Wednesday, January 31, 2007

Hoje é um dia muito bonito. Se ligarem a televisão, no canal 2, a partir das 8.30 - que é uma belíssima hora para acordar – poderão assistir à estupenda estreia de David. Uma série de desenhos animados onde aqui o rapaz é o principal narrador, juntamente com o pequenito David que impôs que o seu nome à produção portuguesa em detrimento do original, Billy. Para que saibam o David tem 4 anos e ainda não sabe ler e sendo assim, para que pudesse fazer as dobragens tinham que lhe ser ditadas cada uma das frases – eu assisti a isto. A produção a suar do outro lado do vidro que é assim uma espécie de aquário, a dizer: David, isto não vai custar nada! Grava mais um bocadinho que amanhã estarão cá os senhores da televisão! E não raras vezes, usavam-se técnicas ancestrais para que David gravasse mais um pouco. Rebuçados, chocolates, toda a espécie de sugus de fruta, enfim, um ver se te avias de oferendas que eram sempre olhadas com positivismo por parte de David.

As histórias desta série são muito engraçadas e se são crianças dos 2 aos 6 anos – eu pelo menos incluo-me nesta faixa etária – saibam que agora todos os dias, por volta desta hora - às 8.30 da manhã na RTP2- poderão ouvir-me a narrar cada uma destas histórias e imaginar o pequeno David a receber uma montanha de guloseimas por ter chegado ao fim de mais uma história.

Ficam só uns instantes para vocês. Olhem para isto:

Tuesday, January 30, 2007



E assim foi, vê-se alguém e dizemos para nós “É aquela, é aquela!” e no mesmo instante em que percebemos que é aquela, é aquela, a figura dela esvanece-se qual vidro embaciado em manhã de Inverno enganoso.

Tu és isso, vidro embaciado sim, outrora vapor, hoje manhã clara, tu és essa manhã em que fumamos à janela na esperança de te percebermos por entre aquela varanda, fixamente aquele estrado de praia, aquela luz que teima em ficar acesa quando todas as outras já se apagaram, tu és essa sim, a música que ouvimos no carro quando caminhamos para casa e nos cruzamos com outros condutores que caminham agora para os mesmos empregos. Liga os máximos para veres melhor, aumenta o volume dessa música para que não adormeças e escuta o que o dia te diz na claridade que te entra. Fecha o vidro, apaga o cigarro, concentra-te nessa estrada que te levará até casa, ouve-me a entrar por esses estores que repousam enganados, abraça-te aos cobertores como se fosse a mim e liga a televisão para que adormeças pensando que sou eu que te dou notícias frescas.

Esfrega os olhos, ajeita-te na cama, olha para esse retrato que insiste em fazer de conta que sou eu, lembra-te das pegadas húmidas que terei deixado naquela vez que entrei pelo quarto vindo do banho, remexendo as gavetas na esperança de que tu não acordes e denunciasses a minha presença. Dorme, não acordes ainda, deixa cá ver se fecho a porta de leve para só acordar os vizinhos. Bom dia como está?! - direi ao primeiro, Está um frio que não se aguenta - enquanto desço! - é mais um dia de trabalho! Que o que importa é saúde e até mais logo. Fecho a porta da entrada agora com força e sei que estarás por detrás da janela a adivinhares os meus passos. Ora o sinal do alarme - tic, tic – ora a porta a fechar – catapum – ora o motor que finge agora fazer-se morto apenas e só para o prazer da reanimação. A chave na ignição como se fosse uma bomba respiratória, tolhendo a boca do motor – brum brum – tentando outra vez – vrum vrum –nem um sinal de vida, mas já sem pronúncia do norte – vrum vrum e vamos a isto.


É de manhã, o trânsito é o que se sabe, parado nos semáforos apitam-me – smick smick! – no preciso instante em que muda a cor. Olho para o retrovisor e vejo-te a ti no meio de um autocarro cheio de pessoas exactamente iguais, iguais a ti. O motorista - olá como vai? – a senhora que se pendura a um dos ferros agarrando com muita força a mala que transporta - sou eu , sou eu dizes! – aquele miúdo , aquela mulher, aquele senhor, ticket ticket! – dizes brincando aos revisores – e de repente, uma paragem onde todos saem humilhando as outras saídas que esperavam ainda recebê-los.

