Thursday, October 02, 2008

Amarguinhas - A reedição






















Há um hábito muito português de tudo nos parecer qualquer coisa, de nos fazer lembrar algo de muito parecido ou então igualzinho a isto ou aquilo. Neste preciso instante, aposto que haverá alguém a dizer que esta introdução é igualzinha a uma outra que terá lido num disco dos anos 70 mas que não se lembra muito bem do nome.

Pois bem, as Amarguinhas eram o contrário. Não faziam lembrar ninguém e assim, como era impossível imitá-las ou dizer que já teriam visto algo de muito similar, as pessoas, cidadãos honestos como eu, encolhiam os ombros e perseguiam-nas para todo o lado, a tal ponto, que chegaram-me a ir buscar ao hall de entrada da residência de uma delas. Esperem lá, as Amarguinhas não eram só raparigas, havia rapazes também, o que provocava um igual rebuliço entre os sectores masculinos e femininos, não obrigatoriamente por esta ordem e não só, por uma questão estética. Eram talentosos caramba!

De maneiras que era isto, vivia-se assim e não era mau. As Amarguinhas cresciam a cada semana e só os mais palermitas não perceberam a tempo o que se estava a passar. O fenómeno Amarguinhas alastrava-se a todo o território e não havia rapariga alguma – pronto talvez houvesse uma ou outra - que não soubesse de cor o tema " Just Girls". Um hino poderoso à união feminina que dura ainda nos dias de hoje e que ainda faz com que muitas mulheres consigam a proeza assinalável de se esquecerem dos saldos no tempo de duração dos mesmos.

Daí que seja fácil concluir que mais tarde ou mais cedo isto iria acontecer e, aconteceu. O cd “Amarguinhas” tudo remasterizado e com uma remix novinha do tema”Just girls” e obviamente, temas míticos como "Marco" desafortunada criança que perdeu a mãe mesmo antes de ter nascido, "Estou além" que traz de volta António Variações com cores garridas, "Diabo à solta" tema demoníaco que faz lembrar aqueles rapazinhos que deitam fogo pela boca e ficam com um hálito que Deus me livre e muitos outros só de me lembrar me arrepiam as unhas dos pés, em particular, a do mindinho que é a mais sensível de todas.

Portugal aconteceu



Não há país no mundo onde tantas pessoas saibam com tamanha certeza o que vai acontecer a seguir. Aposto que neste momento, muitas pessoas que estão a ler este texto já adivinharam como é que ele irá acabar e só se assim se compreende que o abandonem logo aqui. Daí que não seja de estranhar que tantas pessoas abandonem a meio um filme ou uma peça de teatro ou um concerto ou - muito em particular - uma relação. Precisamente, porque já sabem o que vai acontecer a seguir. E normalmente, isso não será coisa boa.

Em Portugal adivinha-se muito quando as coisas correm mal, mas adivinhar - que presupõe acertar com vidente precisão o que vai acontecer - é um notável exercício, que aqui se pratica, precisamente, depois de ter acontecido. E é um fenómeno muitissimo curioso, sobretudo porque quem já sabe o que vai acontecer, muito raramente, faz alguma coisa para impedir que isso aconteça, porque com franqueza, na verdade, o que se queria dizer é que algo pode acontecer e não – com excepção dos pessimistas ferrenhos – vai acontecer mesmo. Até porque em Portugal não há nada que aconteceu mesmo. Há coisas que acontecem e pronto. Tal e qual como um jogo em que o Benfica ganha por um expressivo 4-0 e que não impede a mesmíssima formação, de uma semana depois, levar na pá com indelével firmeza no campo do vilacondense ou coisa assim. Num caso ou noutro, aconteceu e não há muito mais a fazer.


