Thursday, January 31, 2008

Até Quando?



Foi de um dia para o outro, não sei precisar bem quando, mas de repente Portugal tornou-se num país incómodo . Não para os outros países – como seria desejável - mas curiosamente para ele próprio. Portugal vestiu uma daquelas camisolas de lã ásperas, que em contacto com a pele, nos fazem levar a mão à gola vezes sem conta, como se tivéssemos deixado cair migalhas na cama. Portugal deixou de dormir bem, acorda ao mínimo barulho, duvida de tudo e de todos e , ironia das ironias, dúvida dele próprio. Houvesse um psicanalista para países e o nosso território estaria esparramado no divã a salivar da boca.

Portugal tornou-se num patrão mau que vê nos funcionários dos outros o exemplo a seguir. “Os outros é que são bons!”- nós não prestamos para nada, como aquelas mães que insistem em dizer “ Eu nunca vi um filho como este!” não percebendo que nunca tiveram outros e possivelmente nunca terão. Portugal arrisca-se a perder o que melhor tem, precisamente o seu “eu” que edificou a Portugalidade que até então, nos diferenciava.

Portugal é agora um pai severo que em caso de dúvida, não havendo quem se acuse, castiga todos por igual e tira-nos a playstation, inibe-nos de sair de casa todo o fim-de-semana quando queríamos ir jogar à bola, deixa-nos na sala de aula sem direito a recreio. Portugal, que era uma avó boa que nos dava rebuçados flocos de neve transformou-se no padrasto severo que só sabe dizer “ Tu tens que estudar! Tu tens que ter um curso!”

Para todos os efeitos, os Portugueses que – já viram o aborrecimento! – são os habitantes de Portugal, são olhados pelo estado como uma criança mal comportada para a qual é necessária, essa coisa bem bonita que em tempos foi usada pelos regimes bolcheviques. A reeducação. Isto é, teremos que começar tudo de novo, do zero, esquecer tudo o que aprendemos e de preferência, o que somos, para nos transformarmos numa outra coisa que, deus queira, seja muito distante dessa enfermidade que sofremos ao ser portugueses.

E ainda assim, muitos são aqueles que reagem como a mulher que leva porrada do marido e regressa a casa, ainda de lágrimas nos olhos, dizendo à vizinha do lado “ Ele até tem razão, eu sei que é para o meu bem!” quando sabe também, que daqui a pouco, mais pela noitinha, ouvirá o silvar do cinto a desprender-se das calças enquanto se questiona “ Até quando?”

Talvez por isso, Portugal arrisca-se a ficar em casa sozinho, a ser abandonado pela mulher que até então lhe era fiel, por perceber que este já não lhe merece o mínimo respeito, por amargamente concluir que este já não lhe bate porque gosta dela. Portugal bate em nós, porque não gosta de nós caramba, porque os outros é que são bonitos, porque os outros é que fazem bem – tão bom que era se fossemos todos finlandeses, todos loirinhos com narizes asseados, tão bom que fossemos outros e não nós, que ainda somos Portugueses.

E um dia virá, que Portugal precisará – imaginem só – de nós. E tal qual o filho que vê que nunca teve culpa de ter aquele pai, Portugal perceberá que foi abandonado pelos Portugueses, percebendo agora que os finlandeses, não estarão ao lado da cama para lhe segurar a mão.

Monday, January 28, 2008

Pedro Cardoso até 10 de Fevereiro no Teatro Mundial

Chama-se “O Autofalante” e está em exibição pela segunda vez no nosso país desde o passado dia 17 de Fevereiro. A peça é um monólogo esquizofrénico onde toda a ira e revolta se apoderam de um corpo estranho, aqui, de Pedro Cardoso.

Se perguntarem se é uma peça de humor, direi que sim. É. Mas se me perguntarem se não poderá ser uma peça melodramática, responderei o mesmo, abanando a cabeça e as orelhas para cima e para baixo. São as duas coisas sim, mas o humor é tão bom, que quase – eu disse quase – disfarça por completo algum do teor dramático que lhe está associado.

