Monday, October 02, 2006





quantas vezes te inventei
ao pé das
águas do lago e
imaginei que me empurravas
ladeira abaixo para
enfim
morrer de amor


Valter Hugo Mãe/"O Resto da minha Alegria"

Thursday, September 28, 2006

Erotismo versus Pornografia



Sou um fervoroso contestatário do Erotismo. Mandasse eu nisto, e já deve faltar pouco, e o erotismo seria banido de todo o lado. Não quer isto dizer que seja adepto da Pornografia – não sou – mas entre o Erotismo e a Pornografia não tenho dúvidas que gosto mais da segunda opção. O erotismo não me convence e nunca esquecerei alguns filmes que depois de me entusiasmarem me deixavam invariavelmente angustiado. A típica cena, sempre a mesma coisa: Os dois encontram-se, ajeitam-se, sentam-se no sofá, na televisão nada de jeito, amarrotam-se, as mãos dele, as pernas dela, os dois a procurarem o comando da televisão para a desligar e encontrando-o, ele olha para ela como se a perfurasse e desliga o televisor. As vozes são agora mais sussurrantes, não importa se os dois amantes ouvem o que estao a dizer, susurram e isso basta-lhes. Passa um carro ao longe, talvez nem tanto assim, mas ali, mais perto, lá em baixo na rua, ouve-se o barulho de uma porta a fechar-se com uma pancada seca, de alguém que acaba de chegar a casa e advinhamos a largar a mala e pendurar o casaco. Os dois, agora a olharem-se um no outro como se nunca se tivessem visto e se interrogassem a cada movimento. A mão dele na mão dela – eu no sofá a ver isto e a dizer queres ver que é agora, tu queres ver que é agora!– ela com a mão na camisa dele que vai puxando para si – tu queres ver, tu queres ver – a tirar os botões um a um – é agora , só pode ser agora – ele cada vez mais sôfrego , repetindo os gestos dela como se a imitasse – é agora, é agora – e no exacto momento em que tudo está a postos para um momento bem bonito de sexo saboroso, o realizador decidi mudar o plano brindando-nos normalmente com uma série de imagens paisagisticas muitas das vezes complementados por belíssimos temas do Mike Oldfield.
Bonito, não é?

Os adeptos do erotismo dirão que sim e eu respeito, mas o erotismo para mim é como entrarmos na cozinha, sentirmos o delicioso cheiro que vem de um dos tachos que estão ao lume e quando já mordemos os lábios na ânsia de provarmos o manjar, dizerem-nos que não, que o que ali está é só para vermos.

Com a pornografia , as coisas são diferentes e as conversas mais francas. Por exemplo, num filme erótico, quando o casal está no carro na esperança que ela ou ele a convide a subir é natural que se ouça algo como: “Queres subir e ir beber qualquer coisa? Sei lá, ver um filme, ouvir o novo album dos Sigur Rós? Enquanto num filme porno, na mesmíssima situação, a sinceridade chega ser comovedora como balas certeiras no peito: “ Como é, vamos lá em cima tirar esta roupa? E se subissemos a escada e descessemos um pelo outro?
Como é fácil de perceber, a segunda situação é mais franca porque escuta o pulsar dos corpos e não o esconde, nâo faz rodeios, não anda para ali com rodriguinhos, com isto e aquilo, entrega-se, rende-se, procura poupar em palavras aquilo que gasta em actos, que diz exactamente aquilo que está a sentir remetendo o erotismo para os filmes e não para vida real que é a nossa.

Tuesday, September 19, 2006

Essa coisa chamada Silêncio



Quando decidi criar este blog prometi desde logo que só escreveria quando tivesse algo para dizer e assim fiz. Durante este dois meses não tive grande coisa para dizer porque aconteceram coisas demais para ter tempo de aqui as revelar.

Contudo , ao contrário do que se pensa, não estive parado durante este tempo e todos os dias, num outro blog escrevo diariamente sobre o tema que se propõe : provaoral.blogspot.com. É este o nome do programa de rádio, onde me podem encontrar de segunda a sexta entre as 19 e as 20 na Antena 3.

