Saturday, January 31, 2009

Jeff Buckley - Grace






Entrevista aqui do cidadão Alvim para o Blitz:

- Quando é que compraste pela primeira vez o disco da tua vida?


Para começar só comprei uma vez o disco da minha vida. E essa vez terá sido no longuinquo ano de 1994, num verão quente, numa altura em que ainda não havia alertas laranjas e que o Benfica ainda ganhava campeonatos seguidos. Esta última parte não é verdade, porque nessa altura, já não ganhavam coisíssima nenhuma.

2 - Que outra música ouvias tu quando compraste o referido álbum?

Estou aqui a fazer um exercício mental para ser honesto e aos 20 anos parece-me que ainda andava a ouvir ramones e sex pistols e dead kennedys. Não fui punk por muito pouco. A par disto, sempre ouvi Astor piazola, Frank Zappa, Erik Satie, Doors e claro, Ana Faria e os Queijinhos frescos.

3 - O que é que te atraiu para este disco do Buckley?
Já ter ouvido falar sobre ele nas emissões do António Sérgio. E de ter ouvido um ou dois temas e ter gostado. E ter ficado com uma daquelas vontades de o comprar, como quando temos muita fome e vamos limpando tudo o que é entrada enquanto não vem o almoço.


4 - Lembras-te da primeira audição? Teve impacto ou a tua relação como disco foi crescendo?

Sim, lembro-me de sentir um arrepio só igual ao que senti quando a minha primeira namorada me disse que se calhar estava grávida e que se calhar era meu. Notei que estava a ouvir algo diferente sim e rapidamente vasculhei tudo o que havia sobre ele para tentar perceber onde teria andado todo aquele tempo, sem que eu o tivesse descoberto.

5 - Ainda tens o mesmo exemplar ou foste renovando a tua cópia ao longo dos anos?
É claro que já não tenho o meu primeiro exemplar porque eu tenho uma espécie de amigos que tem a mania de vir cá a casa e dizer-me: " Vou-te levar este cd, mas juro que entrego amanhã!" E como advinham, até hoje. Foi o que aconteceu com o Grace. Felizmente tenho uma cópia.

6 - Com que frequência re-escutas o disco?

Normalmente, escuto-o para o dar a conhecer a alguém que me diz que não o conhece. Gosto de ser responsável por dar a alguém a primeira audição de algo que sei ser bom. Curiosamente, depois das pessoas saírem de minha casa, é quase certo que o ouço mais uma vez.

7 - O que é que faz esse álbum ser o disco da tua vida?
Porque foi o disco que ainda assim ouvi mais vezes. Que mais me orgulho de ter descoberto. Porque a voz de buckley é incomparável, de tal forma, que se pressente que tudo o que canta, de algum modo, já terá vivido. Aliás, de cada vez que canta, parece que lhe está a acontecer tudo outra vez.

8 - Já não se fazem discos assim? Fazem. Mas não são o Buckley. Para que me entendam, é como agora sair no mercado um modelo de um novo carro todo xpto, ar condicionado, jantes de liga leve e o diabo a quatro, mas caramba, um Ferrari é sempre um Ferrari. E um buckley é sempre um buckley. E um porto de 20 anos é – agora todos em corro – é sempre um porto de 20 anos.

Friday, January 30, 2009

Cheguei ao Twitter!


E pronto, cheguei hoje. Era necessária uma razão forte para eu perceber que não havia forma de eu não aderir ao twitter, e essa razão chegou, quando percebi que o nosso próprio Presidente da República já o usava. O twitter pode ser um novo brinquedo ou até uma nova moda, mas de uma forma ou de outra, deixem cá ver se é um brinquedo sério ou uma moda passageira. A partir de hoje em:twitter/fernandoalvim

Thursday, January 29, 2009

Eu, o Busto & o Bicho, hoje, no Casino, às 21:30

Um homem sonha, Deus quer e a anunciada quinta-feira, 29 de Janeiro, é – olhem a coincidência – precisamente hoje: no Casino da Figueira da Foz, às 21:30, será lançada a segunda edição dos meus 50 Anos de Carreira e vou estar à conversa, ou melhor, à desconversa, com dois dos três criadores do, debalde a sua ainda breve existência, já mítico Bruno Aleixo: são eles Pedro Santo (o Busto) e João Moreira (o bicho – mas não lhe digam que lhe chamei bicho porque o bicho acha falta de educação).

E é precisamente para não o irritar – porque, irritado, fica intratável e a mandar toda a gente ir comer cocó – que espero que todos compareçam a este grande encontro (ou grande embate, nunca se sabe), de modo a termos casa cheia, aconchegadinha, feliz. A entrada é livre.

