Thursday, September 13, 2007

O Fim do Mundo


No preciso instante em que vos escrevo – É Terça-feira e são nove e meia da noite desta precisa semana – está a trovejar tanto lá fora, que aqui vos revelo, que há pouco me pareceu ver a Arca de Noé e todos os seus animais a passarem ali pela Praça de Espanha. Talvez não seja. Deve ser só impressão minha. Chove muito. Os alarmes dos carros dispararam todos ao mesmo tempo e os assaltantes mais astutos aproveitam a ocasião para fazer o que sabem: - “ É a trovoada, é a trovoada!” – dizem e enquanto isso, subtraem um auto-rádio, duas colunas, aí vai uma mala, menos um portátil, uma carteira de senhora - “ É a trovoada, é a trovoada!” - e menos uma máquina fotográfica, dinheiro do tablier, um vidro partido que este não estava fácil, uma série de documentos que não vão servir para nada mas eles só disso saberão quando chegarem a casa encharcados e pedirem algo quente que está muito frio e lhes tremem as mãos . Ouvem-se as sirenes dos bombeiros e o choro das crianças dos vizinhos aqui do lado, o mesmo choro que fazem quando o pai lhes diz por esta hora “Tens que ir dormir!” e eles reclamam e protestam da única forma que sabem: A chorar como se fosse o fim do mundo. E se calhar é o fim do mundo e os miúdos é que têm razão, porque está mesmo a trovejar muito e aí vem um – Não pensem que eu estou com medo, ouviram? – Uma luz enorme no céu aberto e toma lá outro pela fresquinha – deixem-me só ir buscar uma vela que eu já vos atendo – E aí vem outro que isto não pára!

Já terei contado mais de 10, talvez 20 e como de costume, as sirenes dos bombeiros confundem-se sempre com as da polícia. Estas eram dos bombeiros porque vi da janela as luzes laranja. As da polícia são azuis e - mesmo a calhar! - Passam exactamente agora. Aliás, é curioso perceber que em caso de intempéries primeiro passam os bombeiros e depois a polícia e noutro tipo de incidentes, primeiro a polícia e só depois os bombeiros. Às vezes, só para chatear, primeiro fazem passar a polícia e logo depois o carro dos embaixadores de um país qualquer, e outras, naquela que eu considero - sem dúvida - a manobra mais espectacular, aparecem primeiro com o carro do INEM, depois a ambulância e em terceiro lugar mas com grande dignidade, o carro da polícia acenando à multidão. Nestas ocasiões, fico sempre com a ideia de que estamos perante a passagem do pelotão da volta a Portugal e chego-me sempre ao passeio para ver se vejo passar o Cândido Barbosa, ao qual muitos já chamam o Fernando Mamede do Ciclismo.

Sempre que vejo um raio no céu digo para mim mesmo “Querem ver que este é para mim?! – e fico muito aliviado quando percebo que fui poupado mais uma vez. Quando era miúdo e isto acontecia, enchia-me de cobertores e fazia da minha cama uma espécie de “bunker” com tal isolamento sonoro, que apenas dava para ouvir a minha respiração apressada. A minha avó bem me dizia “Reza a Santa Bárbara! Reza a Santa Bárbara!” mas como eu estava com o tal isolamento estas palavras só me chegavam quando a coisa já tinha passado. E depois, quando a situação estava mesmo complicada e eu percebia que o fim estava próximo eu sabia muito bem o que fazer: corria para o quarto dos meus pais de peito aberto e já aí demonstrando grande arrojo e coragem dizia-lhes: “Cheguem-se para lá que eu tenho medo!

Monday, September 10, 2007

Rise Up


Se as estações fossem pessoas eu diria que o Verão era uma espécie de novo-rico acabadinho de chegar da apanha do morango. O Verão usa camisa aberta – não tenhamos dúvidas! - tem fiozinho de ouro, palito nos dentes e fala alto, muito, para que todos o ouçam. Ao contrário do Outono. A amiguinha feia do grupo, o rapazito que só joga futebol com os outros porque a bola é dele, o caixa de óculos, o cromo que não consegue engatar uma miúda.

Adiante. O que realmente diferencia o Verão de todas as outras estações é o facto de a ele estar associado invariavelmente uma música que é apelidada por todos como a música do Verão. E reparem que não existe a música de Inverno? Nem da Primavera? Nem ninguém diz “E agora senhores ouvintes, para ouvir na rádio, a música do Outono! O grande sucesso, pardais ao ninho”. Não adianta. É escusado pensarem em exemplos que me possam contradizer porque isso não vai acontecer e sabem porquê? Porque não há.