E é sobre rádio que vos quero falar, da paixão que esta forma de comunicar exerce sobre mim e que tem vindo a perder alguma da influência que já chegou a ter há anos atrás. Não é que agora não tenha - é claro que ainda tem - mas com o aparecimento da televisão e o seu lógico desdobramento em canais de cabo, noto que a rádio é uma espécie de parente pobre . É comum ouvir-se falar sobre o bichinho da rádio e quando questionados sobre qual o meio que preferimos. Rádio ou Televisão? Quem começou na rádio, invariavelmente não esconde a sua preferência pela primeira, o que não quer dizer que não se goste de fazer televisão.

Eu gosto de ambas - admito, mas a rádio ... a rádio é de facto diferente. Desde os 13 anos que faço ráio e não queiram saber o quanto ainda me dá prazer falar todos os dias para pessoas que não vejo mas que advinho do outro lado. Como serão ? - pergunto-me. Onde estarão elas a ouvir-me agora?

Na maior parte das vezes, não sei porquê, imagino-os os ouvintes na estrada, a conduzirem um carro ou apenas e só a viajar no carro numa daqueles estradas dos filmes do Lynch enquanto me ouvem e de preferência se riem com aquilo que digo. Gosto de acreditar que de vez em quando tenho piada. De resto, melhor do que ter piada ou não , é perceber quando a tivemos ou não e percebermos que quando deixarmos de conseguir fazer esta avaliação, estamos a um passo da decadência.

Mas não é disso que quero falar, gostava de destacar a impressão que me faz o silêncio. Palavra. Se há coisas que não suporto , uma delas é o silencio da rádio ou mesmo o silêncio numa mesa de jantar por exemplo. E no entanto, até gosto de estar calado muitas das vezes, mas se estou numa emissão de rádio ou num jantar com outras pessoas, se momentaneamente todas se calam, garanto-vos que eu sou o primeiro a quebrá-lo, a quebrar o silêncio, fazendo com que à custa disto já tenha dito os maiores disparates da história- desculpas dirão!. Mas acreditem que falo a verdade, basta que surja o silêncio e digo algo como: " Esperem lá, outro dia contaram-me uma história - e neste momento eu não sei o que vou dizer - uma história incrível, digo - claramente em busca de algo - eu sinceramente não sei quem é que me contou mas acho que ... acho - estou a tentar ganhar tempo à procura de alguma coisa - e aí , como que por magia, lembro-de de uma história qualquer que por me milagre me assalta e que normalmente não tem grande nexo ou com frequência é um perfeito disparate.

Na rádio, as coisas agravam-se ainda mais e não são poucas as vezes que abro o microfone sem ter mínima noção do que irei dizer mas sempre, sempre, com a esperança que algo surgirá no segundo depois de ter pensado nisso. E felizmente, surge mesmo.

Acho que já o perceberam, incomoda-me o silêncio. Como já muitos o disseram, por vezes o silêncio pode ser ensurdecedor e eu mastigo, eu trinco o silêncio antes que este me liquide. E no entanto, quando vou ao cinema gosto de ficar em silêncio, e no entanto, quando vos escrevo não gosto sequer de estar a ouvir música, e no entanto, se vamos com aquela pessoa, gosto de muitas das vezes ficar em silêncio sem que isso magoe, sem que isso incomode, como se fossem muitas palavras, como se aqui o silêncio fosse apaziguador e provasse, ao não causar estranheza ou qualquer desconforto, que a relação faz-se de silêncios destes. E era tudo.

Tuesday, July 18, 2006

E vão cinco!




Começa a ser demais, em 16 anos de vida como motard já me subtraíram 5 motas e a última foi ontem, uma novinha Honda Hornet Laranja, igual a esta aqui ao lado, Matricula: 01 – AJ – 55, que havia estacionado na estação Oriente, no espaço reservado para o efeito, a pouco mais de 20 metros da esquadra da polícia. Bonito, não é?

Pois bem, deve haver poucas pessoas em Portugal que neste espaço de tempo se possam orgulhar de tamanho feito e eu orgulho-me disto porque acredito que quando nos roubam qualquer coisa é porque sabem que o produto em questão é bom, da mesma forma que desde sempre cresci a ouvir dizer que quando nos imitam isso tem que ser obrigatoriamente um elogio, pois se entende que essa é uma forma do suposto imitador dizer que gosta de nós ao ponto de querer fazer igualzinho ou parecido.