Fica aqui a minha primeira tentativa de argumentação com o bicho, perdão, o Bruno Aleixo.


Charlie Winston - Like a Hobo

Wednesday, January 28, 2009

Nuno Gomes e Eu, na Sportzone do Colombo. Hoje, Quarta-feira, 19.30.


É a mais pura das verdades, Eu e Nuno Gomes, a dupla que tantos exigem para o Benfica, estaremos finalmente juntos para apresentar as botas de futebol adipure da Adidas.

O encontro está marcado para as 19.30 na Sportzone do Colombo onde farei uma curta entrevista ao Nuno Gomes para celebrar este acontecimento. Aceito pois tirar fotos ao lado desta glória benfiquista, até porque quero uma para mim de forma a servir de prova que isto realmente aconteceu. E vai vai mesmo acontecer. Daqui a poucas horas.

O amor quer-se disléxico que eu bem sei




Não sei bem o que é esta coisa do amor nem faço caso. Sei que é disléxico e se não se importam vou indo. O amor é disléxico sim, porque nos obriga a dizer o que não queremos dizer e fazer o que não queremos fazer. Eu, por exemplo, não queria escrever isto e olhem só o que para aqui faço. O amor baralha tudo, ouçam o que vos digo. E muda tudo, como se tivéssemos um filho. As pessoas que têm um filho dizem-me sempre “ um filho muda tudo” e eu invariavelmente lhes respondo: “ O amor também”.

O amor mudou-me muito e fez de mim mais homenzinho do que a tropa. Foi o amor que me fez homem, não as 100 flexões seguidas. Foi o amor que me ensinou o meu nome e não o sargento a debitá-lo alto. Foi o amor que me acordou cedo para o dia e não os passos firmes que diziam que eu só tinha 5 minutos. Eu quero ter mais de 5 minutos para me levantar e pôr-me lá fora que está frio. E o amor tem-nos, embora o frio permaneça. E eu nunca tenha ido à tropa.


O amor é disléxico porque nos faz esquecer qualquer construção perifrástica. Sobram-nos algumas vogais para entreter, mas é sempre muito pouco. Quando amamos muito regredimos imenso e damos por nós com tão poucas palavras, que por vezes parece que estamos a jogar ao pictionary, com a pessoa a adivinhar o que quererá dizer cada um dos nossos gestos. É um animal esse desenho aí? Gostas de mim, é isso? E nós, com cara de quem acaba de aceitar comer um belíssimo prato de Nestum Mel, lá vamos dizendo que sim com a cabeça enquanto soluçamos.

Não há muitas palavras para o amor e por isso, mesmo entre aqueles que se dedicam à escrita, percebe-se muito bem quem são os que sentem mais isto. São os que escrevem menos. As pessoas que amam muito, escrevem pouquíssimo e quando escrevem, normalmente optam por um poema porque é mais pequenito e tem menos palavras. Os poetas amam mais por isto. Olha-se para um poeta e vê-se que o indivíduo sofre para escrever aquilo. Um poeta ama sempre caramba, um escritor só às vezes. Convenhamos, olha-se para um escritor e não é a mesma coisa. A esta altura já alguns estarão a dizer que um poeta e um escritor vão dar ao mesmo e a esses lhes digo: Não me lixem! Eu, que nunca fiz um poema da mesma forma que nunca fui à tropa, nem nunca ouvi o meu nome vociferado pelo sargento, nem nunca me levantei em apenas 5 minutos que era assim que o meu pai me contava que se fazia. Eu, que não sei nada disso, sei no entanto que não se pode ligar para um poeta e dizer-lhe “ oh Herberto, faz-me aí um poema porreiro para o jornal de amanhã!” como muitas vezes acontece com a malta dos caracteres onde eu me incluo. Eu acabo de perfazer os meus e de assim vos servir, no total, 2668. Bom apetite.

Tuesday, January 27, 2009



O desafio era este: pegar numa fotografia nossa e a partir daí, escrever um texto sobre ela, para posteriormente ser editado na Revista Maio Claro que agora sai . A apresentação oficial é a 31 deste mês e o convite é este. A minha participação é a que se segue.

