Thursday, March 13, 2008

Medo de ser maior



Existe um complexo de inferioridade em Portugal que se manifesta num medo de ser maior. O português sente-se confortável em ser mediano e só quer ser o maior para o livro do Guiness. No livro do Guiness, o Português não receia em ser grande e são muitas as iniciativas que dão conta dessa nobre intenção. Ora porque se trata do maior ajuntamento de Pais Natais do mundo ou porque há uma sandes de courato que dá a volta ao mercado da ribeira.




Se há um português que por azar revela publicamente 'Que quer ser o maior do mundo' essa intenção é invariavelmente seguida de um comentário jocoso tipo 'este gajo deve ter a mania!' E eu pergunto: 'Que mal tem em ter a mania de ser o maior do mundo?' repito: 'Que mal tem – e agora apetecia-me dizer aqui um palavrão – em ter a mania de ser o maior do mundo?' Eu não vejo mal nenhum nisso, pelo contrário, deveríamos ter todos esta mania, de não nos encolhermos tanto quando percebemos que é muita a concorrência, de não fugirmos tanto quando deparamos com o gigantismo do adversário, de não nos amedrontarmos tanto por ter muita gente à frente. Que mal tem – e como ficava aqui tão bem um palavrão – querermos ser os maiores? Devia até ser um hábito. Uma característica inata a todos nós, bastando para isso que não nos contentássemos com pouco.




E em vez disso, o que acontece? Damo-nos por contentes com um terceiro lugar que o que interessa foi ter participado. Que não ganhamos mas obtivemos a vitória moral. Que a nossa imagem ficou mais uma vez defendida sem que no entanto, tenhamos ido ao pódio. E não pode ser? Não, não pode. Se estamos empatados – e não estou a falar de futebol - não faz sentido defender o resultado. Temos que atacar – outra vez o palavrão - temos que asfixiar o adversário e só a vitória importa – mais um – temos que fazer entender aos outros que se estamos ali é para ganhar e ficar em primeiro. O segundo lugar já é bom? Não, não é. O terceiro é bom? Não, é pior ainda.


E então, qual é a solução para isto? É muito fácil, o português não pode nunca olhar para trás antes de cortar a meta. E assim, enquanto o intrépido animador diz 'Palminhas, palminhas, palminhas, é para a SIC, é para a SIC, é para SIC' na recta do Mindelo, o melhor é fazer pela vida, dar corda aos pedais e esticar o pescoço para o photo finish.




O resto, não interessa. O adversário temos que ser nós, não podemos estar à espera da desinspiração dos outros, dos falhanços dos outros – neste momento ouve-se já o som dos violinos em crescendo e Rock Balboa sobe a trote a longa escadaria – Portugal tem contar apenas consigo e nunca olhar para trás – 'Palminhas, palminhas!' – se estamos atrás temos que estar na frente, se a bola vem no alto não podemos estar à espera que a mesma não seja interceptada antes – o som de Eye of the Tiger que se faça ouvir – que nós sejamos o antes e nunca o depois, que o país aposte tudo na antecipação em vez de: Olha que sorte, a bola veio ter comigo! Que sejamos sempre o antes, o antes ouviram bem? Que nunca olhemos para trás quando estamos em terceiro lugar porque de certeza que os adversários não terão desistido para ir comer uma tosta mista, que sejamos o antes – repito – que nunca por nunca olhemos para trás antes de cortar a meta, antes de marcar golo, antes de perdermos a aposta, o desafio, o que quer que seja. Que nunca olhemos para trás vos digo – e agora ficava tão bem aqui um palavrão.

Tuesday, March 11, 2008

























O amor é tal e qual uma pessoa que chega muito tarde a casa. Primeiro, pressente-se-lhe os passos a subir as escadas, depois o destro espernear na fechadura e sem que ninguém acorde, eis que se junta a nós com os seus pés frios, no corpo quente que o aguarda.