E a verdade é que as coisas não correram bem desde o início, quando a minha primeira mota foi levada para parte incerta com apenas 15 dias de utilização. Lembro-me que nessa altura tinha ido para a Ribeira do Porto com a minha namorada de então e bastaram 2 horas de poemas à beira rio para que percebesse que a poesia pode ser efémera. E foi. Um mês depois, perante a loucura que se apoderava de mim fui obrigado a comprar outra exactamente igual de forma a preservar a minha sanidade mental com os resultados que se conhecem. Essa foi até hoje a mota que terá durado mais tempo e nunca alvo de qualquer atentado aos bons costumes. E assim, quando chegou a altura de querer mudar, optei por oferecê-la a um Camera-man da Tvi que ainda hoje me felicita pelo acto.

Adiante. A minha segunda mota foi uma xt 350, cor preta e azul, que durou pouco mais de dois anos e que conseguiu nesse período engripar duas vezes por culpa aqui do escriba. Essa mota foi importante, porque marcou a minha transição de cidade, foi com ela que fiz a auto-estrada entre o Porto e Lisboa e com a qual cheguei a transportar, imagine-se, um aspirador de dimensões consideráveis.

A XT 350 revelava-se um espanto de resistência mas perante a ambição de querer um pouco mais, resolvi remetê-la para o Porto onde residem os meus progenitores e adquirir uma espantosa Xt 600, que só de a pensar, me deixa invariavelmente com os olhos aquosos ( se me permitem vou ali buscar lenços!) . E se a até aqui, os problemas ao nível de usurpamento indevido foram quase inexistentes, a partir daqui tudo se complicou e numa bela manhã , sem que tivesse cometido qualquer crime ( isto faz lembrar Kafka) , ao dirigir-me para o sítio onde a havia estacionado na noite anterior, percebi que já só ali jazia a sua alma. O mesmo sítio, onde na mesma noite já pernoitaria uma Transalp comprada em tempo recorde e cujos consumos eram tão elevados que andar de carro se tornava sempre mais apetecível. Gostei da transalp, mas ao cair por duas vezes com ela percebi que era muito difícil livrar-me do seu peso caso não tivesse auxílio imediato por parte das pessoas que tivessem nas imediações do acidente. Felizmente foi o que aconteceu das duas vezes, o que me fez suspirar de alívio mas criar com ela uma espécie de medo que não é muito abonatório neste tipo de relação. Uma relação que terminou já mais tarde quando consegui gripar a mota e perante um arranjo estimado em 900 contos decidi, com uma certa nostalgia, comprar uma xt 600 muito parecida com a que me haviam usurpado, ao mesmo tempo que comprava em primeira mão, um modelo novo da Honda que me era vendida sob a promessa de ser a oitava maravilha da natureza. E assim, como se fosse um novo rico, num curto espaço de tempo, aqui o rapaz ficaria com 3 motas ao mesmo tempo. Uma no Porto e duas em Lisboa. A XT 600 e a tal promessa da Honda – não digo o nome porque posso muito bem ter tido azar e ser de facto um excelente modelo – isto em Lisboa, e no Porto , a já referida XT 350.

Perante os números, decidi ofertar esta última ( a Xt 350) a um bom amigo meu que ainda hoje a usa e escreve sobre cinema como ninguém.

Uma semana depois, ainda os dois modelos não estavam separados e já a Xt 600 era vítima de um furto exactamente igual a todos os outros, na pacatez da noite, à porta da minha casa, sem deixar quaisquer vestígios e nem sequer uma carta de despedida.

Foi duro, sobretudo perceber que havia ficado com a outra mota – o tal modelo que me escuso a mencionar o nome – e que seria posteriormente trocada por uma apaixonante Hornet 600 que se revelaria desde o início como a melhor das motas que alguma vez havia adquirido. A mesma mota com a qual tive o acidente há um mês e meio atrás e que depois de reparada – tinha regressado nesta semana- foi levada pelo vento. A mesma mota que assim se junta à XT 50, à Transalp e às duas Xt 600.


