Sunday, January 06, 2008
Morreu Luiz Pacheco e não deveria

Morreu Luiz Pacheco e não deveria. Pacheco deveria ter durado mais uns bons anos, deveria ter vivido até aos 100, até aos 200 se fosse possível. Mas não é pelos vistos, e assim lá vai Pacheco, o grande Luiz Pacheco que a par de Mário Cesariny foi desde cedo uma das minhas maiores referências.
Tal como Cesariny, conheci Luiz Pacheco há pouco mais de 4 anos. Como sempre, em busca de um texto original para a Revista 365 decidi que o haveria de encontrar nessa mesma tarde e encontrei-o mesmo, num lar no Príncipe Real onde vivia. Lembro-me de este me ter dito que estava muito cansado para escrever "Já não sai nada, secou a fonte!" mas mesmo assim autorizou uma pré-publicação de um texto seu que iria sair pouco tempo depois no livro "Raio de Luar".
Juntamente com Cesariny – que publicou um inédito na 365 – ter um texto do Pacheco na publicação de que vos falo é algo que ainda hoje me deixa com o chamado "incontido orgulho".
De resto todos falam da "Comunidade" como a sua melhor obra mas para mim não tenho dúvidas que "O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor" é o seu melhor livro.
Mas isso agora não interessa, o que importa mesmo é perceber quem é que morreu. E hoje morreu um dos maiores de sempre. Luiz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco.
Friday, January 04, 2008
Dakar. Uma notícia como se fosse uma bomba.

Compreendo os motivos que terão levado a organização do Rali Lisboa Dakar a cancelar a prova, mas parece-me que este é um rude golpe para todo o mundo ocidental. É um primeiro sinal de que estamos com medo e é bom que nos lembremos do que nos acontecia e acontece ainda, quando o admitimos: invariavelmente, levamos na cara.
Hoje foi um dia bom e vitorioso para todos os que gostam e usam da intimidação, do terrorismo e da chantagem. Um dia mau, para todos os que sabem que é um péssimo principio mostrar medo.
Eu tenho medo. Todos temos medo. Mas em caso algum, se fosse da organização, o assumiria desta forma e lhes daria esta estrondosa e ensurdecedora vitória. O medo deve enfrentar-se , em caso algum, deveremos pensar com as pernas.
No titânico duelo entre a coragem e o medo, o medo ganhou. E não deveria.
E depois disto, o que se seguirá: Os Jogos Olímpicos? A final do campeonato do Mundo de Futebol? Será que o Estoril Open poderá ser também cancelado?
Hoje foi um dia demasiado mau para o mundo. E a partir de hoje, temo bem que as coisas possam ficar muito piores.
Thursday, January 03, 2008
O Elogio Fúnebre

Se há coisas de que as pessoas gostam – e eu gosto – é de elogios. Que és o maior! – Pois sou – Que és lindo! – Confirma – Que és muito simpático! – De facto! – Que não há ninguém igual a ti! – Evidentemente que não! Daí que ultimamente tenha percebido que os elogios, de preferência à frente de uma multidão de pessoas, são a forma mais fácil de conseguir uma calorosa salva de palmas por parte do público ou simplesmente de quem está presente.
Elogiar é óptimo, porque faz de nós seres humanos bons e sensíveis que sabem reconhecer a tempo o valor de alguém, e ser elogiado também, porque no fundo nos presta o reconhecimento que andávamos a perseguir há tanto tempo. Contudo, se queremos mesmo elogiar como deve ser, é bom que se perceba que a colocação de voz e a repetição de uma mesma palavra mais de 5 a 6 vezes se revela imperativo. Querem um exemplo? Pois aqui vai: O Senhor Meireles foi um excelente profissional. O senhor Meireles nunca falhou um compromisso. O senhor Meireles é o filho que eu sempre quis ter! Viva O Meireles! Iavé Meireles! – Já perceberam, não é? Ora, se a isto juntarmos uma voz cada vez mais grave, mais sentida, como se fosse crescendo e ficando de olhos grandes – a voz – as duas mãos agora levantadas, o público a crescer nas cadeiras, a voz a falhar que a emoção é muita e é certinho que acabamos todos a bater palmas de pé e a gritar Meireles. Viva o senhor Meireles! Viva!
E se é certo que este tipo de elogio e discurso é vocacionado para grandes multidões – em televisão não se faz outra coisa ultimamente - outros há que se caracterizam pelo laço afectivo que a pessoa que elogia tem para com o elogiado, mas que invariavelmente começa com uma quase espécie de pedido de desculpas que a meu ver lhe retira desde logo alguma intensidade: "Não é por ser meu filho, mas é de uma inteligência como eu nunca vi! Sou sincera, não foi por serem meus pais, mas Deus nosso senhor não me podia ter dado melhor sorte! Ou então algo como: Como sabe não tenho necessidade de mentir, mas devo dizer-lhe que eu nunca vi um bebé tão bonito como o filho da minha Catarina, é que não há coisa mais linda". E vendo bem, se calhar foi ser por ser filho, por serem os seus pais, por ser o seu neto e não o de nenhum outro que o disse e isso não é vergonha nenhuma assumir. Pelo contrário, o orgulho que temos por alguém pode e deve ser demonstrado, de preferência sem o uso da expressão "Não é por ser meu qualquer coisa seguida do elogio". Digam-me lá se não vos soa melhor assim: O meu filho é muito inteligente! Os meus pais são os maiores! O meu neto é isto e aquilo! Pois é claro que soa e esse senhor que eu estou a ver daqui a abanar a cabeça no autocarro, se pensar bem vai concordar comigo daqui a alguns dias, a ver se não vai!
E assim, entre elogios de conveniência muito usados na infância quando queremos pedir alguma coisa: Mãezinha, gosto muito de ti sabias? E gostava também muito que me desses aquele carrito que está na montra. Pelo meio, dos elogios da praxe: Foi uma boa praxe! A praxe está com saúde! Existe o elogio fúnebre que só de pensar me arrebita as unhas dos pés e que com frequência é usado por toda a espécie de patronato: Meireles, você é um excelente funcionário, sei que tem dado tudo por esta empresa – Meireles já se contorce na cadeira – Meireles você é um ser humano extraordinário, nunca duvide disto – a transpiração a correr-lhe pela testa – mas Meireles vou quer que o dispensar porque a conjuntura actual não me permite que o mantenha nesta empresa.
Wednesday, January 02, 2008
Memória Intermitente