E assim crescemos a ver os nossos pais a dizerem-nos “ olha que tu vais cair, olha que tu vais-te aleijar!” e acontecendo essa inevitabilidade: - “ Eu não te disse! Eu sabia o que isto ia acontecer!, partindo um simples copo de mesa: “ Eu tinha-te dito, eu tinha-te dito!”, o carro assaltado à porta de casa “ Eu tinha avisado!”, as acções que caíram em flecha “ O que é que eu tinha dito? O que é que é que eu tinha dito?”, o clube marca “ eu tinha a certeza, tinha a certeza!- E em situação de acidente, o lendário e imortal “ Eu já sabia que isto ia acontecer! . E então se sabia, porque é que não fez nada para o impedir?

Porque mesmo sabendo antes, o português gosta de fazer depois para tentar impedir o que já foi feito. O português gosta primeiro de fazer e depois logo se vê. Primeiro, faz-se ( isso é que é o mais importante). E agora, agora com tudo pronto, agora sim, vamos lá ver se isto estará bem feito ou não. Daí que se construam primeiro os estádios e só depois se perceba a sua viabilidade, daí que se gastem milhões de promoção ao nosso país, onde? No nosso próprio país, claro está. Possivelmente para dizer ao turista: “ Não, não está enganado” mas sobretudo para lembrar aos portugueses que foi este o país que nos aconteceu. Mesmo. E não há nada a fazer.

Wednesday, October 01, 2008

Festival Termómetro 2008 - O cartaz da final


Estou só a cumprir ordens!



De cada vez que existe algum problema no nosso país e ninguém parece saber explicar, há sempre alguém que aparece a dizer: "Eu estou aqui a cumprir ordens, meu amigo!". E de cada vez que me o dizem, apetece-me logo perguntar: "Mas a cumprir ordens de quem?ah? A cumprir ordens de quem?". E dito isto, o que de mais cretino me podem dizer a seguir, é justamente: "A cumprir ordens dos meus superiores".



Há por isso uma série de superiores em Portugal que ninguém sabe quem são e, mesmo que se saiba, quase aposto que se lhes for feita a mesma pergunta, responderão: Eu estou aqui a cumprir ordens!" e se a estes lhes perguntarmos com natural inquietude: A cumprir ordens de quem? É invariável que a resposta seja "a cumprir ordens dos meus superiores!" E andamos nisto. Os superiores não acabam e parecem estranhamente um daqueles planetas que dizem existir mas que com verdade, não há provas cabais, de que existam mesmo. Os superiores são o infinito que é impossível localizar e perante esta impossibilidade, esta expressão, parece que iliba quem a pronuncia de qualquer incompetência ou atrasadisse mental que nos parece evidente. Quem faz uso da mesma, na verdade, não se quer chatear e é muito mais fácil usar a expressão do que justificar determinada atitude, com, imagine-se, uma série de razões que a fundamentem. Pensar dá uma trabalheira imensa e termos uma opinião fundamentada sobre aquilo que acabamos de dizer ainda mais, como naquelas discussões que sabemos de antemão, não se chegar a conclusão alguma. Ora se não vamos chegar a qualquer conclusão, se aquilo não vai sair dali, porque motivo vamos estar nós a apresentar uma resposta que possa despoletar ainda mais perguntas?




Daí que o "Eu estou aqui a cumprir ordens" cai como uma luva. É o "porque sim" que os nossos pais respondiam, quando lhes perguntávamos porque raio teríamos que comer a sopa toda? É o "só falo na presença do meu advogado". É o sempre enternecedor "Eu só faço o que me mandam fazer". Em Portugal, há demasiadas pessoas que não têm coragem de pensar por elas próprias e mesmo que o tentassem não o saberiam fazer, porque há muito se habituaram a não pensar. Porque não pensam. Porque com verdade, perde-se muito tempo a explicar o inexplicável. Porque não sabem. Porque é muito mais fácil fazer uma versão mil vezes repetida do que criar um original, seja uma música ou uma resposta. E assim há muitas pessoas que se transformaram numa banda de versões, que toda a vida cantam as canções dos outros sem nunca terem feito um esforço para fazerem uma realmente sua. Tal qual uma resposta.

Ainda bem que apareceste - Os Heróis