A minha participação na revista Maio Claro da grande Ângela Berlinde


Pensar nesta foto e no exacto instante em que terá sido tirada. Pensar no que terá dito o detentor da objectiva antes daquele click que nem sempre é audível. Eu sou do tempo em que se ouviam os clicks e que o mundo fazia barulho. Em que havia flashes e alguém dizia ironicamente "Digam Queijo!". Eu sou desse tempo, dos antigos ouviram? Em que as fotos extraordinárias que havíamos tirado nas férias do verão, afinal eram miseráveis – agora as vemos - porque teriam sido corroídas por uma luz interior que se nos havia escapado. Eu sou do tempo. Do tempo dos meus avós que se abraçavam a mim com mais força do que com os seus filhos – também os meus pais - e que na altura das fotos, não se importavam que eles não aparecessem, porque sabiam que nós representávamos os seus filhos e já agora se não se importam, os meus pais. Eu sou do tempo. Do tempo em que todos éramos filhos e quase não havia pais quando se avizinhavam os avós. Sim, sou desse tempo - como está? muito prazer! - em que não sabíamos se teríamos ficado bem na fotografia e em que, precisamente por isso, nunca apagávamos nada, mesmo quando ficávamos mal na foto . Mas agora, neste tempo, todos ficamos bem. E se ficarmos mal, tudo se apaga num segundo, tudo se subtrai como se nunca tivesse existido. Esta foto é de outro tempo, em que as coisas não se apagavam com tamanha facilidade. Em que as coisas más resistiam , mas as coisas boas também, tal qual os carros da Volkswagen.




O meu pai dizia sempre que os carros da volkswagen resistiam a tudo porque não-sei-quê da segunda guerra mundial, e eu , aqui dentro, queria que o meu pai fosse um carro da volkswagen. Para que nunca desse problemas.Para nunca me acabasse.




Esta foto nunca se deixou corroer por essa espécie de maresia corrosiva em que todos habitamos. Agora, as fotos modernas parecem que vivem junto ao mar, que se que deixam esvair na água como se fosse tinta débil, nesse sal que sabemos ser corrosivo. Esta foto resistiu a tudo e a todos, tal qual um carro da volkswagen. Quando a tiramos, nenhum de nós dissemos se podíamos olhar na objectiva a ver se estava bem, porque nós estávamos bem e era isso que mais importava. Hoje em dia, há pessoas que estão bem pior do que na foto. Naquela altura, nesta foto, todos éramos mais resistentes do que um qualquer carro da Volkswagen.

Esta Quinta Feira, 21.30. Casino da Figueira da Foz. Alvim vs Bruno Aleixo. Entrada livre.


É isto que aqui se vê. Esta Quinta-feira, dia 29 de Janeiro,é o dia escolhido para o lançamento da segunda edição do meu livro “50 anos de carreira”, o segundo de originais, depois de em 2003 me ter estreado com “No dia em que fugimos, tu não estavas em casa”.



Daí que seja importante que todos marquem presença em tamanho acontecimento, até porque – e esta é a grande revelação - a apresentação será feita por dois dos três criadores de Bruno Aleixo, o programa de maior sucesso do momento na Sic Radical. Pedro Santo e João Moreira- as vozes do programa- irão apresentar e entrevistar aqui o jovem autor, na Casino da Figueira da Foz, a partir das 21.30, num encontro que se prevê absolutamente apoteótico. E imperdível.



Uma semana depois – ou quase - regresso ao mesmo, mas desta vez, mais a Norte. Será dia 7 de Fevereiro na Fnac do Norteshopping, às 17 horas, o mais tardar.



A exemplo do que já havia acontecido com o primeiro livro, tudo indica que este segundo seja igualmente lançado em Itália pela editora Scritturapura.









Espero pois encontrar-vos na Quinta feira, 21.30, no Casino da Figueira da Foz ( a entrada obviamente é livre) ou no dia 7 de Fevereiro no Norteshopping.

Monday, January 26, 2009

Monstros. Cartaz 2.

Rui Santos


Acabo de ver na Sic Notícias, Rui Santos a dizer que Vitor Pereira é o Papa dos árbitros. Parece-me pois justo aqui afirmar, que Rui Santos é o Marcelo Rebelo de Sousa da bola.

Monstros do Ano. O primeiro cartaz.

Sunday, January 25, 2009

Lisboa, 30 de Outubro de 2001.




Acordar de manhã e olhar-me ao espelho. Ver-me ali, quieto, mudo, de gesto igual a todos os dias. A mesma imagem repetida, o mesmo rosto, a mesma face bucólica, a lâmina fria e afiada apontada a mim ,da minha gilete, em quem já não confio. Eu aqui, ainda eu, a passar as mãos por todo o corpo e a desejar-te neste suado reflexo. Quantas caras estranhas, quantos sorrisos benignos, quanto ânsia em te ter na palma desta mão onde agora escorre a herança de um sonho só meu. O futuro desfaz-se na água e não dentro de ti. O futuro foge-me, corre viscoso, libertino, devasso, por entre o pequeno ventre da minha banheira. Dizem-me que o futuro, este futuro de que te falo, tem sabor a sal, um estranho ácido - dizem, uma especiaria rara que celebra e exalta essa coisa a que a chamamos desejo.



