
Sou um fervoroso contestatário do Erotismo. Mandasse eu nisto, e já deve faltar pouco, e o erotismo seria banido de todo o lado. Não quer isto dizer que seja adepto da Pornografia – não sou – mas entre o Erotismo e a Pornografia não tenho dúvidas que gosto mais da segunda opção. O erotismo não me convence e nunca esquecerei alguns filmes que depois de me entusiasmarem me deixavam invariavelmente angustiado. A típica cena, sempre a mesma coisa: Os dois encontram-se, ajeitam-se, sentam-se no sofá, na televisão nada de jeito, amarrotam-se, as mãos dele, as pernas dela, os dois a procurarem o comando da televisão para a desligar e encontrando-o, ele olha para ela como se a perfurasse e desliga o televisor. As vozes são agora mais sussurrantes, não importa se os dois amantes ouvem o que estao a dizer, susurram e isso basta-lhes. Passa um carro ao longe, talvez nem tanto assim, mas ali, mais perto, lá em baixo na rua, ouve-se o barulho de uma porta a fechar-se com uma pancada seca, de alguém que acaba de chegar a casa e advinhamos a largar a mala e pendurar o casaco. Os dois, agora a olharem-se um no outro como se nunca se tivessem visto e se interrogassem a cada movimento. A mão dele na mão dela – eu no sofá a ver isto e a dizer queres ver que é agora, tu queres ver que é agora!– ela com a mão na camisa dele que vai puxando para si – tu queres ver, tu queres ver – a tirar os botões um a um – é agora , só pode ser agora – ele cada vez mais sôfrego , repetindo os gestos dela como se a imitasse – é agora, é agora – e no exacto momento em que tudo está a postos para um momento bem bonito de sexo saboroso, o realizador decidi mudar o plano brindando-nos normalmente com uma série de imagens paisagisticas muitas das vezes complementados por belíssimos temas do Mike Oldfield.
Bonito, não é?
Os adeptos do erotismo dirão que sim e eu respeito, mas o erotismo para mim é como entrarmos na cozinha, sentirmos o delicioso cheiro que vem de um dos tachos que estão ao lume e quando já mordemos os lábios na ânsia de provarmos o manjar, dizerem-nos que não, que o que ali está é só para vermos.
Com a pornografia , as coisas são diferentes e as conversas mais francas. Por exemplo, num filme erótico, quando o casal está no carro na esperança que ela ou ele a convide a subir é natural que se ouça algo como: “Queres subir e ir beber qualquer coisa? Sei lá, ver um filme, ouvir o novo album dos Sigur Rós? Enquanto num filme porno, na mesmíssima situação, a sinceridade chega ser comovedora como balas certeiras no peito: “ Como é, vamos lá em cima tirar esta roupa? E se subissemos a escada e descessemos um pelo outro?
Como é fácil de perceber, a segunda situação é mais franca porque escuta o pulsar dos corpos e não o esconde, nâo faz rodeios, não anda para ali com rodriguinhos, com isto e aquilo, entrega-se, rende-se, procura poupar em palavras aquilo que gasta em actos, que diz exactamente aquilo que está a sentir remetendo o erotismo para os filmes e não para vida real que é a nossa.
