
Quando decidi criar este blog prometi desde logo que só escreveria quando tivesse algo para dizer e assim fiz. Durante este dois meses não tive grande coisa para dizer porque aconteceram coisas demais para ter tempo de aqui as revelar.
Contudo , ao contrário do que se pensa, não estive parado durante este tempo e todos os dias, num outro blog escrevo diariamente sobre o tema que se propõe : provaoral.blogspot.com. É este o nome do programa de rádio, onde me podem encontrar de segunda a sexta entre as 19 e as 20 na Antena 3.
E é sobre rádio que vos quero falar, da paixão que esta forma de comunicar exerce sobre mim e que tem vindo a perder alguma da influência que já chegou a ter há anos atrás. Não é que agora não tenha - é claro que ainda tem - mas com o aparecimento da televisão e o seu lógico desdobramento em canais de cabo, noto que a rádio é uma espécie de parente pobre . É comum ouvir-se falar sobre o bichinho da rádio e quando questionados sobre qual o meio que preferimos. Rádio ou Televisão? Quem começou na rádio, invariavelmente não esconde a sua preferência pela primeira, o que não quer dizer que não se goste de fazer televisão.
Eu gosto de ambas - admito, mas a rádio ... a rádio é de facto diferente. Desde os 13 anos que faço ráio e não queiram saber o quanto ainda me dá prazer falar todos os dias para pessoas que não vejo mas que advinho do outro lado. Como serão ? - pergunto-me. Onde estarão elas a ouvir-me agora?
Na maior parte das vezes, não sei porquê, imagino-os os ouvintes na estrada, a conduzirem um carro ou apenas e só a viajar no carro numa daqueles estradas dos filmes do Lynch enquanto me ouvem e de preferência se riem com aquilo que digo. Gosto de acreditar que de vez em quando tenho piada. De resto, melhor do que ter piada ou não , é perceber quando a tivemos ou não e percebermos que quando deixarmos de conseguir fazer esta avaliação, estamos a um passo da decadência.
Mas não é disso que quero falar, gostava de destacar a impressão que me faz o silêncio. Palavra. Se há coisas que não suporto , uma delas é o silencio da rádio ou mesmo o silêncio numa mesa de jantar por exemplo. E no entanto, até gosto de estar calado muitas das vezes, mas se estou numa emissão de rádio ou num jantar com outras pessoas, se momentaneamente todas se calam, garanto-vos que eu sou o primeiro a quebrá-lo, a quebrar o silêncio, fazendo com que à custa disto já tenha dito os maiores disparates da história- desculpas dirão!. Mas acreditem que falo a verdade, basta que surja o silêncio e digo algo como: " Esperem lá, outro dia contaram-me uma história - e neste momento eu não sei o que vou dizer - uma história incrível, digo - claramente em busca de algo - eu sinceramente não sei quem é que me contou mas acho que ... acho - estou a tentar ganhar tempo à procura de alguma coisa - e aí , como que por magia, lembro-de de uma história qualquer que por me milagre me assalta e que normalmente não tem grande nexo ou com frequência é um perfeito disparate.
Na rádio, as coisas agravam-se ainda mais e não são poucas as vezes que abro o microfone sem ter mínima noção do que irei dizer mas sempre, sempre, com a esperança que algo surgirá no segundo depois de ter pensado nisso. E felizmente, surge mesmo.
Acho que já o perceberam, incomoda-me o silêncio. Como já muitos o disseram, por vezes o silêncio pode ser ensurdecedor e eu mastigo, eu trinco o silêncio antes que este me liquide. E no entanto, quando vou ao cinema gosto de ficar em silêncio, e no entanto, quando vos escrevo não gosto sequer de estar a ouvir música, e no entanto, se vamos com aquela pessoa, gosto de muitas das vezes ficar em silêncio sem que isso magoe, sem que isso incomode, como se fossem muitas palavras, como se aqui o silêncio fosse apaziguador e provasse, ao não causar estranheza ou qualquer desconforto, que a relação faz-se de silêncios destes. E era tudo.