Está a ficar frio aqui ou então sou eu que gelei mesmo com calor lá fora. Não me sinto, sei que existo porque ainda não perdi a coragem de olhar para este espelho, mas não me sinto, nada, não me sinto nada, apenas me olho e chego-me mais perto desta imagem imóvel, agora mais serena, húmida, onde despejo todo o vapor que guardei na minha boca para te desenhar com pormenor. Primeiro, o teu nome. Depois, o teu corpo, os teus lábios carnudos de batôn rosa-shock, os teus olhos muito redondos, os teus cabelos, a tua alma que patina alegre com o meu vapor. Que linda que estás, que bom seria se não te derretesses e ficasses sempre aqui, no estado sólido e não liquido, neste vapor quebradiço onde agora arrasto a língua, demente, ímpio, saboreando a água fresca que me vem de ti.


Ainda não me esgotei, ainda aqui estou, ainda não saí de ti, estou aqui, agora, com uma persistência velhaca, a contar-te histórias muito antigas como aquela que quase aposto já não te recordas. A história da menina que pensava não saber amar, pois lhe tinham dito, na sua tenra idade, que o amor é coisa de graúdos, de idade adulta, a que nunca chegaria com o seu olhar infantil. O mesmo olhar, que tratou com cuidado as pequenas coisas a que se foi dedicando na esperança de que um destes dias o amor lhe aparecesse. E o amor não vinha nem dava sinais, porque já lá estava. Porque o amor não aparece, nasce, da mesma forma que não morre, mas se esgota. E então um dia percebeu que o amor era aquilo, uma coisa muito simples, nada complicada, uma desilusão até, com tudo aquilo que lhe haviam dito. E então, percebeu logo ali, que sempre tinha amado embora não soubesse. E que sempre tinha sido muito feliz embora não gozasse a plenitude dessa felicidade porque pensava que havia uma outra , outra versão da mesma coisa. E que sim, sempre fora realizada, embora julgasse que essa realização só seria absoluta com a existência desse amor que não vinha. E o amor, de facto, nunca veio, porque já tinha nascido, com ela, sem que no entanto desse conta .O Amor não é palpável, é certo, nem voa nos céus em formatos cilíndricos, mas ainda assim vê-se, nos quadros, no cinema, no abraço quente, tão apertado quanto os outros , mas mais hermético, sem espaço para nenhum outro.


Incluído no meu primeiro livro " No dia que fugimos tu não estavas em Casa". Foto de Scott James Prebble's.

Friday, January 23, 2009

50 anos de Carreira. A esperada segunda edição.




Acabo de receber um telefonema da minha editora, que me revela que irá fazer uma segunda edição do meu livro que ao que parece terá esgotado. É pois uma alegre noticia para todos aqueles que ainda não adquiram tão notável e honrosa obra, escrita com dedicação e empenho por este rapaz .



A exemplo do que já aconteceu com o meu primeiro livro " No dia em que fugimos, tu não estavas em casa" , a editora italiana Scritturapura manifestou interesse em editar este meu livro também em Itália, o que significa que em breve irei passear-me pelas ruas de Milão e dizer a todos que conheço o Rui Costa ou coisa assim. O meu primeiro livro editado em Italia e que me levou pela primeira a este maravilhoso país, chama-se - reparem como é bonito: " Il giorno in cui siamo fuggiti tu non eri in casa". Lá aprendi, que ninguém conhece Marco Bellini e ninguém imagina que o segredo esta en la massa. Uma vergonha.




É monstro! É monstro! É monstro!




É definitivo, a primeira edição dos Monstros do Ano tem data marcada, cerca de 40 categorias e mais de 200 nomeações. Será a cerimónia do ano e é quase certo que iremos meter os Óscares e os Globos de Ouro num chinelo.


A partir da próxima semana, iremos começar a divulgar algumas das categorias e nomeações, mas a revelação dos vencedores será feita ao vivo, dia 11 de Fevereiro, no auditório do mítico Jardim Zoológico de Lisboa, às 22 horas, numa cerimónia que será apresentada por mim mas também por Nuno Markl. Tudo será transmitido posteriormente na speaky.tv numa produção da Cego Surdo e Mudo.


Para os que quiserem assistir a este cerimónia, saibam que deverão revelar essa intenção para este email: osmonstrosdoano@gmail.com . Na mensagem, devem deixar o vosso nome, número de b.i e muito importante, sugestões ( categorias e nomeações) que vos pareçam válidas para os Monstros. Isto é importante, pois as melhores sugestões serão reveladas na cerimónia na categoria Melhor sugestão do Público e darão direito à vossa entrada em tamanho acontecimento. Em breve, haverão mais pormenores em : http://osmonstrosdoano.blogspot.com/

Thursday, January 22, 2009

Maxmem. Mais um ano.