Thursday, March 06, 2008

Os Melhores



Os melhores cantores são os bêbados, os melhores cabeleireiros são os larilas, os melhores taxistas são os que dizem “No tempo do Salazar é que era bom”, o melhor cigarro é o primeiro do dia, o melhor carteiro toca sempre duas vezes e uma delas é na nossa mulher, o melhor leitão é o da Mealhada, a melhor Miss foi a Helena Laureano mas já foi há muito tempo. Os melhores filhos são os nossos, os melhores pilotos são aqueles que já caíram uma vez ou outra mas sem importância, os melhores filmes nunca ganham os óscares, a melhor festa é sempre aquela a que não vamos, as melhores evasões são as fiscais. Os melhores árbitros são aqueles que conseguem roubar mesmo à frente do nosso nariz, as mulheres mais bonitas são sempre as dos outros, as melhores mercearias são as mais careiras, os alunos de maior talento são os que não estudam nadinha, os melhores políticos são os que se fazem aprovar tal qual uma lei.

Os melhores artistas são os que vivem na penúria, os maiores génios são os que obtiveram reconhecimento depois de morrer, a melhor notícia é a de abertura, o melhor do mundo foi o Pele. Os melhores momentos são aqueles que não estávamos mesmo a contar, o melhor do dia foi isto agorinha mesmo, o melhor orgasmo “desculpem mas não posso dizer!” a melhor caneta é aquela que não escreve no exacto instante em que precisávamos dela, o melhor lápis é aquele que desaparece no momento em que alguém do outro lado da linha nos diz “Quer apontar o número?” e nós do outro lado” Quero pois, estou só aqui à procura de um lápis que deve estar por aqui, é só um bocadinho se não se importa, porra para a porcaria do lápis que não aparece, oh querida viste o lápis? A melhor comida é a lá de casa, o melhor calor é o do Inverno, a melhor namorada foi a primeira, o melhor jogo foi aquele 6 a 3, a melhor fundação é a que faz lavagem de dinheiro, o melhor ladrão é o que rouba aos ricos para dar aos pobrezinhos, o melhor pudim- e agora cantemos todos juntos - "É pudim Danone! Não pares!Não pares!É pudim Danone!" - o melhor nariz é do Júlio Isidro, a melhor caldeirada é a que estamos metidos, o melhor número suplementar é o do totoloto, o melhor domingo é aquele em que passamos a ver filmes deprimentes deitados no sofá, o melhor tempo é o tempo da outra senhora, o melhor de tudo é termos saúde, a melhor série foi o verão azul, a melhor jornalista é a Clara de Sousa quando vem com uma saia curtinha, a melhor linha foi “Bingo!”.


A melhor mãe é a nossa, a melhor frase é aquela que nunca te disse, o melhor orvalho é o da manhã pela fresquinha, as melhores previsões meteorológicas eram as do Anthímio de Azevedo. Os melhores doces eram os da avó, a melhor canja é a de galinha, o melhor vizinho é aquele que só chama a polícia por volta das 2 da manhã, as melhores multas são as que são amnistiadas com a vinda do Papa, a melhor revolução foi o 25 de Abril, os melhores desenhos – com excepção da animação com bonecos de plasticina da Bulgária – eram os do Vasco Granja, a melhor aposta era a “ai que me esqueci de preencher o boletim!”, o melhor médico era o de família, as melhores compromissos são os inadiáveis, o melhor número será sempre o 115. O melhor partido é “aquela rapariga que é de boas famílias, filho!”, o melhor sindicalista foi o Torres Couto quando tinha bigode. A melhor noiva é aquela que chega mais de meia hora atrasada, o melhor aumento já foi há muito tempo, os melhores recibos são os verdes, o melhor da minha rua, sou eu.

Monday, March 03, 2008

Saudades do Verão















A melhor entrevistadora da imprensa portuguesa chama-se Helena Teixeira da Silva. E digo isto porque se percebe que Helena faz boas perguntas mesmo a pedir boas respostas. E basta ler cada uma das entrevistas para o perceber. Esta semana, o convidado da última página de Domingo do Jornal de Noticias, é o meu bom amigo Bruno Nogueira (http://jnverao.blogs.sapo.pt/21913.html). No Verão passado, enquanto estava de férias na maravilhosa Quinta de Sto António (http://www.quintasantoantonio.pt/) em Tabuaço, muito perto da Régua, fui eu. É essa entrevista que eu recupero aqui. Talvez, por me ter lembrado que estou com saudades do verão. E não são poucas.


Helena Teixeira da Silva
Está de férias na Régua. Ao telefone diz preferir responder por mail, mas não tem a certeza se, em pleno Douro, conseguirá aceder à internet. Conseguiu. Fernando Alvim, 33 anos, mais de dez anos de currículo radiofónico e televisivo, continua a ser considerado um dos mais promissores comunicadores.