Eis-me no carro a esta hora, a mesma música que ouviras no caminho para casa, o mesmo vidro embaciado, a mesma seiva que escorre agora por este vidro plano, o mesmo cigarro que apagaste, as mesmas notícias com as quais adormeceras. Eis-me – não finjas! a mesma foto que sabes não ser eu, o mesmo vulto que te trespassa, o mesmo jeito que te afaga e que agora caminha pelo mesma estrada que há pouco percorreras.

Eis-me de regresso a casa, metendo as chaves à porta – bom dia como vai, é a vida , é a vida, tem que ser ser! Tem que ser! – fazendo tudo para que não acordes, entrando devagarinho, devagarinho – shiuu! - não fazendo barulho algum - mesmo sabendo que no quarto onde te imagino, nessa cama que me aguarda, tu nunca estiveste, tal qual o vidro embaciado que agora é manhã clara.

Tuesday, January 23, 2007

Depois de terem visto um dos teasers do Boa Noite Alvim acho que merecem ouvir aquele que será o genérico final do programa. Tudo partiu de um convite que fiz ao J.P.Simões e que ele aceitou sem reservas. O outro convite foi feito ao Manuel Cruz que também aceitou, ficando-lhe reservado o genérico inicial. Para já fiquem-se com a criação de J.P.Simões e digam se fica ou não no ouvido?

Wednesday, January 17, 2007




Muitos me perguntam o que ando a fazer e com verdade, a pergunta poderia muito bem ser feita ao contrário: O que não andas a fazer? E assim, devo reconhecer que quando tomei a decisão de abandonar o Curto Circuito na Sic Radical e o Prazer dos Diabos na Sic Comédia a ideia seria entregar-me em absoluto ao meu novo programa na Sic Radical que se tudo correr como o previsto deverá começar em Março.


E assim foi, não tenho feito outra coisa, tudo em mim é um ínicio, é um regresso a casa se assim quiserem, uma redescoberta de algumas coisas que já nem sabia existirem, a fome de fazer algo que surpreenda, a vontade de reinventar tudo, de deitar no lixo todos os papeis que havia escrito e decidir que agora vamos por ali, vamos por ali!. Não vou dizer tudo - não teria graça - mas posso adiantar-vos que nunca como agora me senti tão capaz de fazer algo como o que irei apresentar. Tremem as pernas? Tremem. Rangem os dentes? Pois concerteza que sim. Certezas, há? Nenhumas. Mas que de outra forma se pode construir algo de novo, que graça teria se não fosse exactamente assim?


Pois bem, o programa chama-se " Boa Noite Alvim". É uma ideia original minha - o que já havia acontecido com o Perfeito Anormal que apresentei com o grandioso Nuno Markl - e pretende ser a minha última hora antes de ir para a cama. Terei dois convidados ou apenas um - ainda não decidimos - terá 50 minutos divididos por um intervalo que não demora nada não saiam daí e algumas rúbricas que a seu tempo revelarei.


A minha equipa não está fechada mas quase e não imaginam o quanto me orgulho de saber que estou com eles. Sinto-me seguro por serem estes e não outros e assim, sem qualquer ordem eis a apresentação oficial da equipa: Nuno Gervásio (blogdobide.blogspot.com); António Gregório ( diariodocil.blogspot.com); Eduardo Brito (finisterra-ruc.blogspot.com); Os Macondes; a princesa Sissi ( www.cenasdegaja.com); Lopes ( lopezpoop.hi5.com); Xana Alves; Nuno Costa Santos;Ricardo Sérgio ( Antena 3) e João Quadros (omalestafeito.blogspot.com). A estes juntar-se-ão ainda 3 actores e uma actriz: André Nunes, Pedro Marques, Rui Neto e Rita Cruz. E é isto.


Não posso adiantar mais nada mas posso revelar-vos um dos teasers que em breve passará na Sic Radical, foi gravado no passado mês de Novembro, num normalíssimo feriado nacional, onde no exacto momento em que decorriam as gravações me passa a correr em fato de treino - não me perguntem como foi isto possível - o presidente Durão Barroso. Não imagino o que isto pode quer dizer, mas é só para que conste. Eis o teaser:

P.S - A foto como não podia deixar de ser é da melhor fotógrafa do mundo, a estupenda Joana Linda: http://www.bright-white-light.com/

Thursday, January 11, 2007






Passo a explicar, isto não é uma declaração de amor nem sequer um exercício de escrita, não sei o que é, apeteceu-me, deu-me para isto, imagino que o estejas a ler agora, o cenário em que te imagino é este: uma casa de fim-de-tarde, um sol humedecido ( terá chovido toda a tarde mas agora não), há um cheiro a terra quente no ar e quando se avizinha alguém, os passos ganham proporções sonoras maiores. Por causa disso, porque a terra está húmida e os passos de alguém se agigantam quando assim é. A paixão pode muito ser este chlep, chlep, chelp que irrompe no silêncio. E eu, onde estou?


