Wednesday, April 19, 2006

Será que estou a ver bem?




E repente aconteceu, começo a ver as coisas de outra forma, mais nebulosas, mais turvas, como se amanhecesse num daqueles dias de nevoeiro, não é muito intenso, não é, mas é o suficiente para partir para o primeiro oftalmologista que encontro.

Dizem-me que só amanhã me podem receber, às 13.30, e no tempo que me resta regresso à minha infância e lembro-me dos testes à visão que nos faziam, primeiro com letras gigantes e depois, cada vez mais pequenas. O que vê daí? perguntavam-me. E eu ia debitando as letras: a f r g h com uma sorte tal que chegava a emocionar os presentes e a ouvir comentários que me auguravam um futuro promissor no domínio do Jogo. A poucas horas de fazer outra vez este mesmo teste, treino em casa, coloco papeis com letras grandes a distãncias consideráveis e digo cada uma das letras. Acerto em tudo. Agora mais pequenas, acerto de novo.

Daqui a pouco, saberei se continuo a ser o rapaz com a sorte daqueles tempos em que era mais petiz. Se assim for, garanto-vos que irei à inauguração do Casino de Lisboa, mesmo sem convite.

Wednesday, March 29, 2006





Bem sei que isto é uma vergonha, tanto tempo de ausência, nem uma única palavra, um “Olá” que fosse, um “Olhem , não estou agora com tempo mas é só para perceber se está tudo bem ? Está tudo bem?” uma coisa assim. E eu, nada! Mas que vergonha, que vergonha!

Mas alto, não me apedrejem ainda que eu sou vosso irmão! – Esperem, isto é Mentira! – Reparem, eu não sou vosso irmão, mas tenho uma boa desculpa para tudo isto. Aliás, duas. Com jeito, talvez 3. Eu prometo que não volto a fazer uma coisa destas.

A primeira tem a ver com a organização do Festival Termómetro Unplugged, uma criação aqui do rapaz que vai já, imagine-se, na 12 ª Edição. Este ano, mudei as coisas. Tornei o festival mais itinerante ( algo que já havia sido experimentada no 10ª Edição com a inclusão de Lisboa) e fiz com que este ano visitasse pela primeira vez a cidade de Coimbra, o que se viria a revelar-se uma bela opção.

Vá lá , não fiquem tristes, prometo que não volta a fazer.

De resto, aqui fica o convite para que venham assistir à grande final que está marcada para este próximo Sábado, no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, a partir das 23 horas. Uma cerimónia que será apresentada por Rui Reininho dos GNR e Marta Ren dos Sloppy Joe e cujo convidado principal é Manuel Cruz, fundador dos Ornatos Violeta e actual vocalista dos Pluto e Supernada e aqui que se apresenta a solo pela primeira vez ao vivo.

Se querem saber, devo dizer-vos que me orgulho de ser amigo do Manuel há muitos anos, o Manuel também faz BD para a Revista 365 e no entanto, mesmo tendo acompanhado a carreira dos Ornatos Violeta e actualmente com os Pluto e Supernada. nunca antes tinha ouvido algo tão belo, tão genial, como aquilo que ouvi na casa deste há uns meses atrás. São músicas que quase não precisavam de palavras para sobreviverem ou então exactamente o contrário, podia divagar imenso sobre aquilo que ouvi, mas basta-me confidenciar-vos que tenho quase a certeza que estamos perante um dos melhores discos que serão editados nos próximos tempos. E mais não posso falar, seria desleal para com ele. Mais informações em : www.termometro-online.com. Os bilhetes custam apenas 10 Euros ( à venda nas lojas fnac e no local do acontecimento) e dão direito a uma cervejola.

A outra desculpa, é a revista 365 da qual sou orgulhosamente director e que se prepara para regressar com mais um número, o 23. No nosso longo historial já entrevistamos personagens como Samantha Fax, Eládio Clímaco, Vitor Espadinha, Miguel Valero ( Piranha da série Verão Azul), Dina Aguiar, o Cartão Multibanco e agora, senhores e senhoras, em exclusivo a Rena Rudolph que 3 meses depois do Natal ajusta contas com a época. Se nunca leram um número, nunca saberão do que falo, mas garanto-vos que sentirão orgulho de mim de o fizerem. Já agora: www.revista365.com.

Pronto, para que façamos as pazes, mostro-vos aqui, em primeira mão, a capa do próximo número da 365 e o cartaz deste ano do Termómetro. Estou desculpado? Juro que não voltarei a estar tão ausente. Prometo.

