Thursday, September 27, 2007

O casamento





De cada vez que vou a um casamento apetece-me casar, peço desculpa por este desabafo, mas é a realidade e não há nada a fazer. Por mais que custe – e custa - Casar é uma coisa bonita – eu choro muito – e é sempre uma oportunidade única para reencontrarmos velhos amigos e não raras vezes distintas senhoras com laca no cabelo.

As mesmas senhoras que ao verem-nos com alguém nos questionam com pertinência “Então e vocês, quando é que se juntam?”, “Estão a ver como é bonito, para quando um netinho para a senhora sua mãe?” – Antes de continuar: Deixem-me dizer que adoro a expressão senhora sua mãe. Depois, confessar que a utilizei neste texto abusivamente visto que, infelizmente, nunca trataram a minha progenitora com tamanho epíteto, peço por isso desculpa. Onde é que íamos? Ora, exactamente. Há uma pressão nos casamentos e não é só na máquina das imperiais, é nas famílias que aqui reunidas, nos mostram que embora não se encontrassem há mais de 15 Natais aqui estão juntas e ainda se lembram praticamente dos nomes uns dos outros. Há uma pressão sim, quando nos encontramos com um amigo, com um filho ao colo e a mulher a ver as montras e, nos questionamos em silêncio: Deve ser bom ter um filho assim, não é? Que raio de montra está ela a ver?

No casamento dos meus amigos faço sempre questão de ler na cerimónia. Faço-o, porque sei bem que esta é uma oportunidade única de falar para as pessoas sem que estas possam abandonar facilmente o local e porque, com mil raios, porque gosto de ouvir a minha voz na esplendorosa acústica da Igreja. Para que conste - e escreva-se em acta – na última cerimónia em que participei, ao contrário do que é habitual li não uma, mas duas passagens da bíblia com tamanha distinção, que há já quem me vaticine uma digressão nacional por todo o território. Esta semana na Sé de Braga, amanhã na Igreja do Bonfim, para a semana quem sabe, em pleno Vaticano, sendo certo que há uma coisa que não poderei voltar a esquecer-me: De dizer “Palavra do Senhor” no final de cada oratória. Ámen.

As coisas mudaram. Actualmente, já ninguém faz casamentos em Restaurantes e mesmo as Quintas já tiveram melhores dias porque o que realmente está a dar – não se fala de outra coisa em Nova Iorque – são as herdades. É impressão minha ou dá muito mais estilo anunciar que nos iremos casar numa herdade do que propriamente numa quinta. Experimentem dizer algo como: Vou casar-me na Herdade de Santo António! E agora tentem anunciar isto: Vou casar-me na Quinta de Santo António! Confessem, é indesmentível. A herdade transporta-nos para um cenário de sopa de gengibre e lagostins enquanto a Quinta remete-nos para carne de porco à alentejana e baba de camelo. A herdade soa com coisa herdada e família com Brasão, a Quinta com aluguer à hora e casamento com separação de bens. Numa ou noutra que sejam felizes, que os noivos se beijem e digam “SIM!” alto na Igreja, que a noiva chore e mãe do noivo desmaie, que se embriaguem os padrinhos, que digam SIM alto na igreja, que a noite de núpcias seja como na primeira vez, que o senhor padre seja simpático como na primeira vez, que os noivos digam SIM! Alto na igreja.

Thursday, September 20, 2007



Não é muito normal, mas tenho pensado muito em sexo nas últimas semanas e não, não tem nada a ver com o Verão, nem com falta de sexo, nem com rebarbamento, nem com o facto de as mulheres se vestirem com coisas mais audazes, nem com a praia, nem com as revistas que só mostram pessoas a dizerem que “ Estão mais felizes do que nunca!”, nem com as noites que agora se tornam mais longas, nem com os dias que convidam à preguiça e a essa nobre arte de não fazer nada. Nada disso.

Tenho pensado muito em sexo porque estou a desenvolver uma tese que defende esta ideia: “ Até provas em contrário, toda a gente gosta de Sexo à Bruta!” e não pensem que o digo de forma leviana. Pelo contrário. Nos últimos dias refugiei-me num claustro para os lados da Serra da Arrábida e munido de enciclopédias várias, de ligação rápida à net e longas conversas com seres humanos iguais a nós, cheguei a esta conclusão. Todos gostam, mas poucos são os que o admitem por simples pudor ou porque simplesmente ninguém tem nada a ver com isso. E não tem.