Respondo-te: Estou na minha sala do computador, a escrever para ti. Cheio de coisas para fazer mas nenhuma mais importante do que esta. Penso: Que estará ela a fazer? E pela primeira vez, sei exactamente o que estás a fazer. Sem qualquer dúvida, a ler esta carta.

Já cá estamos, saltamos este parágrafo de mãos dadas - quero que o saibas - e no salto que demos por pouco não embatemos num pronome indefinido. Agora os teus olhos. Eu gosto muito dos olhos, ouviste? Para que me entendas melhor, não é necessário ser grande oftalmologista para perceber que os teus olhos são de uma raridade só comparável à dificuldade que existe em encontrar o misterioso tesouro da cidade dos Incas. Eu gosto dos teus olhos, ouviste? E agora que falo nisso, imagino-te muito pequena, 6 anos, 7, a fazer aqueles primeiros testes que se fazem para sabermos se está tudo bem ( é a nossa primeira inspecção). Uma sala enorme, todos à espera que tu falhes para te chamarem “Caixa de óculos!” e “Pitosga” e tu, acertando sempre o alvo. O que vê daí menina ? Isto o que é? – e tu certeira, respondendo: É um A! – a sala quieta – É um Z – os colegas impacientes – É um F – um silêncio ensurdecedor, é um C de ....de... ( diga diga, diz o médico!) de...de...cegueta senhor doutor, e toda a sala de aula se ri.

Talvez não saibas, mas eu usei sapatos ortopédicos( hei não digas a ninguém!). Tinha os pés tortos – era o que se dizia – e durante muitos anos ( talvez 3 ou 4) ia regularmente fazer moldes em gesso numa lojinha perto das fontainhas, onde se realiza o mais tradicional S. João. Loja pequena, um senhor de cabelos muito grisalhos, óculos fundo de garrafa e uma bata branca que lhe dava um ar doutoral. O homem pegava em mim, ponha-me em cima do balcão e metia os pés num balde de água quente. O homem falava comigo e dizia-me “Sabes eu quando tinha a tua idade também tinhas os pés tortos e as raparigas, só por saberem disso, sabendo-me diferente, gostavam mais de mim que os outros rapazes! Por isso não penses que isto é mau, bem pelo contrário, isto é a melhor coisa que alguma vez te poderia ter acontecido! E quando acabava de dizer isto o homem pegava em mim, tirava-me do balcão e com ar paternal, olhando bem nos olhos segredava-me “ Vem cá, seu pé de gesso!” . Depois aconteceu o que se esperava. Os meus pés ficaram direitos, tudo em mim ficou igual a todos os outros, no recreio deixei de ser diferente, as minhas botas passaram a ser as de grande consumo, as raparigas olhavam sim, mas já não me chamavam “ o rapaz dos pés tortos!” e um dia houve, que com toda a força peguei nos meus pés com as duas mãos e tentei fazer com que voltassem à sua indulgente deficiência. Tornei-me igual, sabes? e daí tu não me reparares. Porque me vês igual aos outros, porque também para ti deixei de ser o rapaz dos pés tortos.

Hoje, quando chego aí, o que mais gosto são os teus beijos, muito chegados aos meus lábios, os teus abraços, muito chegados ao meu corpo, o teu cabelo ( que pena não se entrelaçar com o meu), os teus lábios carnudos ( para mim os mais bonitos), a tua voz de comando e todas as frases que começas com “Olha lá!” Como se isso fosse preciso, “olha lá” com se tivesse cabimento algum pedires-me para te olhar quando não sei fazer outra coisa , Olha lá! – pára lá com isso – Olha lá- não achas que já chega? E então, esta carta serve para isto, para te dizer que neste dia, aparentemente igual aos outros, o que me faz verdadeiramente falta, é ver-te a ti, é sentir-te a dizer “olha lá!”.