Nota: A Transalp e uma das Xt 600 viriam a aparecer posteriormente. A primeira depois de um anúncio na Rádio Comercial no dia a seguir ao seu desaparecimento, onde um ouvinte denunciou o seu paradeiro. A segunda, duas semanas depois, na esquadra de policia da Reboleira, com um aspecto singular: a roda da frente estava presa com um cadeado/alarme que não era meu. Não acham espantoso?

Monday, June 19, 2006


E de repente a minha vida muda. Saio de casa, faço uma ultima chamada a dizer que estou neste momento a sair. Está sol, o calor faz-me negligenciar o uso de luvas. Estou neste momento a sair – repito – são talvez 10.30, talvez mais até. E uns minutos depois (não mais do que 3, 4) estou estendido na relva quente da Avenida Calouste Gulbenkian com gente a olhar para mim como se tivesse acabado de nascer.

Dizem: “ Ele está a respirar,. Ele está a respirar!” e eu confirmo, vociferam “ ninguém toca no puto, ninguém toca no puto!” e eu encolho mesmo a tempo de entrar nesta ambulância que agora se dirige ao hospital São José. O condutor reconhece-me, o colega também e ambos fazem que eu perceba que não é assim tão grave. Já dentro do hospital enquanto recebo visitas há uma frase que todos repetem “ podia ter sido muito pior!” e não sei porquê assalta-me um pensamento que me diz que “ também podia ter sido muito melhor”

Pensando que não, é aborrecido ter um acidente. Palavra, é chato. Porque com sinceridade, se eu soubesse antecipadamente que ia ter um acidente, as coisas teriam sido diferentes. Tinha preparado tudo com antecedência, adiantava alguns trabalhos, avisa a minha entidade patronal que me iria ausentar durante algum tempo, ia comprando alguns analgésicos e todo o tipo de ligaduras, podia ver logo um ou outro hospital que gostasse mais e posto isto, e então sim, só agora sim, estendia-me ao comprido na relva árida da Calouste Gulbenkian.

Assim, não foi. Há um dedo partido e 11 pontos no Joelho direito que confirmam a má sorte de não ter sido avisado. 4 dias no hospital, dois sem telemóveis, 3 sem televisão no quarto. Um antro de dor à minha volta que me faz entender que a minha, a dor que sinto, é infinitamente menor à que me rodeia. Sofre-se aqui como nunca antes havia experimentado e à noite, quando as luzes se apagam há um grito que percorre o corredor como se andasse e batesse nas portas. É um grito que representa vários, talvez sejam muitos gritos num só, mas este arrepia, este grito arrepia porque representa a dor que ali vai e que aquela pessoa, ao contrário de muitos outros, preferiu não silenciar. Aquele homem ou aquela mulher, quis que soubéssemos que o seu sofrimento era tão maior que aquele corredor.

E depois disto, quando finalmente saímos, nos libertamos do soro e encontramos o dia claro, sentimos algo de muito parecido com alguém que acaba de sair de um estabelecimento prisional depois de uma pena que cumpriu. Advinho, que será algo de muito semelhante embora não seja obrigatório que quem sai de uma prisão tenha que necessariamente se apresentar de braço ao peito.

Adiante, só o simples facto de passar a ter uma só mão para escrever fez com que a preguiça se apoderasse de mim e me fizesse, por manifesto amuanço, não escrever uma linha durante este tempo.

Estou de volta, regressei, ando cheio de ideias, este acidente pode até ter sido uma coisa boa ( “Podia ter sido Pior!”) , estamos a meio do ano, estamos a meio do jogo, há uma segunda parte para dar a volta a isto. E eu, preparo-me para entrar de novo em campo.

P.s – Está em preparação o novo número da revista 365 ( www.revista365.com) que sairá no final de Julho. Pela primeira vez, a revista sairá em formato de livro de Bolso, inspirando-se em absoluto na lendária revista Gina. Se ainda não a conhecem, deveriam, se ainda não são assinantes, deveriam também, se nunca divulgaram esta estupenda publicação junto dos vossos, é obvio que deveriam fazê-lo. E mais não digo. Querem que eu repita o endereço do site?! Está bem: www.revista365.com.