Mas a verdade é esta, o sexo à bruta existe e é habitualmente posto em prática pelos seres mais conservadores e reservados e obviamente por aqueles que há muito perceberam que sem ele não se vai a lado nenhum. É como andar na auto-estrada nos limites de velocidade estabelecidos. Cumpre-se a lei – é certo – mas parece que não saímos do mesmo sitio. Talvez por isso, o sexo à bruta meta a quinta, não ligue aos radares, não use cinto e fale ao telemóvel durante a condução.

Então e o amor, onde fica no meio de tudo isto? – perguntarão. Já cá faltava esta inquietante interrogação. O amor não tem nada a ver com isto, porque se pode amar alguém de forma autêntica e verdadeira e no entanto expressar esse mesmo amor desta forma. Uma amiga minha confidenciou-me isto: “ O meu namorado gosta muito de mim, mas é muito molinho! Percebes? Pensa que o amor é apenas fazer aquilo!” E não é. Esperem lá, pode ser aquilo, mas não é só aquilo se é que me faço entender. O acto em si, deve ser entendido como uma imponente orquestra onde todos os instrumentos tocam e os violinos se destacam numa chiadeira tal que nos faz lembrar o maldita cama que teima em fazer mais barulho do que seria suposto. Confessem: Quantos de nós já fomos para o chão para não acordar os vizinhos? Sejamos francos: Quem é que não se importa com o barulho da cama e sonha com o dia em se inventará uma com silenciador? Quantas foram as vezes em que fomos obrigados a tapar a boca da nossa parceira com um pano da cozinha que era o que estava mais à mão?

É claro que haverá alguns que dirão que não, que nunca o fizeram, mas esses são precisamente aqueles sobre os quais recaíram mais tarde, comentários pouco abonatórios de que eram “ molinhos!”, repito: “ Molinhos!” por parte das suas namoradas o que, convenhamos, não pode ser. É muito bonito essa coisa do “ Gosto muito de ti! És a mulher da minha vida! Quero que este momento não acabe nunca” mas é tão ou mais importante serem ditas frases como “ O teu cheiro excita-me! Pede-me mais, queres mais? És uma prostituta de luxo! Ou se quiserem elogiá-la com finíssimo recorte e bom gosto experimentem dizer: “ És mais apertadinha que um arrebite de um submarino!”.

Thursday, September 13, 2007

O Fim do Mundo


No preciso instante em que vos escrevo – É Terça-feira e são nove e meia da noite desta precisa semana – está a trovejar tanto lá fora, que aqui vos revelo, que há pouco me pareceu ver a Arca de Noé e todos os seus animais a passarem ali pela Praça de Espanha. Talvez não seja. Deve ser só impressão minha. Chove muito. Os alarmes dos carros dispararam todos ao mesmo tempo e os assaltantes mais astutos aproveitam a ocasião para fazer o que sabem: - “ É a trovoada, é a trovoada!” – dizem e enquanto isso, subtraem um auto-rádio, duas colunas, aí vai uma mala, menos um portátil, uma carteira de senhora - “ É a trovoada, é a trovoada!” - e menos uma máquina fotográfica, dinheiro do tablier, um vidro partido que este não estava fácil, uma série de documentos que não vão servir para nada mas eles só disso saberão quando chegarem a casa encharcados e pedirem algo quente que está muito frio e lhes tremem as mãos . Ouvem-se as sirenes dos bombeiros e o choro das crianças dos vizinhos aqui do lado, o mesmo choro que fazem quando o pai lhes diz por esta hora “Tens que ir dormir!” e eles reclamam e protestam da única forma que sabem: A chorar como se fosse o fim do mundo. E se calhar é o fim do mundo e os miúdos é que têm razão, porque está mesmo a trovejar muito e aí vem um – Não pensem que eu estou com medo, ouviram? – Uma luz enorme no céu aberto e toma lá outro pela fresquinha – deixem-me só ir buscar uma vela que eu já vos atendo – E aí vem outro que isto não pára!

Já terei contado mais de 10, talvez 20 e como de costume, as sirenes dos bombeiros confundem-se sempre com as da polícia. Estas eram dos bombeiros porque vi da janela as luzes laranja. As da polícia são azuis e - mesmo a calhar! - Passam exactamente agora. Aliás, é curioso perceber que em caso de intempéries primeiro passam os bombeiros e depois a polícia e noutro tipo de incidentes, primeiro a polícia e só depois os bombeiros. Às vezes, só para chatear, primeiro fazem passar a polícia e logo depois o carro dos embaixadores de um país qualquer, e outras, naquela que eu considero - sem dúvida - a manobra mais espectacular, aparecem primeiro com o carro do INEM, depois a ambulância e em terceiro lugar mas com grande dignidade, o carro da polícia acenando à multidão. Nestas ocasiões, fico sempre com a ideia de que estamos perante a passagem do pelotão da volta a Portugal e chego-me sempre ao passeio para ver se vejo passar o Cândido Barbosa, ao qual muitos já chamam o Fernando Mamede do Ciclismo.