Pedro Cardoso é para muitos um dos melhores humoristas do Brasil mas para mim – digo-o sem cerimónia – é o melhor. Por isso, se querem ver o melhor comediante do Brasil em cena, saibam que ele só estará cá até 10 de Fevereiro. (www.mandrake.pt; 21 357 40 89)


Nota: Já hoje fui ao último dia do II Encontro Internacional de Narração Oral no Teatro Municipal de Almada e devo ter visto o Pedro Cardoso dos Espanhóis. Chama-se Oswaldo Felipe e, ao muito me engano, estive perante o melhor contador de histórias do mundo. Ou muito perto disso, pronto.

Friday, January 25, 2008

PASTELARIA de Mário Cesariny de Vasconcelos


Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Thursday, January 24, 2008

Recusamos ou sorrimos para a foto?





Sempre pensei que para se convidar alguém para escrever um prefácio era necessário sermos amigos. Do mesmo modo, que quando se escolhe o padrinho do nosso casamento – à partida – deve ser o nosso melhor amigo ou alguém cujo grau de parentesco quase nos obrigue a isso, tipo: pai, irmão, tio, avô, enfim, o que agora se lembrarem.

Com o tempo percebi que não, que muitas pessoas recebem um convite para irem a um casamento de um casal que possivelmente não vêem há mais de dez anos - e não se pode recusar porque fica mal – que cada vez mais recebemos sms de pessoas que escrevem algo como “envio esta mensagem apenas e só para os melhores amigos e tu fazes parte desta pequeníssima lista” e invariavelmente, ao vermos o nome de quem assina, percebemos que não conhecemos a pessoa de lugar algum, apetecendo enviar uma mensagem de resposta onde poderíamos dizer: “Numa lista tão pequena como a que revelas ter, também tens amigos que conheças?”

A verdade é esta, por vezes fazemos convites porque tem que ser e outros porque é importante que seja. Voltando ao exemplo do casamento - que dá muito jeito aqui - não é difícil perceberem como são diferentes estas duas formas. Reparem no exemplo “porque tem que ser”: “Vamos ao não convidar para o nosso casamento, a prima Vitória que era visita regular lá de casa quando éramos miúdos? Ah pois, e agora?” – em muitos casos, a resposta é afirmativa porque só se casa uma vez – seguramente com aquela pessoa – e sempre é mais uma para se juntar à festa. Depois, um exemplo “Porque é importante que seja”: Deve ou não convidar-se o comendador Melo, que embora não seja amigo da família é das pessoas mais importantes da cidade? Melhor: Convida-se ou não António Nunes, presidente da ASAE, quando sabemos ter um restaurante da família cujo sistema de ventilação pode não ser o mais adequado para a nova lei? Em ambos os casos, a probabilidade de dizermos “sim” é muito grande porque se revela importantíssimo assegurarmos desde logo o nosso futuro e alargarmos o nosso poder de influência ou – talvez mais isto – juntar-nos a quem o sabemos ter.

Em Portugal, ainda há muito gente a convidar para padrinho de casamento o patrão da empresa, como se isso fosse a garantia de uma promoção para breve ou inibidor de um despedimento sumário. E sabem que mais? Pode ser mesmo. Em Portugal ainda há muita gente a convidar para o seu casamento o tio rico que veio da América para viver a sua reforma dourada e não sabe o que há-de fazer ao dinheiro, como se fosse com eles que o quisesse gastar. E sabem que mais? Pode realmente fazê-lo. Em Portugal, ainda há muita gente que gosta de aparecer ao lado do senhor tal que é muito importante e dá uma imagem de um poderoso relacionamento que poderá lhes ser útil para o negócio que há muito esperavam celebrar. E sabem que mais? Pode resultar, pode haver celebração sim. Em Portugal, ainda há muito gente a convidar outros para o que quer que seja, apenas porque são conhecidos ou famosos ou com um último nome sonante que lhes garante a visibilidade que necessitavam para aquele evento, para aquela acção, para aquele produto. Em Portugal, ainda há muita gente a convidar outras a escreverem um prefácio para um livro sem nunca as terem conhecido – uma palavra sequer – sem perceberem se escrevem bem ou não que isso de nada importa porque o importante mesmo é serem conhecidos e apetecíveis para os fotógrafos que já se aproximam.

