Thursday, November 27, 2008

A maneira de ser português


Poucos países se poderão orgulhar de se terem descoberto e Portugal pode. Portugal descobriu-se sem precisar da ajuda de ninguém e desde muito cedo se percebeu que só poderia ser Portugal a descobrir Portugal. E foi. Portugal é uma daquelas situações em que ninguém arrisca mexer porque a única pessoa que o sabe fazer, é o senhor Joaquim que já trata da coisa há muito tempo e sabe o jeito a dar-lhe em caso de avaria. Portugal tem um jeito certo e só nos o sabemos, como se tivéssemos um código exacto para meter na ranhura. Daí que em caso de acidente, ainda mal o acidentado conseguiu sair do carro para se estender ao comprido no chão e já alguém vai dizendo “Ninguém mexe antes de chegar a ambulância!”. E é assim também connosco, porque quem olhar para Portugal percebe logo que é melhor não mexer: com medo de deslocar qualquer coisa ou fazer algo que não deveria. Daí que as únicas pessoas que podem mexer em Portugal são os Portugueses e aqui entre nós, ainda bem.

Mais do que um jeito, Portugal tem uma maneira de fazer as coisas e essa maneira é a portuguesa. Que é nossa e nenhum outro país tem igual. Daí que ao brindarmos seja costume dizer-se “À nossa!”e muitos não saibam bem porquê. À nossa o quê?- Perguntarão os menos avisados. “À nossa vida?”, “À nossa saúde?” “À nossa mulher?”. Mas é claro que não. Brindamos isso sim, “À nossa” maneira, como é óbvio. Querem ver que vou ter que arregaçar as mangas para explicar isto? Querem ver que sim? Pois vamos a isto. Portugal tem uma maneira de fazer as coisas e quando não é à nossa maneira é como se a comida lá de casa não tivesse sido feita pela mãe, percebem? De resto, que o outro país tem o cozido à portuguesa? Experimentem ir lá fora a um restaurante qualquer e à chegada do empregado de mesa, digam-lhe isto “ Please, I Want to eat cozido à Portuguesa? e é quase certo que balbuciam algo como “ What? I gave or pardon please!?” ou apenas “ Eh pá, isto aqui não tem cozido à portuguesa. O senhor é de onde? É que eu já trabalho aqui vai para uns 3 anos e isto não é à nossa maneira, entende?”



Então não haveríamos de entender, ora essa. Reparem bem, qual o aviso que nos terá sido repetido mais vezes pelos nossos pais antes de nos agarrarem com força no braço? Digam-me, vamos, foi ou não foi: “Tu tem maneiras!” ? Isso são maneiras de falares com as pessoas? isso são maneiras de te vestir? isso é maneira de estares sentado à mesa? e sobretudo, o clássico dos clássicos: Isso é maneira de comer?. E porquê? Porque somos educados a falar, a vestir, a sentar, a comer, à nossa maneira. Ou pensam que nos outros países também é assim? Os miúdos lá fora não ouvem nada disto e fazem basicamente o que querem porque não têm maneira alguma. Ainda outro dia num restaurante, estavam dois miúdos franceses muito franzinos a fazerem um remake muito fiel do que terá sido a Tomada da Bastilha em plena mesa de jantar e quem estava ao meu lado foi dizendo: “ Aqueles putos não têm maneiras nenhumas!” ao que lhe respondi com acervo: Pois não coitaditos, eles não são portugueses!

Daí que esta maneira de ser português seja nossa e ninguém como nós a saiba distinguir tão bem. Podemos estar num estádio cheio com 70.000 pessoas ou no meio de Las Vegas Boulevard, que nós, só com um dedo, sem precisar que falem, sabemos exactamente dizer quem é dos nossos, quem sabe ser à nossa maneira. E é curioso, porque o sabemos, precisamente pela maneira - a nossa - como apontamos o dedo uns aos outros.

Thursday, November 20, 2008

O meu programa és tu!


A esta altura, quando vos escrevo, são 5 da manhã nesta minha varanda e já poucas luzes sobram nas janelas. Apagou-se agora uma tal qual uma dessas estrelas que se esfumam no palco. Eu sei que as pessoas pensam que eu acho que está tudo a dormir, mas eu sei, eu sei que ninguém está a dormir, que está tudo atrás das persianas a vigiar o mundo, eu sei que estão todos aí a fingir que estão a dormir mas eu sei que não estão a dormir, estão acordados, a olhar o céu ou para a vida mas estão acordados, com medo que a sua própria respiração acorde esse alguém. Com medo de acordar esse outro “eu” que dorme há tanto.



O que me acordou a mim - se é que alguma vez dormi - foi uma porta de um frigorífico a abrir como se fosse de metal e lhe tivesse crescido ferrugem nas dobradiças. Vamos cá ver, primeiro senti uns pés descalços pelo corredor, depois percebi que alguém terá acendido a luz da cozinha porque lhe reconheço - a esta luz e não outra – a demora a acender como se tratasse da ignição de um carro pela manhã num frio dia de Inverno. Depois, depois ouvi uma espécie de abrir de porta em tudo parecido com aqueles filmes de terror do Pesadelo em Helm Street ou coisa assim, em que há sempre uma voz de uma criança a cantar uma música de embalar e, de repente, alguém salta da cadeira.



Eu sei que ninguém está a dormir por detrás desses cortinados brancos mesmo que todos me queiram fazer crer do contrário. Eu sei que a esta hora ninguém adormece à frente dos televisores. Pelo contrário, são os televisores que adormecem à nossa frente, aborrecidos com a nossa programação. As pessoas tornaram-se na televisão lá de casa e não deve ser por acaso que se faz abundantemente a pergunta “ Tens programa para hoje?” ao que invariavelmente respondemos com um frenético abanar de orelhas de um lado para o outro como se rejeitassemos comer a sopa ou, de outras vezes, fazendo oscilar o queixo verticalmente no sentido ascente e descendente. E as televisões saiem de casa vestidas de pessoas enquanto estas se embutem num qualquer armário da sala, rodeado de enciclopédias que nunca foram abertas.



E saídos à rua, as pessoas mostram a sua grelha de programas e todos tentam captar para si audiências, aprendendo depressa a cortar a ficha técnica do final dos filmes que não interessa. E assim, há um Moniz em cada um de nós que nos faz sentir como se estivessemos num qualquer posto de comando a gritar nos ouvidos do pivôt: “ Eh pá, isso não tem qualquer interesse, acaba o directo já !” E controlando o tempo, fumando as audiências, vamo-nos mantendo acordados mesmo a esta hora, atrás das cortinas, na esperança de sermos também um programa.

Fernando Alvim - 50 Anos de Carreira

Lançamento.5







Lançamento.4.