Sunday, February 05, 2006

Estranha coisa esta


Estranha coisa esta

Não sei como começar para vos explicar isto, mas por ser verdade e juro que é, por todos os santinhos e mais alguns, aqui admito que não pode haver nada melhor para mim do que contrariar a ordem natural das coisas e a lógica que a elas está associada.

Por exemplo, haverá alguma coisa melhor do que comer um gelado no Inverno? Admitam , que prazer poderá superar uma meia de leite a escaldar ( ao ponto de nem se conseguir sequer tocar na chávena) num dia tórrido de Verão? Parece uma atitude esquizofrénica, mas posso-vos assegurar que para mim, grande apreciador de comida Japonesa e adepto confesso da cultura oriental, dei por mim, em Osaka, a ir jantar a um belíssimo restaurante francês que só Deus Sabe ( a Alexandra Solnado também) o trabalho que me deu a encontrar. Já em Palermo, em pleno domínio da região siciliana não foi fácil apreciar o gostoso manjar de uma típica ( imaginem só esta sorte!) uma típica tasca húngara onde me foi servido um delicioso Frango na Púcara à Nógrád, o nome de uma pequena cidade relativamente perto de Budapeste. O mesmo aconteceu em França, em Bordéus mais precisamente, onde a meio de um Simpósio de nouvelle cuisine , na hora da refeição entenda-se, pedi para grande espanto dos presentes uma fabulosa Paelha à Valenciana E agora ficava aqui a tarde toda, a contar-vos aquela vez em que comi uma sopa de peixe de Bergen perto, muito perto até de Dubrovnik, uma “Kulebjaka” ( deliciosa empada russa recheada com salmão) no coração de Madrid, Lombo stroganov no Rio de Janeiro, Tortellini na Suécia, Ranznjici (espetada sérvia com legumes que é uma maravilha) em Pequim, um “guivech” ( ver cozinha búlgara) em Islamabad e isto nunca mais acaba. E depois, para que me percebam, não resisto a enviar postais destas localidades, com belas fotos de monumentos, que aí, naquela cidade onde estou naquele momento, me recordo. Lembro-me por exemplo de enviar uma foto da Torre Eiffel quando atravessava a India, de um postalinho do Taj Mahal quando estava precisamente em Dusseldorf, as Pirâmides de Gizé ( a única maravilha do mundo ainda viva) na altura em que visitava a Basilica de Santa Sofia na Turquia, a torre de Pizza ( para muitos um símbolo maior da disfunção eréctil) quando tomava banhos nas águas açucaradas de Maya Beach e assim, que isto nunca mais acaba.

Já hoje, com um sol que me convida à luxúria e ao prazer dos cabelos ao vento, garanto-vos que optei por passar este Domingo ( o quanto eu detesto Domingos – ver post) no sossego do meu lar. Era só isto, podem continuar a fazer aquilo que interromperam. Obrigado.

Thursday, January 26, 2006

Ben & Jerry’s do Chiado. Sexta-feira, 27 de Janeiro, entre as 17 e as 19. Convite Oficial




Os meus amigos bem me avisaram: "Alvim, olha que um dia destes ainda vais acabar a vender gelados!" e eu, tontito, respondia: "Vender Gelados! ora essa, isso nunca me vai acontecer e se acontecer terei sempre alguém entre tantos amigos, que me irá estender a mão! ouviram?" e depois disto, ria-me, feito parvinho!

Pois bem, meus amigos e amigas, isto, com verdade aconteceu. E vai ser já, agora, amanhã, Sexta-feira, 27 de Janeiro na Ben & Jerry’s do Chiado(Rua da Misericórdia, nº17)
entre as 17 e as 19 horas, nem mais. E o mais curioso é que as previsões confirmam-se: Não só irei vender gelados como precisarei de amigos e amigas para me estenderem a mão, que garanto-vos, eu devolvo o troco.

Agora mais a sério, faço este convite porque esta não é uma iniciativa normal. Porquê? Primeiro porque, já o disse, irei estar a vender gelados o que já de si não é muito habitual. Depois porque estarei ao lado do meu genial amigo Nuno Markl, que comigo fez a dupla mais bizarra que eu me lembro, precisamente, no Perfeito Anormal. E finalmente, porque as receitas das vendas destes gelados ( que são realmente muito bons! E falo mesmo a sério) serão revertidas totalmente para a Comunidade Vida e Paz, uma instituição de ajuda aos “sem abrigo” toxicodependentes.

Motivos mais do que suficientes para não nos deixarem ali sozinhos a comer gelados com a testa. Estamos lá entre as 17 e as 19 horas, Ben & Jerrys's do Chiado (Rua da Misericórdia, nº17). Estamos combinados?

