
Começa a ser demais, em 16 anos de vida como motard já me subtraíram 5 motas e a última foi ontem, uma novinha Honda Hornet Laranja, igual a esta aqui ao lado, Matricula: 01 – AJ – 55, que havia estacionado na estação Oriente, no espaço reservado para o efeito, a pouco mais de 20 metros da esquadra da polícia. Bonito, não é?
Pois bem, deve haver poucas pessoas em Portugal que neste espaço de tempo se possam orgulhar de tamanho feito e eu orgulho-me disto porque acredito que quando nos roubam qualquer coisa é porque sabem que o produto em questão é bom, da mesma forma que desde sempre cresci a ouvir dizer que quando nos imitam isso tem que ser obrigatoriamente um elogio, pois se entende que essa é uma forma do suposto imitador dizer que gosta de nós ao ponto de querer fazer igualzinho ou parecido.
E a verdade é que as coisas não correram bem desde o início, quando a minha primeira mota foi levada para parte incerta com apenas 15 dias de utilização. Lembro-me que nessa altura tinha ido para a Ribeira do Porto com a minha namorada de então e bastaram 2 horas de poemas à beira rio para que percebesse que a poesia pode ser efémera. E foi. Um mês depois, perante a loucura que se apoderava de mim fui obrigado a comprar outra exactamente igual de forma a preservar a minha sanidade mental com os resultados que se conhecem. Essa foi até hoje a mota que terá durado mais tempo e nunca alvo de qualquer atentado aos bons costumes. E assim, quando chegou a altura de querer mudar, optei por oferecê-la a um Camera-man da Tvi que ainda hoje me felicita pelo acto.
Adiante. A minha segunda mota foi uma xt 350, cor preta e azul, que durou pouco mais de dois anos e que conseguiu nesse período engripar duas vezes por culpa aqui do escriba. Essa mota foi importante, porque marcou a minha transição de cidade, foi com ela que fiz a auto-estrada entre o Porto e Lisboa e com a qual cheguei a transportar, imagine-se, um aspirador de dimensões consideráveis.
A XT 350 revelava-se um espanto de resistência mas perante a ambição de querer um pouco mais, resolvi remetê-la para o Porto onde residem os meus progenitores e adquirir uma espantosa Xt 600, que só de a pensar, me deixa invariavelmente com os olhos aquosos ( se me permitem vou ali buscar lenços!) . E se a até aqui, os problemas ao nível de usurpamento indevido foram quase inexistentes, a partir daqui tudo se complicou e numa bela manhã , sem que tivesse cometido qualquer crime ( isto faz lembrar Kafka) , ao dirigir-me para o sítio onde a havia estacionado na noite anterior, percebi que já só ali jazia a sua alma. O mesmo sítio, onde na mesma noite já pernoitaria uma Transalp comprada em tempo recorde e cujos consumos eram tão elevados que andar de carro se tornava sempre mais apetecível. Gostei da transalp, mas ao cair por duas vezes com ela percebi que era muito difícil livrar-me do seu peso caso não tivesse auxílio imediato por parte das pessoas que tivessem nas imediações do acidente. Felizmente foi o que aconteceu das duas vezes, o que me fez suspirar de alívio mas criar com ela uma espécie de medo que não é muito abonatório neste tipo de relação. Uma relação que terminou já mais tarde quando consegui gripar a mota e perante um arranjo estimado em 900 contos decidi, com uma certa nostalgia, comprar uma xt 600 muito parecida com a que me haviam usurpado, ao mesmo tempo que comprava em primeira mão, um modelo novo da Honda que me era vendida sob a promessa de ser a oitava maravilha da natureza. E assim, como se fosse um novo rico, num curto espaço de tempo, aqui o rapaz ficaria com 3 motas ao mesmo tempo. Uma no Porto e duas em Lisboa. A XT 600 e a tal promessa da Honda – não digo o nome porque posso muito bem ter tido azar e ser de facto um excelente modelo – isto em Lisboa, e no Porto , a já referida XT 350.
Perante os números, decidi ofertar esta última ( a Xt 350) a um bom amigo meu que ainda hoje a usa e escreve sobre cinema como ninguém.
Uma semana depois, ainda os dois modelos não estavam separados e já a Xt 600 era vítima de um furto exactamente igual a todos os outros, na pacatez da noite, à porta da minha casa, sem deixar quaisquer vestígios e nem sequer uma carta de despedida.
Foi duro, sobretudo perceber que havia ficado com a outra mota – o tal modelo que me escuso a mencionar o nome – e que seria posteriormente trocada por uma apaixonante Hornet 600 que se revelaria desde o início como a melhor das motas que alguma vez havia adquirido. A mesma mota com a qual tive o acidente há um mês e meio atrás e que depois de reparada – tinha regressado nesta semana- foi levada pelo vento. A mesma mota que assim se junta à XT 50, à Transalp e às duas Xt 600.
Nota: A Transalp e uma das Xt 600 viriam a aparecer posteriormente. A primeira depois de um anúncio na Rádio Comercial no dia a seguir ao seu desaparecimento, onde um ouvinte denunciou o seu paradeiro. A segunda, duas semanas depois, na esquadra de policia da Reboleira, com um aspecto singular: a roda da frente estava presa com um cadeado/alarme que não era meu. Não acham espantoso?