Ao contrário do Verão, que todos os anos tem uma e as pessoas sabem qual é e não me venham cá com coisas de que há Verões que têm mais do que uma porque isso não é verdade e estou disposto a ir para tribunal com cada um de vocês e em frente à senhora doutora juíza – que o respeitinho é muito bonito – assumir esta verdade insofismável. Reparem que fiz este parágrafo todo armado ao nervosinho só para acabar com a palavra “insofismável” que uso muito pouco mas que serve para impressionar miúdas intelectuais giras que são lixadas de dar a volta. Peço portanto, desculpa.

Mais. Se reparem bem, ainda se vai ali em Maio e já começam os spots discográficos tanto na rádio como na televisão a assumir como seu, o sucesso do verão. Como se fossem videntes. Como se fossem a Maya dos discos. O professor Karamba da Indústria. E sabem que mais? Não é difícil fazer um sucesso de Verão e só porque sei que vocês são pessoas excepcionais e extraordinariamente bonitas vou aqui revelar o ancestral segredo que guardei durante todo este tempo com a promessa que isto fica só entre nós, ouviram bem? Só entre nós. Aliás, se tiverem com gente ao lado, por favor, devem nesta altura sair do espaço sem dar nas vistas e já em local seguro, então sim, ler o parágrafo que revela o segredo. Eu disse só entre nós, ouviram?

Pois bem, agora que já cá estamos só nós, posso assegurar que tudo o que é necessário para fazer um sucesso de Verão é colocar na letra da música a palavra “ Free” ou “Freedom” ou variantes do termo que possam significar a mesmíssima coisa. As pessoas adoram gritar ao vento que são livres e que podem fazer o que lhes apetecer, o que lhes der na cabeça, e porquê? Já disse. Porque são livres, ora essa, como passarinhos ou como diria a luso-canadiana Nelly Furtado “Free like a bird!”. Ai querem exemplos? Quantos são, quantos são? Eu não tenho medo de ninguém, estão portanto a duvidar daquilo que escrevo, é isso não é? Sim? Então tomem lá fresquinho: Free - Ultra Naté; Freedom de George Michael; Ouçam lá, tudo canções de Verão. Querem mais uma? Rozalla – Everbody Free, um tema que de resto foi surripiado alarvemente pelo Bob Sinclair que no ano passado foi o autor do sucesso “Love Generation” que bem ouvidinho, com as orelhas lavadinhas está a querer dizer paz e amor para toda a gente, vamos ser todos muito malucos e muito livres que eu cá gosto é de liberdade ahh pois!. O que acontece também com “Rise up” que já todos perceberam que é a música do Verão.
E o que diz “Rise Up”? Diz isto: My dream is to fly over the rainbow so high - o que é uma coisa muito bonita de se dizer, quero voar por cima do arco iris muito alto e depois isto: Rise up don’t falling down again que em tradução livre significa: Levanta-te pá, não te metas outra vez na droga! E para rematar adverte: Rise up long time I broke that chains que com a honestidade intelectual que me é reconhecida quer dizer: Levanta-te palerma, é complicadíssimo fugir da prisão! E por hoje é tudo caríssimos leitores, bebam por mim que eu não posso por todos.

Friday, September 07, 2007

Ciúmento Compulsivo




Se há coisas que as mulheres detestam são homens ciumentos, “ Eu não suporto ciúmes!”- dizem, e com verdade, sem que seja uma coisa assumida, há uma espécie de movimento antihomensciumentos de forma a inibir qualquer aproximação ou reprodução de homens como eu, que aqui o assumo, sou ciumento-compulsivo. Muito prazer!

Ora, os ciúmes são exactamente como o conflito Israelo-árabe, é uma coisa que existe, é muito aborrecido e não há solução à vista. Nesta intifada emocional, é justo dizer que ao contrário do que os modernos psicanalistas afirmam, esta coisa dos ciúmes não tem nada a ver com a insegurança: eu sou muito seguro, ouviram? uso sempre cinto, não passo o vermelho, se há uma fuga de gás vou logo abrir a janela, tenho o bilhete de identidade em dia, sou o cidadão 102 44 230 do arquivo nacional de Lisboa, tenho seguro de vida e também contra todos os riscos e ainda assim, insistem em dizer que isto é insegurança. Insegurança? Pois que o seja, mas prefiro assim a ser um tenrinho gozado em silêncio pelo vizinho da frente. O que querem que faça? Que ao meu lado se atirem à minha mulher e que eu diga algo como “ É muito apetecível não é? Como eu o compreendo, olhe fique aqui com o meu número de telemóvel que quando este relacionamento acabar eu logo lhe ligo para o avisar, está bem? Ou então outra hipótese. Estamos a passear na rua, há um carro que se aproxima e vendo-a afastada de mim, um homem vocifera algo como “ Se eu tivesse contigo, até gritavas pela tua mãe!” e eu, palerma, respondo algo como: “ Seu mal educado, pois fique a saber que não lhe adiantava de nada, que a mãe é surda como uma porta! - Aliás reparem que uso do pronome possessivo “ “minha” não é aqui usado de forma leviana, antes pelo contrário, é com aquele sentimento de posse, do “é meu e não quero saber!”, do “ Ela só gosta de mim e eu dela e o mundo pode muito bem acabar amanhã!” e eu bem sei que isto ainda me torna mais detestável. Estou mesmo a ver duas mulheres a falarem sobre isto:

- Sabes, o meu marido é muito ciumento?
- Verdade? Ohh, que maçada.
- Mas o pior não é isso – diz. Ele é ciumento compulsivo
- ohhh que horror! - diz a amiga e enquanto grita “ acudam, acudam! - histérica, atira-se da primeira janela que encontrar aberta.



Sim, sou um homem ciumento, mas não faço perseguições de carro, nem estou à porta de casa a ver a que horas ela chega, nem faço chantagens de nível algum. Gosto de fazer apenas duas perguntinhas: Onde estás? Estás com quem? E convenhamos: Quantos de nós somos adeptos fervorosos destas duas questões? Liga-se para casa dela e pergunta-se: Onde estás? E o contentamento cresce à medida que a nossa pergunta vai sendo respondida de forma precisa e com uma honestidade militante: - Olha, agora estou no corredor! Neste momento entrei na sala de jantar e se não te importas vou tomar banho que acabo de acordar, estás a ouvir a água a correr, meu amor? É bom não é? - É bom sim e melhor ainda quando nos diz com quem está e percebemos que não há perigo algum quando nos diz que está sozinha “ Estou sozinha!” ou melhor ainda com os pais “ Estou com os meus pais!” E aqui, há uma questão fundamental que distingue o homem que não tem ciúmes daquele que é ciumento compulsivo. O primeiro diz “ Está bem, está bem, vou indo!” o segundo jamais deixará de perguntar “ Posso falar com eles?”


Monday, August 27, 2007





De cada vez que sai um número da revista 365 fico vaidoso e apetece-me ir para a rua vendê-la de porta em porta ou então divulgá-la como se de uma religião nova se tratasse. Colocava um fatinho, gravata com nó bem feito e lá ia eu, ding dong : “ Quem é?” – Eu peço desculpa estar a incomodar mas era apenas e só para lhe dizer que saiu o novo número da revista 365 que é esta beleza, olhe para isto! É ou não?”



A verdade é que não faço isto – infelizmente - mas não minto quando aqui vos revelo que sou eu, que em Lisboa por exemplo vou fazer a distribuição da mesma nos locais do costume: Na Ler devagar, na Assírio&Alvim, ao armazém da fnac que agora mudou-se para Alverca e também noutros sítios de outros cidades onde invariavelmente apareço de capacete na mão e revistas. Para além desta distribuição que se refere aos locais de venda, existe a outra distribuição que consiste em fazer chegar a revista às agências de publicidade e também a algumas marcas importantes. Nestes casos, quando num só edifício existem 6 ou 7 marcas que nos interessam, eu gosto de ir lá pessoalmente deixá-las e não raras vezes entregá-las em mão. É importante tentar falar com o maior número de directores de marketing e convencê-los de que deveriam apostar já no próximo número que, já que falamos disso, irá sair em Setembro. O mais curioso, é que nestes edifícios sempre que me é dado um cartão para entrar e ir ter com alguém, esse mesmo cartão diz invariavelmente a mesma coisa: “ Estafeta”. E assim quando me perguntam o que faço eu nesta publicação, eu com incontido orgulho respondo que sou director e também estafeta – e dos bons, porque nunca me esqueço de trazer o papel que dou à entrada assinado pela pessoa que visitei.



Mas agora o que interessa é que está cá fora um novo número da revista 365 que é o 25, um número bem redondo – não é à tua que a ele estão associadas as bodas de prata – e que tem na capa uma bela foto da Ângela Berlinde e textos de, e aqui vai disto: António Gregório, augusto justo, Daryl furr, Délio Nunes, Pedro Santo,Pedro Tenreiro, Eduardo Brito e uma refrescante entrevista com Juan Santos y El Combo Eléctrico.



Custa 2 Euros, está desde esta semana à venda e sabem que mais, deveriam comprá-la e depois disso, se gostarem dela – e é claro que vão gostar – divulgá-la junto das pessoas que vos pareçam com o espírito necessário para ser apreciador de uma revista deste género. De histórias, de contos, de crónicas, de literatura.



É o número 25 e para mim, como sempre acho, é a melhor edição de todas. Se não acreditam, visitem lá o site: www.revista365.com