça. Já nem digo o mundo. Pode ser uma casa, que não resista à nossa saída. Pode ser uma mulher, que não resista à separação. Eu por exemplo, adorava encontrar-me com uma ex-namorada minha e perceber que esta chorava pelos cantos, arrastando-se como podia, desgraçada da vida, chorando cada vez mais e pedindo - melhor ainda! - implorando que eu regressasse para junto dela, pois caso contrário admitiria matar-se. Mas em vez disso, o que acontece invariavelmente, é encontrar-me com elas passado algum tempo e perceber que não só já arranjaram outro, como estão arreliantemente, melhores do que nunca.