Sempre que vejo um raio no céu digo para mim mesmo “Querem ver que este é para mim?! – e fico muito aliviado quando percebo que fui poupado mais uma vez. Quando era miúdo e isto acontecia, enchia-me de cobertores e fazia da minha cama uma espécie de “bunker” com tal isolamento sonoro, que apenas dava para ouvir a minha respiração apressada. A minha avó bem me dizia “Reza a Santa Bárbara! Reza a Santa Bárbara!” mas como eu estava com o tal isolamento estas palavras só me chegavam quando a coisa já tinha passado. E depois, quando a situação estava mesmo complicada e eu percebia que o fim estava próximo eu sabia muito bem o que fazer: corria para o quarto dos meus pais de peito aberto e já aí demonstrando grande arrojo e coragem dizia-lhes: “Cheguem-se para lá que eu tenho medo!

Monday, September 10, 2007

Rise Up


Se as estações fossem pessoas eu diria que o Verão era uma espécie de novo-rico acabadinho de chegar da apanha do morango. O Verão usa camisa aberta – não tenhamos dúvidas! - tem fiozinho de ouro, palito nos dentes e fala alto, muito, para que todos o ouçam. Ao contrário do Outono. A amiguinha feia do grupo, o rapazito que só joga futebol com os outros porque a bola é dele, o caixa de óculos, o cromo que não consegue engatar uma miúda.

Adiante. O que realmente diferencia o Verão de todas as outras estações é o facto de a ele estar associado invariavelmente uma música que é apelidada por todos como a música do Verão. E reparem que não existe a música de Inverno? Nem da Primavera? Nem ninguém diz “E agora senhores ouvintes, para ouvir na rádio, a música do Outono! O grande sucesso, pardais ao ninho”. Não adianta. É escusado pensarem em exemplos que me possam contradizer porque isso não vai acontecer e sabem porquê? Porque não há.

Ao contrário do Verão, que todos os anos tem uma e as pessoas sabem qual é e não me venham cá com coisas de que há Verões que têm mais do que uma porque isso não é verdade e estou disposto a ir para tribunal com cada um de vocês e em frente à senhora doutora juíza – que o respeitinho é muito bonito – assumir esta verdade insofismável. Reparem que fiz este parágrafo todo armado ao nervosinho só para acabar com a palavra “insofismável” que uso muito pouco mas que serve para impressionar miúdas intelectuais giras que são lixadas de dar a volta. Peço portanto, desculpa.

Mais. Se reparem bem, ainda se vai ali em Maio e já começam os spots discográficos tanto na rádio como na televisão a assumir como seu, o sucesso do verão. Como se fossem videntes. Como se fossem a Maya dos discos. O professor Karamba da Indústria. E sabem que mais? Não é difícil fazer um sucesso de Verão e só porque sei que vocês são pessoas excepcionais e extraordinariamente bonitas vou aqui revelar o ancestral segredo que guardei durante todo este tempo com a promessa que isto fica só entre nós, ouviram bem? Só entre nós. Aliás, se tiverem com gente ao lado, por favor, devem nesta altura sair do espaço sem dar nas vistas e já em local seguro, então sim, ler o parágrafo que revela o segredo. Eu disse só entre nós, ouviram?

Pois bem, agora que já cá estamos só nós, posso assegurar que tudo o que é necessário para fazer um sucesso de Verão é colocar na letra da música a palavra “ Free” ou “Freedom” ou variantes do termo que possam significar a mesmíssima coisa. As pessoas adoram gritar ao vento que são livres e que podem fazer o que lhes apetecer, o que lhes der na cabeça, e porquê? Já disse. Porque são livres, ora essa, como passarinhos ou como diria a luso-canadiana Nelly Furtado “Free like a bird!”. Ai querem exemplos? Quantos são, quantos são? Eu não tenho medo de ninguém, estão portanto a duvidar daquilo que escrevo, é isso não é? Sim? Então tomem lá fresquinho: Free - Ultra Naté; Freedom de George Michael; Ouçam lá, tudo canções de Verão. Querem mais uma? Rozalla – Everbody Free, um tema que de resto foi surripiado alarvemente pelo Bob Sinclair que no ano passado foi o autor do sucesso “Love Generation” que bem ouvidinho, com as orelhas lavadinhas está a querer dizer paz e amor para toda a gente, vamos ser todos muito malucos e muito livres que eu cá gosto é de liberdade ahh pois!. O que acontece também com “Rise up” que já todos perceberam que é a música do Verão.
E o que diz “Rise Up”? Diz isto: My dream is to fly over the rainbow so high - o que é uma coisa muito bonita de se dizer, quero voar por cima do arco iris muito alto e depois isto: Rise up don’t falling down again que em tradução livre significa: Levanta-te pá, não te metas outra vez na droga! E para rematar adverte: Rise up long time I broke that chains que com a honestidade intelectual que me é reconhecida quer dizer: Levanta-te palerma, é complicadíssimo fugir da prisão! E por hoje é tudo caríssimos leitores, bebam por mim que eu não posso por todos.

