
O mundo é uma travesseira estranha. Esta frase é tão boa que podia muito ficar por aqui e publicar um romance apenas e só com esta estupenda criação que inventei agorinha mesmo. E a intelectualidade mundial reagiria com entusiasmo, entendendo a frase como uma espécie de quadro abstracto que ninguém percebe, mas que ainda assim não critica por pensar que pode estar demasiado à frente do seu tempo – E está!
Imagino-me pois em todas as capitais europeias, nos salões nobres desse mundo fora, dando razão aos cartazes que anunciavam em letras grandes: O famoso escritor Fernando Alvim estará hoje nesta cidade, para ler na integra o seu novo romance. E então, com a casa cheia, com o salão apinhado de gente ávida para sentir o meu dióxido de carbono, eu chegava ao palanque dourado reservado para mim e dizia apenas: O mundo ( pausa) é uma travesseira estranha. E dito isto, os populares levavam-me em ombros entoando canções tradicionais e outras que agora já não me lembro mas que possivelmente teriam sido escritas pelo Tozé Brito.
E todos gritavam o meu nome. E todos me davam a chave da cidade e todos faziam discursos de tal forma empolgados que obrigavam metade da assistência a abrir os guarda-chuvas. E todos me queriam – É um escritor extraordinário! – E todos me faziam propostas – porque não vem jogar para o Chelsea? – E todos me sugeriam coisas “Você deveria era investir na bolsa!” e tudo corria bem até o dia em que um palerma qualquer, abeirando-se de mim, me questionou: O mundo é uma travesseira estranha, mas porquê?
Se me permitem o desabafo - É gente desta que dá cabo disto. O mundo é uma travesseira estranha – disse-lhe - porque nem sempre nos aconchega da forma que ambicionamos – estou a ir bem? – O mundo é uma travesseira estranha porque chegados à cama nem sempre a travesseira nos aceita – é isto , é isto! - E nos trata como um corpo estranho, um amante ausente – como é que saio daqui? – Uma cidade órfã num país que sabe não ser o seu. (foi o melhor que se pode arranjar, o que e que é querem?)
De resto, quantos de nós já não acordamos numa cama que sabemos não ser nossa pela estranheza do barulho da rua, do cheiro que habita o quarto, da almofada que é mais alta do que deveria, da rigidez do colchão, dos passos de pessoas que não nos são familiares, das vozes que entoam agora pelos corredores e que nunca havíamos ouvido, do toque do telefone de casa, do bater da porta que é diferente em todas as casas – entre, entre! - Do cheiro, do cheiro a caruma, do cheiro da comida dos outros que deve estar tão bom, do cheiro das outras pessoas que ainda agora passaram num firme e seguro passo que eu julgo desconhecer, alguém que atenda o telefone, da chiadeira infernal de uma carrinha que tudo indica estará estacionada em frente a esta casa a vender produtos frescos. E alguém sabe onde é a casa de banho? E chegados lá, depois do corredor na primeira porta à esquerda, percebemos que não é a nossa casa, quando nos é aí revelada a marca de champô, o gel de banho, os cristais, o espelho menos amplo que o nosso, as toalhas menos garridas que as lá de casa, o estupor da agua que não há maneira de estabilizar na temperatura certa – Não mexam na água por favor que está a interferir aqui, ouviram?