Uma prescrição chamada Portugal‏


Em Portugal criou-se o hábito de se resolverem as coisas ao esperar que as mesmas prescrevam. As pessoas têm esta esperança e não deve haver país no mundo em que reze tanto e tão bem pela prescrição.

A prescrição é basicamente estarmos quietos a ver se isto se resolve. Mas também é ter esperança. E existe uma esperança legal e uma esperança ilegal: A esperança legal, quase que depende só de si e manifesta-se por exemplo num jogo qualquer do Benfica, em que muito legitimamente temos esperança que a equipa ganhe, mesmo sabendo que o Binya pode jogar de início. E depois existe a esperança ilegal, em que já dependemos de outros e sobretudo do mau funcionamento, da ilegalidade, da sorte que se tem das coisas não funcionarem por aqui. Se repararem bem, é exactamente por isso que Portugal sempre que entra na fase de qualificação para um qualquer campeonato de futebol, tem que ir a contas. Isto é, tem agora que esperar que os outros percam ou falhem ou morram quando podia muito bem ter resolvido a coisa sem ter agora que estar à espera de ninguém.

E tudo começou com as multas. Não tenham dúvidas. Esta história da prescrição começou com as multas e alastrou-se a tudo resto. E da mesma forma que muitos não pagam as multas na esperança que prescrevam ou que venha cá o Papa, outros há, em que avisados sobre a lentidão da justiça, deixam que os processos se arrastem até se tornarem tão moribundos e sujos, que prescrevam. Daí que esta pratica compense e seja tão usual no nosso país, manifestando-se de outras formas como se fosse um vírus daqueles difíceis de combater, com outras originais denominações e sem vacina à vista.



A prescrição é sobretudo discreta e fala pouco porque sabe que a única forma de as coisas se prescreverem a seu favor, é precisamente ao serem esquecidas de tanto não as vermos, de tanto não falarmos sobre elas, de tanto nada fazermos para que ninguém as lembre. Daí que o melhor para algo se prescrever é não fazer, é não falar, é não dizer absolutamente nada a ver se passa.

E assim, do mesmo modo que se prescreve a maldita multa do radar do túnel do marquês, deixamos prescrever a nossa relação que tínhamos lá em casa. Da mesma forma que conseguimos que o processo que nos haviam movido prescrevesse, não conseguimos resistir a semelhante prescrição ao nosso emprego.

E assim Portugal vai-se adiando com a incontida alegria que todos sentíamos, quando adiávamos um teste na escola. Portugal espera que tudo passe a ver se isto se resolve. Portugal tem esperança que os outros percam. Portugal faz contas. Portugal espera que a professora eventualmente falte ao exame e assim o adie. Portugal está quieto. E a continuar assim, Portugal pode muito bem prescrever.

Tuesday, January 20, 2009

Como é que surge uma moda?





Como é que surge uma moda? – pergunto. Quem é declarou que a partir dali as pessoas deviam usar determinada coisa? Desde muita tenra idade que me interrogo precisamente com estas duas questões, de tal forma, que não raras vezes acordo a salivar-me da boca. Quem é que inventou a moda de um cafezinho no final do jantar? Quem é que disse que não ficava bem andar de meias brancas? A moda somos nós - já alguém terá dito- e eu não concordo nada. Nós? Não senhor, não sou não senhor, não me venham cá com coisas que eu não sou moda coisíssima nenhuma e não me agarrem, larguem-me larguem-me, eu não sou moda não senhor e estamos conversados por aqui.

E assim, quando no início das estações, vejo as editoras de moda a falarem na televisão sobre as tendências da próxima estação, juro que vejo em todas elas a Maya a dar as previsões para o signo caranguejo ou coisa assim. Elas a dizerem “bom eu penso que o próximo Outono vai ser em tons de verde alface! E eu a parecer-me ouvir a Maya “No amor, antevejo um período muito fértil!” ela a dizer “as botas de cano alto vão estar super em voga” e eu a ouvir “o caranguejo vai passar uma certa turbulência a nível profissional!. Daí que há muito não ligue a essas previsões, excepto as da Maya, de que gosto muito. Ainda outro dia a ouvi dizer: “ No campo profissional, o Sagitário vai ter um ano em cheio, com muitas possibilidades para ser promovido” e mal a ouvi dizer isto, corri para a Zara e comprei uma camisa em tom verde fluorescente.

Sunday, January 18, 2009

Este mês na Men's Health, este rapaz aqui!
























