
Passo a explicar, isto não é uma declaração de amor nem sequer um exercício de escrita, não sei o que é, apeteceu-me, deu-me para isto, imagino que o estejas a ler agora, o cenário em que te imagino é este: uma casa de fim-de-tarde, um sol humedecido ( terá chovido toda a tarde mas agora não), há um cheiro a terra quente no ar e quando se avizinha alguém, os passos ganham proporções sonoras maiores. Por causa disso, porque a terra está húmida e os passos de alguém se agigantam quando assim é. A paixão pode muito ser este chlep, chlep, chelp que irrompe no silêncio. E eu, onde estou?
Respondo-te: Estou na minha sala do computador, a escrever para ti. Cheio de coisas para fazer mas nenhuma mais importante do que esta. Penso: Que estará ela a fazer? E pela primeira vez, sei exactamente o que estás a fazer. Sem qualquer dúvida, a ler esta carta.
Já cá estamos, saltamos este parágrafo de mãos dadas - quero que o saibas - e no salto que demos por pouco não embatemos num pronome indefinido. Agora os teus olhos. Eu gosto muito dos olhos, ouviste? Para que me entendas melhor, não é necessário ser grande oftalmologista para perceber que os teus olhos são de uma raridade só comparável à dificuldade que existe em encontrar o misterioso tesouro da cidade dos Incas. Eu gosto dos teus olhos, ouviste? E agora que falo nisso, imagino-te muito pequena, 6 anos, 7, a fazer aqueles primeiros testes que se fazem para sabermos se está tudo bem ( é a nossa primeira inspecção). Uma sala enorme, todos à espera que tu falhes para te chamarem “Caixa de óculos!” e “Pitosga” e tu, acertando sempre o alvo. O que vê daí menina ? Isto o que é? – e tu certeira, respondendo: É um A! – a sala quieta – É um Z – os colegas impacientes – É um F – um silêncio ensurdecedor, é um C de ....de... ( diga diga, diz o médico!) de...de...cegueta senhor doutor, e toda a sala de aula se ri.
Talvez não saibas, mas eu usei sapatos ortopédicos( hei não digas a ninguém!). Tinha os pés tortos – era o que se dizia – e durante muitos anos ( talvez 3 ou 4) ia regularmente fazer moldes em gesso numa lojinha perto das fontainhas, onde se realiza o mais tradicional S. João. Loja pequena, um senhor de cabelos muito grisalhos, óculos fundo de garrafa e uma bata branca que lhe dava um ar doutoral. O homem pegava em mim, ponha-me em cima do balcão e metia os pés num balde de água quente. O homem falava comigo e dizia-me “Sabes eu quando tinha a tua idade também tinhas os pés tortos e as raparigas, só por saberem disso, sabendo-me diferente, gostavam mais de mim que os outros rapazes! Por isso não penses que isto é mau, bem pelo contrário, isto é a melhor coisa que alguma vez te poderia ter acontecido! E quando acabava de dizer isto o homem pegava em mim, tirava-me do balcão e com ar paternal, olhando bem nos olhos segredava-me “ Vem cá, seu pé de gesso!” . Depois aconteceu o que se esperava. Os meus pés ficaram direitos, tudo em mim ficou igual a todos os outros, no recreio deixei de ser diferente, as minhas botas passaram a ser as de grande consumo, as raparigas olhavam sim, mas já não me chamavam “ o rapaz dos pés tortos!” e um dia houve, que com toda a força peguei nos meus pés com as duas mãos e tentei fazer com que voltassem à sua indulgente deficiência. Tornei-me igual, sabes? e daí tu não me reparares. Porque me vês igual aos outros, porque também para ti deixei de ser o rapaz dos pés tortos.
Hoje, quando chego aí, o que mais gosto são os teus beijos, muito chegados aos meus lábios, os teus abraços, muito chegados ao meu corpo, o teu cabelo ( que pena não se entrelaçar com o meu), os teus lábios carnudos ( para mim os mais bonitos), a tua voz de comando e todas as frases que começas com “Olha lá!” Como se isso fosse preciso, “olha lá” com se tivesse cabimento algum pedires-me para te olhar quando não sei fazer outra coisa , Olha lá! – pára lá com isso – Olha lá- não achas que já chega? E então, esta carta serve para isto, para te dizer que neste dia, aparentemente igual aos outros, o que me faz verdadeiramente falta, é ver-te a ti, é sentir-te a dizer “olha lá!”.