Friday, September 07, 2007

Ciúmento Compulsivo




Se há coisas que as mulheres detestam são homens ciumentos, “ Eu não suporto ciúmes!”- dizem, e com verdade, sem que seja uma coisa assumida, há uma espécie de movimento antihomensciumentos de forma a inibir qualquer aproximação ou reprodução de homens como eu, que aqui o assumo, sou ciumento-compulsivo. Muito prazer!

Ora, os ciúmes são exactamente como o conflito Israelo-árabe, é uma coisa que existe, é muito aborrecido e não há solução à vista. Nesta intifada emocional, é justo dizer que ao contrário do que os modernos psicanalistas afirmam, esta coisa dos ciúmes não tem nada a ver com a insegurança: eu sou muito seguro, ouviram? uso sempre cinto, não passo o vermelho, se há uma fuga de gás vou logo abrir a janela, tenho o bilhete de identidade em dia, sou o cidadão 102 44 230 do arquivo nacional de Lisboa, tenho seguro de vida e também contra todos os riscos e ainda assim, insistem em dizer que isto é insegurança. Insegurança? Pois que o seja, mas prefiro assim a ser um tenrinho gozado em silêncio pelo vizinho da frente. O que querem que faça? Que ao meu lado se atirem à minha mulher e que eu diga algo como “ É muito apetecível não é? Como eu o compreendo, olhe fique aqui com o meu número de telemóvel que quando este relacionamento acabar eu logo lhe ligo para o avisar, está bem? Ou então outra hipótese. Estamos a passear na rua, há um carro que se aproxima e vendo-a afastada de mim, um homem vocifera algo como “ Se eu tivesse contigo, até gritavas pela tua mãe!” e eu, palerma, respondo algo como: “ Seu mal educado, pois fique a saber que não lhe adiantava de nada, que a mãe é surda como uma porta! - Aliás reparem que uso do pronome possessivo “ “minha” não é aqui usado de forma leviana, antes pelo contrário, é com aquele sentimento de posse, do “é meu e não quero saber!”, do “ Ela só gosta de mim e eu dela e o mundo pode muito bem acabar amanhã!” e eu bem sei que isto ainda me torna mais detestável. Estou mesmo a ver duas mulheres a falarem sobre isto:

- Sabes, o meu marido é muito ciumento?
- Verdade? Ohh, que maçada.
- Mas o pior não é isso – diz. Ele é ciumento compulsivo
- ohhh que horror! - diz a amiga e enquanto grita “ acudam, acudam! - histérica, atira-se da primeira janela que encontrar aberta.



Sim, sou um homem ciumento, mas não faço perseguições de carro, nem estou à porta de casa a ver a que horas ela chega, nem faço chantagens de nível algum. Gosto de fazer apenas duas perguntinhas: Onde estás? Estás com quem? E convenhamos: Quantos de nós somos adeptos fervorosos destas duas questões? Liga-se para casa dela e pergunta-se: Onde estás? E o contentamento cresce à medida que a nossa pergunta vai sendo respondida de forma precisa e com uma honestidade militante: - Olha, agora estou no corredor! Neste momento entrei na sala de jantar e se não te importas vou tomar banho que acabo de acordar, estás a ouvir a água a correr, meu amor? É bom não é? - É bom sim e melhor ainda quando nos diz com quem está e percebemos que não há perigo algum quando nos diz que está sozinha “ Estou sozinha!” ou melhor ainda com os pais “ Estou com os meus pais!” E aqui, há uma questão fundamental que distingue o homem que não tem ciúmes daquele que é ciumento compulsivo. O primeiro diz “ Está bem, está bem, vou indo!” o segundo jamais deixará de perguntar “ Posso falar com eles?”