E se não me apetecer sorrir? E se não quiser ficar bem na foto? E se não quisermos escrever um prefácio para uma pessoa que sabemos não nos conhecer? A pergunta impõe-se: Recusamos ou sorrimos para a foto?

Sunday, January 20, 2008

O Novo livro do Revez!




Quando António Revez me fez o convite para escrever um prefácio para o seu novo livro, estaria longe de perceber que ao aceitá-lo o iria escrever em plena cama do hospital São José em Lisboa aquando de uma segunda operação, a que aqui o rapaz teve que ser submetido depois de um desafortunado acidente de mota.
No momento em que o escrevi lembro-me de que estava com um pijama que me havia sido dado pelo hospital - lindo de morrer! - e uns confortáveis chinelos de papel. Sem ler o livro, ainda sob o efeito da anestesia, foi uma sorte o ter conseguido.
Eis o prefácio:

De cada vez que vejo um livro cheio de palavras – como este que irão ler a seguir – fico muito feliz. Digo: "olha um livro!" e, posto isto, arremesso-me da primeira janela que tiver pela frente.
Quando vi este livro do António Revez estava felizmente num segundo andar, e é por isso que já com a clavícula fracturada e com duas ou três escoriações faciais sem importância, que escrevo este prefácio.


E para que serve? Para que serve um prefácio? Pergunto.


A ideia que muitos têm sobre um prefácio é que é algo que serve como uma espécie de recomendação gastronómica, tipo: "Tens que ir ao restaurante Casa do Adro que é muito bom", ou algo como, "Acho que devias ir ao Dr. Giestas. O Dr. Giestas é o melhor cirurgião do país".
Nota: É ou não é verdade, que só existem duas coisas em que as pessoas estabeleceram usar o epíteto "melhor" sempre que a elas se referem? Falamos de médicos: "É o melhor disto, é o melhor daquilo, “es lo mejor cariño", ou então quando nos referimos aos restaurantes da Mealhada:"O Pedro é o melhor!", "Não senhor, o Virgílio é que é!","Vocês endoideceram, a Meta, a Meta é que é o melhor!".


Onde íamos? Adiante. Falávamos sobre prefácios e o pior dos erros que podemos cometer ao fazer um, é precisamente ler o livro para o qual estamos a escrever. Quer isto dizer que eu não li uma única linha do que aí vem a seguir, e sabem que mais, não preciso. É nestas alturas que temos de nos lembrar de uma boa frase que uma qualquer celebridade tenha dito a propósito do que quer que seja numa revista do social.


Por exemplo, o Luís Represas gosta muito de dizer que os seus discos são discos de afectos, o que, com verdade, dápara tudo ("o meu restaurante é um restaurante de afectos";"o meu programa é um programa de afectos"; "o meu clube é um clube de afectos") pelo que não é difíciladivinharem que assenta como uma luva dizer já a seguir "O livro do Revez é um livro de afectos" e adeuzinho, vou indo que já se faz tarde.

Mas não, Revez merece mais um parágrafo, ou dois, ou três, os que forem precisos, mais que não seja para vos contar a forma como o conheci (se não quiserem saber desta história, podem muito bem ir comer qualquer coisa ao frigorífico ou beber algo fresco e voltarem mais daqui a pouco, que entretanto já terei isto concluído). Dizia.


Lembro-me bem da primeira vez que estive com ele, foi numa esplanada de Beja – a sua terra – e pressentindo conhecê-lo, com um brilho esfusiante no olhar, disse-lhe num fôlego: "Podia trazer-me um ice-T e uma salada mista aqui para esta mesa?". Foi aí que Revez me explicou que não, que não trabalhava ali mas que se eu quisesse, podia muito bem levantar-me e ir ao balcão fazer o pedido. E desde aí brincamos com isto. Chego a telefonar-lhe e a dizer "Sai uma tosta mista", e o sacana manda-me logo um SMS a ordenar, "Duas imperiais aqui para a mesa do fundo". De maneiras que foi isto que aconteceu e um destes dias, na brincadeira – lembro-me que já era tarde e estava para o frescote – enviei-lhe um SMS a dizer, "Sai um prego no prato ó faxavór", ao que o malandro me responde, "Sai um prefácio aqui para o Revez!". E pronto, aqui está ele. E agora que está feito, agora sim, vou começar a ler este livro.