Tony Blair foi capa da última Men's Vogue; Caetano Veloso da última Rolling Stone. O primeiro foi melhorado pelo Photoshop para parecer um homem saudável; o segundo surge com rímel e outros adornos femininos, vá lá saber-se porquê. Qual inveja mais?
O Caetano Veloso, porque está a atravessar a fase “ Ney Matogrosso” e toda a ajuda é pouca. Para além disso, penso que não haverá dúvidas em relação à diferença de notoriedade das duas publicações, a men’s vogue é uma espécie de “ Ana + atrevida” a Rolling Stone é para homens com barba rija. Sem rímel, portanto.

Supostamente, Freud nunca conseguiu responder à pergunta: "O que quer uma mulher?". E você?
Não consegui e suspeito que quem o conseguir se torne rapidamente milionário por tamanha descoberta. As mulheres conseguem estar ao telefone e escrever uma carta no computador ao mesmo tempo, aposto que neste momento estará uma mulher a ler este inquérito e a jogar vólei no mesmo instante. E isto é estranho. Muito estranho mesmo.

De acordo com um inquérito da match.com, sete em cada dez solteiros vão de férias convencidos de que encontrarão o par ideal. É com esse espírito que parte de férias?
Não, na verdade, faço exactamente o contrário, só procuro a mulher ideal durante os meses em que trabalho, porque nas férias procuro uma mulher que não seja ideal. Gosto de me meter com uma boa galdéria com nomes tipo Josefina, Ivanka e Jurema. Tão bom, tão bom.

No livro "No dia em que fugimos tu não estava em casa" revela-se um pinga-amor. É um romântico?
É bem verdade, sou o Vítor Espadinha dos tempos modernos, só que não trago nos olhos a luz de Maio nem nas mãos o calor de Agosto embora reconheça que sou um 30 de Fevereiro de um ano por inventar.

Também é um daqueles homens que não entende por que razão as mulheres gostam do Dr. House?
Porque pensaram inicialmente que o “Doutor Casa” falava de casamentos e da forma como poderiam planear a cerimónia. As mulheres adoram estas coisas, ver os vestidos de noiva, o tapete vermelho para a entrada, confétis, comprar alsa drink, enfim. Pensavam que era isto e quando perceberam que não era, já era tarde demais, o “Doutor Casa” não casando ninguém tinha até já desfeito alguns casamentos e sem que notassem, tinha-se tornado um vício.

Aos 24 anos foi viver e trabalhar para Lisboa. Foi a sua sorte?
Não, foi precisamente ter vivido no Porto até aos 24.


A maior parte dos colegas que no início dos anos 90 esteve consigo na Rádio Press são hoje jornalistas. Lamenta por eles ou por si?
Logicamente, lamento por eles e por todos os meios de comunicação que os acolheram. Juro, que fiz tudo para impedir que tal acontecesse.

Não faz nada sem meter uma piada pelo meio. E se deixarem de lhe achar graça?
Como assim? Eu pensava que isso já tinha acontecido. Querem ver que não.

A popularidade é um vício?
Não, é uma consequência do teu trabalho e da tua exposição. Podes ser popular por boas ou más razões, agora que me lembro, há em Portugal um partido popular sem razão nenhuma.

O "Boa Noite Alvim [Sic Radical] é a uma tentativa de fazer um programa mais sério?
Não mais sério, mas sim mais adulto o que não é a mesma coisa. Não apresento programas em busca de alguma suposta seriedade, pelo contrário, gosto de ficar a dever dinheiro no talho lá da rua e roubar maçãs a merceeiros distraídos. Gosto de ser visto como um bom malandro.

Nesse programa, a actriz brasileira Bruna Lombardi disse que "fala demasiado para seres misterioso". Considerando que as mulheres gostam de homens misteriosos, vai corrigir a trajectória?
Não sou misterioso, não tenho segredos, falo demasiado, mas uma vez uma prima afastada disse-me isto “ óoo cara linda , óoo cara linda!” enquanto me dava estalos na cara a um ritmo de 50 por minuto. Querem melhor coisa do que isto?