Wednesday, January 18, 2006

Benfica


Nunca sei como será ser de outro clube que não o Benfica e também não quero. É uma ignorância boa, esta, a de não querer saber, a de recusar logo à partida o conhecimento de algo que não nos importa. Só me interessa o Benfica, confesso, e logo à partida é fácil perceber pela fria análise morfológica do nome, que o clube que amo, é uma instuição que pratica o bem, que pede, rogando, para que fique: Bem! Fica! E o bem, como se ouvindo, fica mesmo, e com ele, como se uma mágica terra se elevasse, ficam não todos os benfiquistas, mas sim, todos os benfiquenses.

Existe um “ismo” no Benfica de uma magnitude rara, que não se confunde nem se imiscui com outros ismos mesquinhos que outrora serviram doutrinas, reformas várias e pessoas poderosas. O Benfiquismo é um “ismo” dos bons, que se impõe, precisamente, não se impondo, que se percebe justamente ao não se perceber, e que mesmo não se vendo, se sente e sofre como se de um amor carnal de tratasse.

Quando se grita pelo Benfica é como se gritássemos em tenra idade pela nossa mãe mesmo sabendo que está ali tão perto, pela libertina vontade de gritar pelo que nos pertence, para que saiba que não somos de nenhum outro, para que fique claro que lhe dedicamos a rouquidão que se esmorece na nossa voz.

Sou do Benfica desde que me lembro e não tenho memória curta. É nela que cabem mil imagens que correm de calções agora mesmo. Lembro-me do Néné, ali vai ele, do número 7, calções brancos, por vezes com risco ao meio, chuteiras novas, o filho bem comportado que qualquer mãe gostaria de ter tido. Do Carlos Manuel, dos livres do Carlos Manuel, da garra do Carlos Manuel quando pegava a bola a meio campo e durante metros a levava com ele, como se fosse um gigante, altíssimo, como se a levasse para casa, imponente, quebrando a barreira do som com a velocidade que lhe imprimia. E o inferno era aquilo, o inicio da corrida, a multidão a levantar-se, ninguém quieto por um instante que fosse “oh senhor, sente-se lá para eu ver”, todos a falar com as mãos, a dizer “passa a bola” e “vamos vamos” “ é agora, é agora” “ força, força” ao qual se seguia, não raras vezes, um ciclópico “aaaaahhhhhh” num imenso coro de vozes, invariavelmente seguido de palmas e um sincrónico bater de pé, ou em outros casos menos felizes, apenas um bater de pé e nomes impronunciáveis.

Acho que já disse que sou do Benfica e nunca é demais dizê-lo, como daquelas vezes em que não nos cansamos de dizer “amo-te” a uma pessoa, mesmo que esta já o saiba há muito. Porque nos dá gosto dizer “Benfica” como se fosse um “Amo-te” repetido até à exaustão. Porque ser do Benfica é dizer “Amo-te” muitas vezes. Porque é o amor que nos une e nos cega e nos faz dizer que não, não é penalty quando todos sabemos que foi, ali, à nossa frente, “com o diabo” dizemos, mesmo não o querendo admitir, “não é, não é” sabendo que estamos a mentir. Porque o amor vê mãos onde não existem, este amor de que vos falo e escrevo agora, vê faltas que nunca foram cometidas, foras de jogo, cartões que ficaram por mostrar, culpas que nunca a nossa, mas também vê o resto, os equipamentos, os jogadores a beijar a camisola como se fosse um país, o ritual da águia que dá a volta ao estádio em busca de novos perdedores, desculpem, predadores, ainda o estádio, o velho e o novo, o luxo das cadeiras de agora e o glória das outras, o Eusébio, o Chalana, o Diamantino, o Veloso e a luz intensa que nos olha a todos. A luz, estranha luz esta, o hino do piçarra, a vaidade com que o canta, as bandeiras a agitarem vitoriosas, os golos, aquele e mais o outro que ainda hoje recordamos, as jogadas sinfónicas, os maestros de então, os golos, chegar muito cedo para ficar horas seguidas a olhar o relvado, os golos, as horas que passamos a entoar cânticos, a discutir os jornais, a falar sobre o Benfica, a telefonar para os amigos de outros clubes para lhes fazer inveja com os nossos resultados, a esperar sempre, os golos, os 5 minutos à Benfica, este inferno bom, o nosso, igual a nenhum outro, este Benfica, este estado de alma, este amor rouco que não nos cansamos de repetir mil vezes.


Esta é a minha participação para o livro "Ser Benfiquista"/Prime Books