Não sei como poderei aqui revelar o que me terá acontecido nesta sessão fotográfica, mas aconteceu. Tive o dia de maior sorte do ano, talvez da década. Se repararem bem na penúltima e antepenúltima foto, há claramente um rio em fundo. E o objectivo era exactamente esse, desafiar a imensidão aquática e dar a ideia de que eu estaria numa situação embaraçosa. Não é nada disso que estão a pensar, nunca estive em risco de cair, não não morri, mas durante estes momentos que foram aproximadamente 10 a 15 minutos e com os meus braços a cederem a cada flash, o meu telemóvel preferido caiu de um dos meus bolsos e - agora é que é - sem que até hoje algo o consiga justificar - e não acredito que a ciência o consiga - conseguiu cair no único sítio onde se poderia salvar: na barra externa, desta ponte pedestre da Expo. Pode não parecer grande feito, mas vos garanto, que foi depois deste pequeno acontecimento, que percebi essa história dos sinais divinos. As fotos são de Sérgio Rosário.

Thursday, January 15, 2009

Será isto Bruno Aleixo?

Nota: A não perder, entrevista de Bruno Aleixo, esta Quarta-feira,dia 21 de Janeiro, no Pessoal e Transmissível de Carlos Vaz Marques.

Wednesday, January 14, 2009

Ui ca medo!





Está na moda ter medo, é fashion, nas ruas de nova Iorque não se fala em outra coisa. As pessoas têm medo de tudo, aposto que haverá alguém, neste preciso momento a ter medo deste artigo, a atirar o jornal ao chão e a correr pelas ruas da cidade aos gritos. O medo tornou-se uma marca mais poderosa do que a chanel e em nome dele praticam-se as maiores atrocidades, como se este fosse um novo Deus. As pessoas têm medo e eu não as censuro porque também o tenho. Mas não tenho medo de tudo. O mundo ocidental está a ser derrotado por isto, por este medo doentio, como se tivesse uma arma apontada à cabeça. As pessoas têm medo de falar, de escrever, de dizer o que pensam por temerem perder o emprego, os amigos, a mulher e os filhos e sobretudo a vida que têm ou pensam ter. Daí que seja comum que as pessoas que não têm uma vida, não tenham medo de nada, porque não há nada a perder. Quando se perde a vida, a nossa vida, ficamos com uma coragem de Rambo à nossa volta e com a faca na boca, deslizando pela cerrada vegetação, estamos dispostos a honrar a vida que nos tiraram, subtraindo a vida de outros, como se isso devolvesse a nossa.

Engano. A vida que nos é tirada não nos é devolvida deste modo, mas exactamente de forma oposta. É ao darmos a vida a outros, que ganhamos de novo a nossa. Mas não é fácil perceber isto, porque existe essa coisa a que chamamos vingança. As pessoas passam a vida a vingar-se da vida que têm ou da vida não têm, já não sei bem. Mas o que sei, é que se não houvesse vingança, não nos mataríamos tanto, inclusivamente, a nós próprios.

Mas calma lá, eu não estou aqui a citar a bíblia nem coisa parecida, não é nada disso. Eu não estou a afirmar que devemos dar a nossa vida pela dos outros, mas sim, e repito-o: a dizer que devemos dar novas vidas para além da nossa. Só isso. E não é pouco, bem sei.

Mas existe o medo – oh o medo, deus credo! – e é esse barulho que ouvimos a altas horas da madrugada na cozinha, que nos impede de sair do quarto quando é quase certo que foi um tacho mal posto, que terá caído sem que ninguém lhe tocasse. O mundo tem que sair do quarto sem medo e sem perguntar se "Está aí alguém?" porque se estiver alguém, esse alguém nunca irá responder com o tal medo que nos permite localizá-lo e fazer-nos disparar com o medo que trazemos. Porque é isto que aprendi nos filmes de acção. Porque o Rambo nunca pergunta se está aí alguém? Porque não está ninguém. Porque tudo não passa de um tacho mal posto no armário da cozinha.

Thursday, January 08, 2009

A ditadura da Felicidade



Hoje toda a gente quer ser muito feliz, não exactamente no dia em que estão a ler isto, mas possivelmente em todos os outros. As pessoas querem ser felizes todos os dias e ficam tristes se não o conseguirem. Há pessoas que só não são felizes por causa disto. Por não serem felizes de segunda a domingo. Daí que a felicidade devia adoptar o sistema há muito implementado na mulher-a-dias. Este conceito é vencedor, porque parte do princípio – para mim certo – que não podemos ter uma mulher todos os dias. Que já nos basta alguns. E que deveríamos agraciar o senhor por causa disso. E Deus sabe o quanto eu lhe agradeço. É ou não é verdade, senhor?