Esteve seis anos à frente do Curto-Circuito [Sic Radical]. Se tivesse que traçar o perfil dos adolescentes de hoje, com base nesse programa, diria que é uma geração rasca?
Não é uma geração rasca, nem à rasca, nem de desenrasca. É uma geração que ainda não teve o tempo suficiente para mostrar o que vale mas vai fazê-lo o quanto antes. Os miúdos são agora mais inteligentes porque crescem mais cedo, porque passam pela pré-primária e chegam à primeira classe a saber contar e até a ler. Vi outro dia uma criança de 4 anos a falar e ler correctamente inglês e fiquei impressionadíssimo. Só mais tarde, percebi que se chamava martha stewart e era inglesa.

Em "O Perfeito Anormal" [Sic Radical] descobriu Ricardo Araújo Pereira e José Diogo Quintela. Sente-se uma espécie de Júlio Isidro?
Sim mas não só. Sinto-me uma espécie de Júlio Isidro mas também um pouco de Luís Pereira de Sousa, de Demis Roussos, de Totó Cotugno, de Vítor Espadinha, de Eládio Clímaco, de Júlio César, de Anthimio de Azevedo. A este propósito, aproveito para dizer que amanhã o céu estará pouco nublado ou limpo com rajadas de 100km/hora a norte do cabo da roca.

E no Festival Termómetro Unplugged descobriu os Ornatos Violeta e os Silence 4. Reclama gratidão ou vive bem sem ela?
Reclamo gratidão e eles telefonam-me várias vezes por dia a dizer obrigado. É assim há muitos anos e por vezes já quase nem falamos, o telefona toca, eu atendo, digo: Estou! E do outro lado ouço apenas: Obrigado!

Voltando à televisão, é para Nuno Markl [com quem dividiu "O perfeito anormal"] o que Jardim Gonçalves era para Paulo Teixeira Pinto?
Talvez, mas com menos dinheiro, menos idade e o melhor de tudo, sem o Joe Berardo pelo meio.

Consegue realmente apreciar o programa do Rui Unas na Sic Radical?
Não vejo televisão desde o tempo em que o Mário Crespo era correspondente da RTP em Nova Iorque e a Vera Roquete apresentava o “Agora escolha”. Estamos conversados?

Qual é a motivação para continuar a editar a revista 365, que só tem cinco mil exemplares e o faz perder dinheiro?
A certeza de que um dia serei condecorado pelo presidente da república e a esperança de um dia entrevistar Manuela Eanes, que para mim, fez por um produto o que muitas mães não fazem por um filho. O produto é: A Laca.

Nessa revista, entrevista ícones datados como a menina que fazia a publicidade do "comboio que vai com o Pai Natal ao circo". Como foi essa experiência?
Foi óptima e valeu também pela sessão fotográfica. Fui para a estação de Sta Apolónia vestido de coelhinho e foi com esta indumentária que tratei de convencer o chefe da estação a fazer uma sessão fotográfica numa das carruagens do comboio, juntamente com o Pai Natal e a miúda que agora tem a minha idade. Eu acho que eles estavam convencidos que íamos fazer um filme porno dentro da carruagem e não fácil convencê-los. As imagens em breve poderão ser vistas no sexyhot. Ou talvez não.

Além da rádio e da televisão, é DJ. Não acha estranho que lhe paguem no país inteiro para passar a música do dartacão e outras pérolas semelhantes?
Acho, acho mesmo muito estranho mas existem pessoas para tudo, até mesmo para me ouvirem a passar música. Eu bem lhes digo no inicio das minhas actuações para não perderem tempo, para se recolherem aos lares mas não adianta muito. As pessoas querem ouvir o dartacão, o tom sawyer, a abelha maia e o loveboat. Sinto-me impotente, felizmente, só nesta situação.


"Eu tenho uma ideia" é talvez a frase que mais vezes o ouvimos repetir. Tens mesmo facilidade em vender tudo o que te passa pela cabeça?
É verdade que “eu tenho ideia” é uma das minhas frases mais repetidas. Na infância era “ Ainda falta muito” que eu repetia exaustivamente nas viagens longas e já na adolescência “ Pai empresta-me dinheiro!” figurava na primeira posição. De resto, ter uma ideia não significa que a iremos vender. Com verdade, não tenho jeitinho nenhum para o negócio.

É verdade que tem vocação para ser roubado?
Não, o que me parece é que há muito gente com vocação para me roubar.