Gosto de sair à noite, mas nem sempre foi assim. Durante um período da minha vida que gosto de esquecer, saía de dia, mas acreditem que não é a mesma coisa e acaba por ser aborrecido encontrar sempre as senhoras da limpeza. Não é que eu não goste ou que tenha alguma coisa contra, mas nunca achei muito- como direi? - excitante, ver mulheres com uma voluptuosa farda azul a varrerem o chão e a recolherem os copos.
O que eu gosto mesmo é de sair à noite, pela tardinha. E eu saio. E gosto. E bebo uns copos. E como todos – julgo – tento divertir-me o mais que posso e se possível conhecer alguém que queira vir comigo tomar o pequeno-almoço. Uma meia de leite e uma torrada bem aparada, aqui para a mesa do fundo, se faz favor! E todos se olham e penteiam o mais que podem enquanto comentam a noite anterior “Que aquela loira, a do bar, se estava a fazer completamente a ele, mas ele não podia dar o flanco porque estava com a outra que afinal o deixou completamente agarrado, pois claro!” e a outra “A morena que estava com a prima, que passou a noite inteira a enviar-lhe sms’s enquanto se agarrava ao namorado, a porca! Já viram isto?” e todos se riem enquanto partilham as aventuras da noite anterior e comentam quem entra na porta do café. Aliás, as grandes figuras da noite, sabem-se neste momento, na entrada em cena para o pequeno-almoço, na quantidade de “Hei, como tu estás!” que se ouvem, no burburinho gigante da multidão à chegada e em alguns casos, na gloriosa saída em maca para a ambulância.
E existe fama sim. E é esta. A de ter bebido tanto que já nem se lembra. De ter uma vaga ideia de que terá dito isto mas não tem a absoluta certeza – os risos sucedem-se - de que fez algo ali a meio da noite onde lhe parece ter acontecido alguma coisa mas que não se recorda – E alguém pergunta “Olha lá, tu lembraste de te teres atirado à Dulce a noite toda?” – e invariavelmente, ao primeiro indignado “Eu fiz-me à Dulce?” a gargalhada é geral e o episódio é contado ao seu protagonista principal como se este não o tivesse vivido ainda há pouco. “Eh pá, eu não posso ter feito isso! Eu não disse! Eu não fiz! Eu não quero! Eu não estava assim tão mal! Digam-me por favor que isso não é verdade! E todos os “nãos” se transformam agora em “sims” para seu absoluto espanto. E de todas as vezes, perante esta perniciosa perda de memória, os amigos e as amigas aproveitam-se disso para juntarem outros pormenores que na verdade nunca chegaram a acontecer, mas que os divertem tanto ou mais do que os que na realidade existiram, mas que ele nunca terá a certeza suficiente para os desmentir.
E no pequeno-almoço, dá-se conta que entretanto ali se estabeleceu uma espécie de tribunal onde, a um ritmo frenético, são agora trocadas acusações entre todos. “Que tu é que estavas muito mal! Que o outro é que teve a culpa! Que o vodka estava claramente marado! Que aquele disse isto! Que outra está mortinha, mortinha, por estar contigo! Que não, que não foi nada assim e eu é que sei e vou contar a verdade! Que alguém saiu a meio da noite! Que a outra desapareceu ao mesmo tempo! Que não fui eu! Que não foi ela! Que eu é que sei mas não digo! E quanto isto, mais uma meia de leite e “olha-me só para aquela maluca que acaba de chegar, pá! Diz lá que eu não tenho razão! Olha com quem ela está! Eu tinha-te dito, mas tu não querias acreditar, pois aí tens! É mais uma tosta mista que temos que ir para casa. E vamos. E Fomos. A noite termina aqui, curiosamente, no preciso instante em que as senhoras da limpeza com batas azuis voluptuosas varrem já a noite passada e recolhem os corpos, que aí encontram, vazios.
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