Pois é claro que sim. A felicidade também deveria ser entendida de igual modo. Como felicidade a dias. Ou num sistema dia sim dia não, ou tipo só ao fim-de-semana que é mais barato. Ou então de vez em quando e não se fala mais nisto. Mas a verdade, é que não é assim e todos os dias precisamente, somos pressionados a sermos muito felizes. É só olharem para o lado e perceberem o sorriso estampado no rosto de quem dá a cara por um qualquer anúncio. E reparem que quem vos escreve – olá como está, muito prazer - é precisamente alguém que ainda recentemente dava a cara por um desses anúncios- sim, sou o Vobis - onde aparecia com esse tal sorriso e ainda dois voluptuosos cornichos a ornamentar-lhe a testa. Daí que tenha legitimidade para agora escrever sobre isto, mas a verdade é que me custa que em todo o lado, todos me sorriam como se eu fosse uma criança que ainda não percebeu que isto não é assim tão bom. Querem um exemplo: O sorriso da marta da OK Teleseguro. Tudo bem que passou de telefonista para – ao que parece no último anúncio – chefe de divisão lá do Call Center, mas com verdade, digam-me: Que razões haverá para sorrir quando ligamos para um serviço destes? Olá Marta, estou aqui no meio da A5, bati com o carro com toda a força contra um poste de alta tensão e gostaria que me viessem aqui buscar com urgência. Até porque acho que devo ter facturado uma ou outra perna. E dito isto, imagino logo o sorriso da Marta do outro lado enquanto : Eh Eh, pois com certeza seu doidivanas, vai já par aí o nosso melhor bólide. Eh eh, tem bastante graça, não tem?

Não, não tem. Daí que não existam assim tantas razões para sorrir. Não é preciso sorrir Marta. A Marta não é o Jorge Gabriel, ninguém lhe acaba de trazer bolinhos regionais. Marta, para mim basta dizer-me que a assistência vai a caminho. Que está tudo bem. Mesmo sabendo que terá sido esse sorriso para o Chefe que a terá levada a essa promoção na empresa.

Wednesday, January 07, 2009

Are You Ready? de Solange Ribeiro


E pronto, mais um livro e mais um prefácio. Desta vez, é um livro que fala abertamente sobre o marketing com a asssinatura da belíssima Solange Ribeira. Chama-se " Are you o ready?". Eis o prefácio aqui do rapaz:

As pessoas pensam que escrever um prefácio é uma coisa muito fácil, chega-se aqui, dois ou 3 elogios de conveniência, que isto e aquilo, que nunca vi nada assim e pardais ao ninho e já está. E não é assim. Um prefácio é a cozinha de um restaurante, e por isso mesmo, tem que estar impecável. De tal forma que apeteça comer a seguir, o que neste caso particular, pode muito bem fazê-lo, desde que os funcionários da segurança do estabelecimento onde está a pensar em adquirir este precioso documento, não vejam. Aliás, se tiverem algum problema, não hesitem em exibir esta autorização que aqui deixo impressa : 'Para os devidos efeitos, o prefaciador desta obra dá autorização para que o prefácio seja comido pelo presente leitor. Obrigado'.

Antes pois de saciar o apetite, e se quiser, pode já ir comendo o primeiro parágrafo, mas entretanto, quero que saiba que Solange Ribeiro é para mim, justamente, a Vanessa Fernandes do marketing. Uma mulher habituada a vencer, com uma capacidade de resistência fora de normal e que esteve igualmente para ir aos jogos olímpicos de Pequim, como vencedora de um concurso de frases de uma conhecida marca de chocolates. A frase de Solange era muito bonita e certeira e foi por um triz que não conseguiu ganhar o prémio, visto ter ficado em 43ºlugar.

Solange Ribeiro é aquilo que a minha vizinha de baixo costuma apelidar de uma mulher 'Jeitosa' e a sua capacidade de produção é de tal modo extraordinária - sobretudo quando vem com uma saia justinha que eu gosto muito - que chego a ficar horas a fio a vê-la a produzir. E é um gosto. Solange Ribeiro sabe do que fala e este livro é a prova disso. Uma obra tão completa, que a li com a mesma sofreguidão que uma criança lambe o tacho onde a mãe fez o bolo e leva uma ' galheta' a seguir porque devia estar quieto. Este livro é por isso uma espécie de novo Pantagruel para os aficionados e se me permitem o Kamasutra do Marketing, visto nele serem defendidas muitas posições, alguma delas, pouquíssimo ortodoxas e por isso mesmo, muitíssimo saborosas.

É por isso um livro que se lê muito bem a qualquer hora do dia e também em qualquer lado. E não é pesado como o do Miguel Sousa Tavares, que anda aí a deixar muita gente corcunda e a ter que usar emplastro leão de forma regular. Pelo contrário, este livro, a ser usado, deve ser de forma vertical, exactamente, como a sua autora.


O livro, que é este aqui – por favor não o comam ainda! - é uma ferramenta de trabalho tão útil que não faltarei à verdade, se vos aqui revelar que não acredito, que depois dele as coisas continuem na mesma. Existirá pois o período antes deste livro e depois deste livro. E aqui entre nós, a melhor forma de assegurar o seu futuro, é pegar nesta obra – Que bonita que é! - e juntamente com o seu cartão de crédito, estender a mão à caixa de serviço com se estivesse num encontro do Igreja Universal de Deus e adquiri-la sem pestanejar. Não se esqueça de pedir recibo por causa da A.S.A.E. Não se esqueça de quem lhe recomendou este livro. Não se esqueça de pagar a luz. Lembre-se sempre deste nome maior que agora lhe chega às mãos: Solange Ribeiro.

Monday, January 05, 2009

O que é que está a dar?




De cada vez que saio à noite, há imensa gente que me pergunta: O que é que está a dar? E normalmente, quando o fazem eu tento reproduzir o que me dizem as pessoas que sabem o que é que está a dar. Eu desconfio sempre de coisas que estão a dar desde que vi um senhor munido de um microfone ao peito : era como se fosse uma harmónica igualzinha à do Bob Dylan mas o senhor era mais entroncado e não cantava o "Like a rolling stone". O senhor dava. Dava canetas e ia dizendo " chegue-se aqui, aqui não se paga nada, se não acredita, venha e comprove com os seus próprios olhos". E os meus olhos comprovavam o que dizia. O senhor dava canetas de borla, o senhor dava relógios e quando já muitos pensavam que o senhor estaria a cumprir uma estranha promessa onde não poderia receber dinheiro de ninguém, o senhor, este senhor de microfone ao peito, beneficiando do entusiasmo dos que o rodeavam convencidos de que aquilo que iria licitar a seguir também iria oferecer, vendia para espanto de todos – agora sim – vendia por bom preço, um que não valeria nem metade desse valor.


Daí que desconfie de coisas que estão a dar. As coisas que estão a dar são como as caixas Multibanco, aparentemente estão a dar-nos dinheiro, mas na realidade estão a tirar. Mas isto não quer dizer que eu não vá aos sítios que estão a dar. É óbvio que vou, mas quando o faço, tenho a mesmo atitude de alguém que vai no metro em hora de ponta: tenho atenção à carteira.




É muito raro que os sítios que estão a dar não se aproveitem indecentemente disso e aqui para nós, eu acho que fazem bem. E explico porquê. Porque os sítios que estão a dar, foram eleitos democraticamente. Isto é, existem outros locais. E se as pessoas pagam 5 euros por uma água de luso, é porque querem e porque sabem que não estão só a pagar uma água de luso, mas também a vista que é tão bonita e aquela loira que há tanto não víamos. É claro que é um abuso? – É sim senhor – É claro que é um roubo? – É sim senhor, agarra que é ladrão! - mas é o preço a pagar para estar num sitio que está a dar. Agora, quando existe uma situação de monopólio, a minha opinião é diferente. E obviamente falo das estações de serviço, dos preços praticados nos aeroportos, nos hotéis e nos comboios por exemplo. Isto é, vou à estação de serviço da Mealhada e como bom cidadão português que sou, deito a mão a umas enternecedoras sandes de leitão e quando vou a pagar: são 6 euros e verde código verde se faz favor. Pois bem e aqui o que é que eu faço? Vou à mercearia do lado que será mais em conta? Ou verde código verde? Pois não me resta outra possibilidade do que marcar os algarismos, que são obviamente a minha data de nascimento. E com um café a 1 euro no bar do comboio também? A não ser que salte fora em andamento sim. E 3 euros por 15 minutos de Internet num hotel igualmente? A não ser que vá de táxi ao centro da cidade às 3 da manhã onde possivelmente o cibercafé já estará fechado, sim. E um cházinho de menta a 2 euros e meio no café do aeroporto já na zona posterior ao ckeck in? Pois não é coisa que se escape, porque ninguém quer descalçar-se outra vez que o chão está frio. Isto sim, revolta-me e faz-me salivar da boca. Agora, os sítios que estão dar? Esses, vou precisamente enquanto estão a dar. E há muita gente à porta e raparigas muito perfumadas e um porteiro muito concentrado a dizer que aquele senhor pode entrar mas aquele outro já não poderá entrar. Com pessoas muito bem vestidas, com música na batida certa, com todos os ecrãs ligados na fashion tv, com toda a gente a fazer o que deveriam reservar para uma instituição humanitária: a dar. Eles sim.